O puto é tuga e dá-lhe!
Casa cheia, boa música e bom ambiente foram os ingredientes suficientes para sairmos de lá satisfeitos. Quem abriu as hostilidades foi o britânico DJ Harry Love que atrás dos pratos conseguiu desde logo pôr os primeiros pés a mexer. (...)
A certa altura sobe ao palco o MC Mystro, também britânico, vindo a Lisboa na qualidade de acompanhante de Braintax, com a missão de ir aquecendo o público para o que viria a ser o grande momento da noite: o concerto de Sam The Kid, pois claro, que desde o momento em que pisou o palco não se cansou de fazer aquilo que sabe melhor, cantar hip-hop em português como vai sendo raro no nosso país. As condições técnicas não eram as melhores (os beats vinham de um CD que teimava em acabar cedo demais), mas isso pouco influenciou a estrela da noite.
Fazendo-se acompanhar de GQ, Sam The Kid apresentou alguns temas do novo álbum, «Sobre(tudo)», e sem grandes rodeios provou aquilo que já se suspeitava: escreve em português como poucos sabem fazer e é um valor seguro do hip-hop nacional do momento, ainda com uma enorme margem de progressão. Sobretudo, tem a vantagem de ser sincero e de estar em palco «não para estar nos topes» (como ele próprio faz questão de cantar) mas pura e simplesmente porque é isso que lhe dá prazer.
E como bom MC que é, o puto Samuel consegue contagiar o público com esse prazer vital. Ao pé da sua actuação, a do inglês Braintax, em palco com Mystro e os discos de Harry Love, acabou por saber a pouco. A sua pronúncia cerrada não ajudava ao flow e mesmo as letras não passavam muito do «iá, estou aqui, old school pá carola». Não, não foi assim tão mau, mas a verdade é que do confronto entre dois estilos diferentes de fazer hip-hop quem saiu a ganhar foi, sem dúvida alguma, Sam The Kid, o puto de Chelas que meteu a representação britânica no coldre e nos fez pensar que, com ele e alguns outros que vão aparecendo por aí, ainda há esperança para o hip-hop em português. Nunca é tarde e tudo indica que, por muito que ele próprio não queira, Samuel ainda vai dar que falar.
Por João Dias Rosas para o "Blitz" |