Acerto Musical
Os Guardiões do Subsolo, que vêm do Barreiro, têm no som marcas de quem já teve tempo para apurar uma linguagem musical e, talvez porque a segurança e a fluência que vem com a experiência é um instrumento musical invisível mas incontornável, conquistam a simpatia de um público, o portuense, que, regra geral, costuma receber o que não é da sua rua com indiferença.
Uma outra explicação para as relativas boas graças (ou seja, não só não desaparecem para o bar no início da actuação como ainda entram em movimentos corporais claramente sinalizadores de apreço, vulgo dançar) pode residir numa sonoridade com sinais que remetem para o modo de funcionamento do hip hop nacional da vaga de meados de 90, nomedamente do funk sujo e psicadélico de alguns temas, ou no apuro no mister de fazer canções onde os samples têm alto teor melódico e orquestral, assim como que uma versão menos elaborada dos Mind da Gap. Pelo caminho, os Guardiões do Subsolo verberam contra o racismo, a cobiça e a droga, oferecem muito amor à Invicta, e a Invicta responde solicitando um encore, onde sobressai ainda mais a (boa) costela pop da banda.
Do single no final do ano passado para "Erro Musical", o álbum de estreia cuja apresentação se celebra esta noite, a voz de Fidbek deixou de estar submersa nos meandros instrumentais e saltou para um primeiro plano quase cristalino, revelando-se uma das mais interessantes e distintas do hip hop português. Não apenas em disco, mas também ao vivo. Além disso, o seu repertório parece ter sido fotografado num instante de transição entre a rua e o laboratório, conseguindo preservar uma série de bons argumentos de ambos os cenários, a que se acrescenta um precioso e raro gosto pela diversidade estilística.
Parte dessa diversidade passa pelo Porto Rio, num concerto em formato quarteto de luxo: Fidbek e Martinêz nas vozes, Kiko e Bezegol na área técnica (isto é, por ordem, três MatoZoo e um dos DJs mais respeitados da coisa). «Do Mais Profundo que Há» deixa as palavras a pairar sobre ritmos que jogam às escondidas com o silêncio. «Amor Infinito» é uma breve, escura mas bem humorada vénia sonora e temática às tropas mais hardcore. «Música a +» atira-se de cabeça ao reggae, com um surpreendente refrão ragga entoado por Bezegol (que volta a dar nas vistas com um exercício de scratch, para o qual Martinêz convida o público a aproximar-se do púlpito do DJ). Antes da função, as colunas já haviam debitado «Continua», óptima fusão de hip hop com r&b, cortesia de New Max, dos Expensive Soul. Vem tudo em "Erro Musical". Que nada tem de erro.
Por Jorge Manuel Lopes para o "Blitz" |