“A perfeição não é tudo”
Ace é um nome conhecido do panorama hip-hop nacional muito por parte do trabalho desenvolvido com os Mind da Gap, um dos mais antigos e mais influentes colectivos do movimento nacional. Mas Ace não é só Mind da Gap, existe vida para além deste projecto e ideias muito próprias acerca do hip-hop e um estilo que difere em bastante do colectivo portuense. “Intensamente” é o nome do primeiro trabalho, um disco feito de intensidades, de rimas bem conseguidas e de instrumentais feitos pelo próprio. É um disco em nome próprio e, também, muito pessoal. Todo o processo foi efectuado por Ace, por isso toda a responsabilidade é dele e, sem falsas modéstias, assume todos os defeitos e qualidades do trabalho. “Intensamente” é um álbum bastante recomendado.
Ace também sempre foi frontal, por vezes mal entendido mas sempre com uma personalidade muito vincada. Foi com um músico consciente e com ideias próprias que estivemos à conversa.
- Este disco chama-se “Intensamente” mas, no grafismo, “intensa” está separado de “mente”. Podias falar-nos um pouco deste trabalho e desta separação de vocábulos?
Ace - A separação advém do facto deste disco ter sido gravado em momentos de grande intensidade emocional, é um disco intenso. Como foi tudo orquestrado pela minha mente...
- Neste trabalho afastas-te bastante dos Mind da Gap. Moves-te em ambientes bastante distintos, concordas?
Ace - Não sei se sou a pessoa mais indicada para responder a isso, acho que estou tão ligado ao meu trabalho a solo como ao trabalho dos Mind da Gap, não consigo encontrar um distinção muito nítida. A grande diferença é que, enquanto nos Mind da Gap, tenho de partilhar o meu espaço físico nas músicas com o Presto, e de certa forma tenho de partilhar as minhas ideias e os meus sentimentos com ele, e tenho de trabalhar sobre instrumentais feitos, quase sempre, pelo Serial é fácil de perceber que é um trabalho de equipa, no meu trabalho a solo sou eu que produzo tudo e tenho centenas de instrumentais que nunca vão ser usados para nada mas, estou a trabalhar de e para mim. Ao escrever as letras, são coisas que sinto ou senti e postas por cima, ou por baixo, de instrumentais que eu acho que vão encaixar ali na perfeição.
- Deixa ver se percebi, tu primeiro fazes as letras e depois os instrumentais?
Ace - Não, eu faço sempre letras e sempre instrumentais. Enquanto que nos Mind da Gap é encaixar a letra no instrumental já feito, aqui tive vários métodos, tinha letras escritas à muito tempo que recuperei e que juntei a instrumentais que já tinha e vice versa, acabei de fazer um instrumental e tive logo uma ideia para uma letra específica para aquele tema...não tive nenhum método de trabalho. Este disco foi todo feito em momentos, eu vou para o estúdio todos os dias trabalhar e aconteceu.
- Como é que foi a reacção dos outros MDG?
Ace - O Serial e o Presto são as pessoas pelas quais eu tenho mais consideração em termos de críticos de música, pelo menos no que diz respeito ao hip-hop, e, quando lhes mostrei o trabalho eles deram-me os parabéns e não podes ficar sentado em cima disto. Foi aí que senti que era mesmo um disco. Eu imagino-me na situação deles, e tentei fazer isso, não digo que me sentisse traído se o Serial ou o Presto fizessem um disco a solo mas acho que a minha reacção seria qualquer coisa do género...”Como é que é?”...Eu acho que isso eles sentiram mas, por outro lado, deixou-me bastante sensibilizado e orgulhoso de sentir que foi mais forte para eles darem-me toda a força.
- Como é que surgiu a NorteSul? Foi a opção óbvia visto ser a editora dos MDG?
