Depois da tempestade
Por uma razão ou por outra, a moda de «Nadar» não chegou ao BLITZ. Pura e simplesmente não chegou. Dos seus autores, os Black Company, no entanto, vimos coisas boas em, pelo menos, um concerto com garra há uns bons meses no lisboeta Johnny Guitar. A certeza de que poderia existir mais música vinda do quarteto de Miratejo do que uma canção com um refrão a propósito de um MC que não sabe nadar era inegável. Mesmo através de «Rapública», colectânea que lançou o grupo e que incluía o tema «Psyca Style». Com um punhado de sorte numa mão e o sucesso de meses seguidos na outra, os Black Company chegaram até ao seu álbum de estreia sem percalços de maior. «Geração Rasca» é o título desse disco, um disco editado pela Sony Music que deverá começar, a qualquer momento, a colher os dividendos provenientes do investimento feito no ano passado em «Rapública». Sem Bambino e com um estranho telex da agência Lusa a abrir a conversa, o BLITZ falou com três dos Black Company, Jorge , Gutto e Makkas (ou, como também são conhecidos, com KJB, Bantú e Max The Criminal), a propósito de uma ascenção rápida e da adaptação à vida de músico profissional. Para ler com alguns «’tá-se bem» como condimento.
- Podem começar por explicar este telex da Lusa que tem como título «Black Company Contra Cavaco Silva».
Makkas – O «Abreu» é contra todos os políticos em geral. Neste caso, também um gajo inclui o Cavaco Silva.
Guto – Cavaco, Guterres, Nogueira…
Makkas – Quem tem dinheiro e poder é Abreu… Razão e coração, homens de confiança, são Abreus que andam pr’ai.
- Então quem vos pagou o álbum, na Sony, é Abreu.
Makkas – Nesse caso também
Guto – Nesse caso não sei se o Abreu deu cá o nosso ou se vai tirar cá o nosso.
- Vão tirar?
Guto – Quando um gajo tem sucesso, as editoras têm lucros brutais. É a lei normal do negócio.
- Como é que justificam que, de um dia para o outro, a canção de um grupo de rappers de Miratejo completamente desconhecido seja cantada pelo país inteiro?
Guto – Não justifico. Nem imaginávamos…
Jorge – Acho que nunca tínhamos medido bem o poder dos média e, em particular, da televisão. Foi depois de irmos ao «Parabéns» que fez com que, quando saímos à rua, ouvíssemos «olha os gajos que cantam o “Nadar”».
Guto – São coisas que acontecem de cem em cem anos. Inicialmente, os média deram mais apoio à música dos Líderes da Nova Mensagem, dos Family… O «Nadar» era música um bocado rasqueira.
Jorge – As pessoas gostam de pensar que o rap é só falar sobre racismo, discriminação e essas coisas. Nós, com o «Nadar», viemos provar que se pode fazer um rap alegre, diferente, noutro contexto. E o público gostou, acima de tudo.
Makkas – Quando estávamos em estúdio, os rappers e o people todo curtia era o «Psyca Style».
Jorge – Todos diziam que os Black Company não eram aquilo, não eram o «Nadar». É preciso ver que o «Nadar» foi o nosso primeiro tema em português.
Makkas – Foi feito com um feeling da Costa da Caparica, porque eu não sei nadar. Foi um feeling de cubículo, de sala de ensaio.
Guto – Nós ficámos à toa quando people nosso, dos rappers, disseram que o «Nadar» era menos rap que o outro rap. Uma pessoa não pode rotular as coisas dessa maneira, o rap está sempre a evoluir.
Makkas – Até o pior gajo do mundo tem momentos em que se ri.
- Houve alguma coisa neste espaço de tempo que separa a edição do «Rapública» das gravações do vosso primeiro álbum que vocês não voltariam a fazer?
Guto – A primeira coisa que eu quero fazer no próximo é gravar as vozes todas ao mesmo tempo. Em Portugal estamos a gravar rap como rock e não dá. Há músicas em que as vozes têm de estar lá, a surgir, com um gajo por trás a dar o «word-up»… Se estivermos lá os quatro, cada um com um microfone ligado à sua via, a coisa sai com muito mais feeling.
- Sem ser em relação ao álbum, que era o que eu queria saber, houve alguma coisa neste vosso processo de ascenção que tenha corrido mal?
