Plástico Fantástico
Primeiro umas palavras para os fãs. São p’raí uns vinte, provavelmente todos amigos da banda. Como se trata de uma «Festa Rap» (e até que enfim que se faz uma «Festa Rap»), somos brindados com música ambiente de qualidade superior. O que se passa é que está muito pouca gente, e só esta malta é que parece ter vindo ao remodelado Via Rápida para ouvir rap.
Estes putos têm o espaço quase só para eles, e dançam e curtem a noite toda, fazendo daqueles movimentos acrobáticos a que só estamos habituados a ver nos filmes. Sempre alegres, não incomodam ninguém, são os únicos a aproximarem-se do palco durante a actuação dos Mind da Gap, cantam com eles, sobem ao palco, abraçam os rappers, etc. Esta malta é exemplar, do melhor que já vi em concertos. Cinco para eles.
O Via Rápida reconheceu, finalmente, a sua vocação para os espectáculos musicais. A nova gerência transformou consideravelmente o espaço, dando ao palco o destaque necessário, permitindo a realização de concertos em melhores condições, com a ajuda, é claro, de um material sonoro à altura. No futuro, existirá também um pequeno estúdio de gravação nestas instalações, o que poderá tornar o complexo do Via Rápida num ponto de referência para a cena musical do Porto.
Mind da Gap, então. Como referi noutras ocasiões, a sua virtude consiste em devolver a esta linguagem musical uma certa artificialidade que tem sido ignorada pelas outras bandas do burgo, à excepção dos Black Company (sendo certo que tal tendência não é limitada ao nosso país). Os Mind da Gap não recorrem a instrumentos tradicionais – o que se vê e ouve são dois rappers (Ace e, Presto) secundados por um manipulador de Samples, caixa de ritmos e pratos (Serial). Nada mais, e ainda bem.
As canções apresentadas são as mesmas que constam do EP - «Passeio Mental», «Pesadelo», «Deixa-te disso», «Tá-se Mal», «Dádiva» e «Piú-Piú-Piú». Esforçaram-se por animar o pouco público, e só começaram a desbundar a sério nos dois últimos temas, onde apareceram mais soltos, em clima de festa, fazendo deste segmento o mais agradável da noite. Pelo meio assistiu-se a duas sessões de improvisação, com a ajuda de um tal Laureano, no papel de caixa de ritmos humana. Ele marcava a batida, e os rappers iam na onda (em linguagem técnica, «freestyle»). Como estas coisas são fruto da inspiração do momento, teve partes engraçadas e outras muito confusas, de clara descoordenação. Um espectáculo globalmente positivo, inesperadamente transformado em festa, e que demonstrou que os Mind da Gap têm arcaboiço para ir mais longe. Oxalá…
Por J.M.L. para o "Blitz" |