Tejo Beat
Já lá vai o tempo em que rumar a uma noite de hip hop emergente seria equivalente a ter que descobrir algum sitio escuso, com precárias condições sonoras e feita para os amigos. Sexta-feira em Almada, o Zoom Café - com belíssima vista para o Tejo - acolheu curtas actuações dos MCs Bad Spirit, Kacetado e NBC, todos às voltas com os seus álbuns de estreia. E pela localização do espaço dedicado ao Dj e a clareira colocada à sua frente, ladeada por dois bares, logo se percebia que apesar do «café» que consta do nome do espaço, as funções são frequentemente de discoteca. Ao transpor a porta de entrada poder-se-ia pensar que seria mais uma dessas noites, desta vez com o hip hop a saltar dos pratos pelas mãos dos Djs Kronic, Cruzfader (numa exemplar demonstração técnica de como fundir dois discos dialogantes numa só matéria sonora) e Link.
Kacetado, cujo álbum "Ontem, Hoje e Amanhã" está prestes a ser lançado pela Kombate, mostrou em três temas que a grande arma de que dispõe é o ritmo que a sua voz transporta, qual planta trepadeira que envolve de forma natural a batida que a suporta. Mas apesar de se perceber um claro potencial no seu tempo de antena, há alguma verdura que, por enquanto, o impede de chegar mais alto.
Apesar de ter baptizado o seu disco de "Odiado e Mal Amado", Bad Spirit foi alvo de uma excelente recepção popular. Aqui a arma é mesmo a metralhadora verbal que Bad Spirit dispara para todo o lado, numa ira vertiginosa contra o estado das coisas. Produz aquele desconforto cru a que se reconhece valor. Depois de encarar o público a solo, vieram as participações de uma voz feminina soul/r&b em «A> (Os Culpados)» e o tema festivo da noite: «Em Família (Kara Podre)», com Mugsy e Wadada (dos Linha da Frente, em registo ragga), num belíssimo tema tribal, afrobeat, como o próprio Bad Spirit anunciaria.
Mas a prova de plena maturidade chegou de NBC, que pegando em "Afro-Disíaco" expôs uma postura muitíssimo segura e com uma desenvoltura arrasadora. Com NBC há canções, refrões fortíssimos e uma facilidade em alternar um modo rap que desliza sem qualquer atrito e um canto melódico soul na melhor descendência de Stevie Wonder. Está no ponto.
Por Gonçalo Frota para o "Blitz" |