Espinho na garganta
Facto significativo: o concerto da banda de hip hop local Shingaii é o único acontecimento nos domínios da música popular integrado no programa do «Tucátulá 2003» organizado pela câmara de Espinho para comemorar os dias mundiais do teatro e da juventude. Sinal evidente de que os tempos são, definitiva e felizmente, outros – há ainda não muitos anos atrás, qualquer ideia institucional de um «concerto para a juventude» era sinónimo de uma banda rock esforçando-se arduamente para mostrar os três acordes aprendidos em seis meses de audições de discos dos Nirvana, com uns versos cantados para dentro em inglês de Inspector Clouseau, no que seriam entusiasticamente «apoiados» pelos amigos e pelas gerações anteriores de bandas rock que também se esforçaram arduamente para aprender acordes pelos discos das bandas do costume, e que também cantavam uma espécie de inglês.
A eclosão do hip hop, muito mais do que um pequeno episódio musical, tomou o lugar do rock como guia de comportamento e de referência não oficial da adolescência. Tão simples como isto. Onde antes se lia «rock’n’roll lifestyle«, agora lê-se «hip hop lifestyle». Porquê? Porque, entre outras coisas, o hip hop, como universo ainda em expansão, dispensa a consciência de uma bagagem histórica (por muito que alguns falem em «old school», a verdade é que, na prática, o hip hop português e o seu público não podiam estar-se mais nas tintas para o «old school»), o mesmo tipo de bagagem que asfixia o rock em ciclos de revivalismo para confortar trintões.
No Cine-Teatro S.Pedro, a média etária do público anda claramente abaixo dos 20 anos. Todavia, apesar das boas intenções de dar um palco a sério e condições interessantes a um formato musical habituado às contingências técnicas do underground, numa sala alcatifada e mobilada com confortáveis assentos como esta dificilmente sobra espaço para a animação inerente à experiência hip hop. Em consequência, boa parte da assistência junta-se na exígua frente do palco e nos corredores laterais.
Os Shingaii aproveitam a noite para partilhar o tempo de antena com mais projectos hip hop de Espinho, num tipo de «showcase» de novo talento habitual em eventos neste território sonoro. Reduzidos a duo, os Nação Unida trocam os temas novos do concerto recenseado pelo Blitz na edição da semana passada por um par de temas breves mas igualmente intensos, com uma moldura instrumental levemente filiada no electro e profundamente dançável. Com idades a rondar os 16 anos, o grau de promessa que por aqui se sente é assinalável. Com um som mais ordenado (e pausado), e evidente inclinação para o discurso político (com a Guerra do Golfo em natural destaque), os Bunker Intervenção também têm direito a breve passagem pelo palco. Acabam de lançar o álbum «É Só Pedir…» em auto-edição, mas a prestação não é suficiente para aperceber se transcendem o manifesto social com acompanhamento neutro.
Dúvida semelhante percorre a primeira metade da actuação dos Shingaii. Num sotaque tripeiro especialmente acentuado para o palco, exortam os pais (alguns estão presentes, acompanhando alguns exemplares da prole que ainda não chegaram à adolescência) a deixar que os filhos sigam o desejo de ser MCs para evitar depressões futuras, e funcionam mais como jornal de actualidades do que facto musical completamente formado. O caso só muda de figura com o regresso aos microfones depois da furiosa contribuição do convidado Rey com «Foda na Moda» (refrão cantado em coro no mosh, batidas montadas com x-acto até sangrar) - «Spot Shingaii» traz funk comprimido para uma convincente celebração gangsta; «Eles Andem Aí» (sic) tem ar de êxito local, histórias de abuso da autoridade cruzadas com requintes teatrais; e «A Gera Permanece», divertimento para dançar aos saltos a evocar os Cypress Hill. Pelo meio, também é revelado um trio feminino, ainda sem nome, que inclui Nina, dos Shingaii, e Aisha, dos Bunker Intervenção, a prometer cruzamentos vindouros com o r&b e o breakbeat.
Por Jorge Manuel Lopes para o "Blitz" |