Ace - Não foi óbvia, ou seja, não foi sempre óbvia porque perguntei a mim próprio se estava contente com o trabalho da editora em relação aos MDG. Tive mais propostas, de coisas maiores e de coisas mais pequenas, fui analisando todo o material que tinha e cheguei à conclusão que a NorteSul era a melhor opção. Eu sei que qualquer editora que pegasse no meu disco ia usar o nome dos MDG para o vender e, mal por mal, já que foi a NorteSul que teve todo esse trabalho connosco, devia ser ela a aproveitar-se de um trabalho que foi feito com eles.
- Estás contente?
Ace - Eu costumo dizer que a relação com as editoras é como uma relação com um patrão. Ele pode ser muito porreiro mas nunca é o melhor do mundo. Neste momento, o que posso dizer é que o contracto que fiz com a editora está a ser cumprido. Em termos de promoção, e essa é também uma queixa que tenho em relação aos MDG, acho que se nota um pouco de falta de ambição. Não é que tenha ambição de vender 50 mil discos do meu álbum a solo, até porque há Cd-r e Mp3, mas acho que o disco podia ser uma bocado mais bem trabalhado e isso era rentável não só para mim como para a própria editora.
- Preocupa-te haver cópias piratas do teu disco?
Ace - Houve alturas em que não me preocupava. Aliás, quando editámos o “Suspeitos do Costume”, chegou-se a falar da utilização ou não do sistema anti cópia. O músico perde muito pouco porque, quem ganha dinheiro com a venda dos discos é a editora e o músico, nessas alturas, tem sempre a tendência de se colocar do lado do público e, para além disso, não vou dizer que nunca fiz uma cópia na vida. Há músicos que me obrigo a comprar os discos porque acho que tenho a obrigação de os sustentar para eles poderem continuar a dar aquilo que eu gosto, que são bons momentos passados a ouvir música. Eu penso mesmo assim e não é por ser músico. Os artistas são pessoas um pouco amaldiçoadas, por um lado tem o dom de poderem fazer as outras pessoas sentir, por outro tem de vender aquilo que sentem para poderem subsistir. E é pena não existirem mais pessoas a pensarem que tem de ser elas a sustentar esses músicos para eles lhes retribuírem com boa música. Mas, também não acho que seja o público o principal culpado, e voltamos à conversa do sistema, os discos são caros demais! Eu quando vi o meu disco à venda pela primeira vez fiquei assustado, até pensei se dava aquele dinheiro pelo meu disco. Não há mercado em Portugal para se poder praticar estes preços.
- Não achas que devia haver uma política de protecção para os artistas portugueses?
Ace - Eu já nem falo nisso para depois não nos acusarem de nacionalistas. Mas claro que é! E voltamos à história de que em França, Espanha, Itália, etc sempre tiveram políticas proteccionistas e os portugueses sempre foram uns “pernas abertas” para tudo o que vem de fora. Passa tudo, também por uma questão de educação porque, em Portugal, o ensino é péssimo e a culpa não é só dos professores. Eles já tem tantas preocupações que não vão para lá ensinar cultura. Alguém tem de fazer alguma coisa. Numa altura em que são os próprios músicos a dizer que os seus discos são muito caros, é ridículo que ninguém faça nada. Assim, o país vai continuar na eterna lamúria.
- Voltando a “Intensamente”, achas que este é um disco em que está tudo como querias?
Ace - Está. Este é um disco feito como eu quis. Este foi um exercício de criatividade pura e por isso é que tinha de se chamar “Intensamente” porque foi um disco mesmo intenso, foi aquilo que estava a sentir naquele momento que saiu para as pessoas. Há takes que não são os melhores, há rap’s que não são os melhores mas acho que, mesmo assim, em termos de emoção está tudo lá. A partir de uma certa altura da minha vida comecei a preocupar-me muito pouco com a perfeição daquilo que fazia em termos artísticos. Acho que foi depois de ver o documentário do “Buena Vista Social Club”...
Gostava de passar um conselho para quem tem o disco...ouçam-no com headphones pois, este disco foi feito todo de headphones nos ouvidos.
Por Artur Silva para www.divergencias.com
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