Guto – Claro que sim. Nós tivemos um processo de evolução – até mental – para nos habituarmos ao estatuto que nos estavam a dar. Não queríamos esse estatuto, mas quando o começámos a assumir foi de uma maneira ingénua. Foi uma fase que tínhamos que passar.
- Era aí que eu queria chegar. Como é que justificam a diferença de profissionalismo e dedicação que mostraram ao público em dois concertos distintos que eu vi: um no Johnny Guitar e outro no Jardim do Tabaco?
Jorge – No concerto do Jardim do Tabaco fomos pouco profissionais, mas com justa causa. Não sei porque é que os média resolveram chamar ao General D o pai do rap, darem a cinco bandas dez ou quinze minutos de teste de som e ao General D duas horas e meia. Não pode ser só porque ele toca com banda, já que nós temos samples e todas as outras coisas que trabalham com o sistema midi, que é muito mais lixado. A banda pode improvisar, mas quando a máquina falha acaba o espectáculo.
Guto – Naquele momento havia, por um lado, o público generalizado que nos valorizava e, por outro, o público especializado, os jornalistas que percebem de rap, que não nos estavam a valorizar. Estavam a dar dicas de lado que nos estavam a deitar abaixo. Aquela era uma altura em que estávamos a dar o nosso melhor e estávamos a ser injustiçados. Foi o concerto em que as coisas explodiram – o Makkas tinha bebido e explodiu à sua maneira, daí todo o rancor.
Makkas – Black Company agora é isto (pega no CD de «Geração Rasca»).
Guto – Para além disso houve problemas em ensaios, em que não nos estávamos a dar bem.
Jorge – Sempre fomos um grupo habituado a cantar para amigos e, de um dia para o outro, apareceu o sucesso todo.
Guto – O pior ainda foi ter de bazar para digressão sem material, sem coisa nenhuma. Com o sucesso, tivemos que improvisar um espectáculo. Às tantas sabíamos que não estávamos a mostrar todo o nosso valor.
- É verdade que foram convidados para tocar durante a campanha eleitoral?
Jorge – Recebemos um convite para fazermos dez espectáculos.
Guto – Recebemos dois convites, um do PS e outro do PSD.
- Porque é que não aceitaram?
Guto – Para já, era uma altura em que tínhamos que descansar depois de andarmos na estrada o Verão todo. Já estávamos sem feeling nenhum. Depois, íamos entrar em estúdio e as coisas calhavam em cima umas das outras. Para além de tudo isso, não queríamos ser conotados com nenhum partido político.
Makkas – Eu sou de esquerda.
- Assim estão à vontade para cantar o «Abreu» em qualquer altura.
Guto – Claro, ninguém nos pode acusar de pressão ideológica. Podemos cantar o que quisermos quando quisermos.
- Falemos do álbum. Uma vez que a música feita pelos Black Company não é só feita de rap puro e duro e tem um forte lado lúdico – por vezes dançável -, não pensam que podem correr o risco de não terem mensagem nenhuma?
Guto – Quem disser isso depois de ouvir o álbum não vai ter crédito nenhum. Quem ouvir o «Mr. Dilla», «Sero +», «Geração Rasca»… Fui eu que fiz as letras e não gosto de ser gabarolas, mas há poucos rappers com letras tão sérias e dentro dos assuntos como essas. Podem ser poucas em relação às outras, mas estão lá e são sérias.
- Durante as gravações de «Geração Rasca», sentiram, de alguma forma, a pressão de terem feito o «Nadar», isto é, sentiram-se obrigados a procurar canções que resultassem comercialmente como «Nadar» resultou?
Guto – Durante as gravações não
- E quando escolheram os temas?
Guto – A escolha foi natural.
Jorge – Deixámos muito material de fora e essa escolha foi, também, feita com a editora. Por nós, o nosso álbum tinha 16 ou 18 músicas.
Guto – A Sony queria dez músicas, nós é que nos batemos para serem doze. No fim, tivemos que escolher as essenciais, umas porque falam de temas sérios, outras porque são fixes, outras porque têm refrões que ficam… Queremos um álbum rap de qualidade, mas tivemos que escolher um tema mais comercial para as pessoas quererem ouvir as outras. Não nos podemos esquecer que estamos em Portugal.
Makkas – Uma vez fomos tocar a Santo Tirso e eu apresentei o tema que íamos tocar a seguir, o «Filho Da Puta». Havia uma miúda lá na frente que se pôs a gritar «Isso á pecado! Não cantem isso!». E foi-se embora. Isto tira o feeling a um gajo.
Jorge – Houve outra vez, em Famalicão, que o Makkas estava quase a andar à tareia com um gajo porque ele pensou que estávamos numa de o ofender a ele com o «Filho Da Puta».
- Então quais são, para vocês, os temas comerciais deste álbum?
(N.R.: Aqui a confusão instalou-se, cada um para seu lado a justificar as suas escolhas. Pedaços de conversa que não se conseguem transcrever mas que se imaginam. Unanimidade só houve em relação a «Abreu»).
- Já que ninguém se entende falemos do tema que mais me agrada, «Vipes». Como é que aquilo foi feito, como é que apareceram auqelas guitarras ali pelo meio?
Guto – O Jorge levou uns CD para casa para ouvir e samplar. No dia seguinte, mostrou-nos em estúdio dois ou três CD com malhas de guitarra. Quando passou aquela escolhemos logo.
- De quem é o original daquele sample?
Jorge – Do Jimi Hendrix. As nossas fontes já nos disseram o que era aquilo.
Guto – A outra versão do «Vipes» era mais underground. Nós quisemos fazer um álbum diversificado e queríamos uma música com guitarradas.
Makkas – No próximo álbum, se for preciso, metemos mais duas ou três assim. É o meu feeling.
Guto – Depois daquela fase em que fomos injustiçados, queremos agora mostrar que, seja qual for o estilo de rock que façamos, fazemos bem. Provámos isso com este álbum.
Makkas – Mas eu não fiz este álbum para mostrar nem para provar nada a ninguém. O disco é assim porque eu sou assim, porque nós somos assim.
Guto – Este é o nosso feeling, Black Company é assim. Se calhar, Black Company até é mais underground do que isto, mas temos que fazer algumas concessões, já que o Makkas e o Bambino são mais underground e eu e o Jorge somos mais soft. Isto é uma mistura dos gostos todos.
- Quais são as bandas de rap preferidas de cada um de vocês?
Makkas – Eu gosto muito de Hate Squad, PMD, Das FX, Ghetto Boys… Não gosto do estilo de Los Angeles. Gosto do som de Nova Iorque, Wu Tang Clan, Method Man… Ice-T, Ice Cube, estão a desiludir-me.
Jorge – Isso não concordo, isso já é mais uma questão de gosto.
Makkas – Eu oiço metal de Nova Iorque e não tem nada a ver com a merda que se faz em Los Angeles. Eu oiço White Zombie, Biohazard, Helmet e estou a tripar. Depois vou ouvir Suicidal Tendencies e aquilo não me diz nada. Nova Iorque é tudo. East-side está-se bem.
Guto – Eu, apesar de gostar de coisas como Ghetto Boys, Das FX, gosto é de Arrested Development. Ou de Boyz II Men.
Makkas – Los Angels teve uma coisa muito fixe que eram os NWA.
- Voltando ao álbum: foi difícil transpor para disco canções que ao vivo tinham roupagem completamente diferentes?
Guto – Não. Havia músicas que eu sabia que todos gostávamos e que tinham feeling. As letras já estavam escolhidas e eu tratei de escolher os instrumentais, adequar e dar feeling ao som. Fui a França, voltei cheio de ideias novas, peguei nas músicas que estavam mais fracas e mudei. Fui eu que fiz a melodia dos instrumentais, e o André Roquete e o Tó Ricciardi enriqueceram o feeling que a gente já tinha dado.
- Passar o novo som para concertos vai ser complicado.
Guto – Não, porque agora actuamos com DAT, à old-school. DJ, DAT e feeling.
Makkas – O Gutto é mestre dos samples e dessas merdas todas mas eu ando sempre a massacrar-lhe a cabeça porque quero um som mais underground (risos).
- O que é que de mais significativo cada um de vocês tirou da experiência de algumas semanas dentro de um estúdio, onde a disciplina costuma ser fundamental?
Makkas – Eu não tinha experiência nenhuma de trabalhar em estúdio e as cenas, as bases, pareciam-me, ao princípio, melódicas demais, percebes? Eu deixei de ir ao estúdio durante duas semanas. Quando lá voltei mostraram-me o «Geração Rasca», o «Vipes», o «Posso Falar?» e o «Ressaca». Aí eu pensei «’tá-se bem». Eu devia confiar mais no Gutto porque sei que o gajo é capaz.
- No estúdio também era o Gutto que impunha a disciplina?
Guto – Eles estavam um bocado cépticos porque nunca tinham trabalhado em estúdio. Um gajo para fazer uma música tem que, primeiro, juntar uma data de sons. Depois tira-se este e aquele nas misturas. Na junção desses sons, havia alguns que não agradavam, mas um gajo não pode cortar sem experimentar. Houve alturas em que eles não queriam ir ao estúdio porque as coisas não estavam do agrado deles.
Makkas – Em termos de disciplina ninguém me diz o que devo fazer. Quando estou errado, sou o primeiro a dar o braço a torcer. Mas quando sei que estou certo, não queiras ficar ao pé de mim. Sou o gajo mais irritante que existe. Sou um gajo disciplinado quando quero, quando não quero não tenho disciplina nenhuma.
- A parte que cada um de vocês canta nos temas tem, directamente, que ver com a maneira de ser de cada um?
Guto – Sim.
Makkas – Quando eu escrevo as letras ponho um bocado de mim.
- Mas escreves uma letra para um tema inteiro?
Makkas – Não, o Guto é que escreve as letras. Só que, às vezes, quando eu não gosto, mudo. Tem que ver comigo.
Guto – Quando faço as letras faço uma parte a pensar em mim, uma parte a pensar no Makkas e uma parte a pensar no Bambino, a pensar na maneira de ser deles. Eu tento perceber de que é que eles gostam e tento escrever uma coisa que lhes dê feeling quando cantam.
- O Bambino, que não está aqui, de que é que gosta?
Guto – O Bambino é uma coisa muito esquisita.
Makkas – O Bambino é um bicho.
Guto – Por ele, começava a cantar a cem à hora e acabava a cento e cinquenta (risos). Se ninguém percebesse nada das letras, o gajo continuava fixe. É sempre a abrir. Em relação às letras, o gajo gosta é de underground.
Makkas – Em relação a mim, quando ouvires bem os temas vais perceber bem como é que eu sou.
- A realidade do gueto é-vos mais ou menos familiar ou as coisas que cantam são as mais óbvias e aquelas que todos conhecemos?
Makkas – A mim é-me familiar, muito familiar.
Guto – Eles os três é que têm grandes ligações com o gueto, eu tenho menos. Mas não é preciso ser muito esperto para ver o que acontece. A letra do «Guetto» também não diz nada que não se saiba.
- Então podia ter sido escrita por mim.
Guto – Podia, mas talvez não escrevesses com o feeling como nós escrevemos.
Makkas – Eu passava os meus dias no Vale da Amoreira e aquilo é mau, muito mau. E mesmo sem sair da Moita, existe lá o bairro dos pretos, é assim que se designa. É preciso conhecer as pessoas para compreenderes as suas atitudes.
Guto – O «Guetto» foi feito não como se fossemos nós a cantar, mas metemo-nos na pele de uma pessoa que vive naquele drama.
Makkas – É feito sobre quem quer lutar por uma vida melhor.
- E quando forem vocês a ter uma vida melhor vão fazer alguma coisa pelas pessoas do gueto?
Guto – Claro.
- Tu queres ser juiz. Se já fosses terias mandado libertar o O.J. Simpson?
Guto – Não. Um juiz não pode mandar ou desmandar, depende das provas que tiver. A impressão que eu tive como observador é que ele é culpado.
Jorge – Claro que toda a gente sabe que ele é culpado, mas ele é uma imagem dos Estados Unidos.
Guto – Isso não interessa, é por isso que eu não gosto de advogados e quero ser juiz.
Makkas – Esse gajo devia estar lá dentro.
(N.R.: Confusão outra vez. Assunto: O.J. Simpson, caso porteiro Manana Vs Cavaco Silva, respeito pelas figuras públicas, lamber botas a patrões, experiências profissionais pouco favoráveis nas obras e em fábricas de tijolo… Havia fotografias para tirar, embora os assuntos em cima da mesa não fossem nada desprezíveis).
Por Pedro Gonçalves para o "Blitz" |