Diário de Bordo (Ondulado)
À distância, Bad Spirit é um operador de palavras de baixa estatura emaranhado em roupa tipo camuflado militar uns números acima do necessário, mais um gorro que lhe confere um suplemento de uns quantos centímetros. As escassas dezenas de interessados que pairam no piso inferior do Porto Rio juntam-se em semicírculo à frente do rapper. Atrás dele fica a cabina dos DJs, ocupada por Link e Bezegol. Os DJs dominam o cenário num patamar iluminado e ligeiramente superior. Bad Spirit opera as palavras na penumbra, numa terra sem palco, as escassas dezenas de interessados criando a sugestão cénica de um grupo de linchamento que, lentamente, aperta o cerco à vítima.
Bad Spirit sobe à invicta para apresentar o álbum «Odiado e Mal Amado», um dos registos do ambicioso plano de edições da Kombate para este ano. As rimas que ele lança às golfadas, apoiadas num chassis musical que começa num minimalismo duro à moda do Porto e, aos poucos, deixa-se levar por funk com sabor metálico, projectadas neste sítio fumarento, escuro e de tecto baixo, e que, ainda por cima, abana com acentuado vigor (para quem conhece, o Porto Rio é um barco atracado nas imediações da Ponte da Arrábida; para quem não se lembra, a noite de sábado foi meteorologicamente pouco amistosa), deixam o espectador naquele estado sonâmbulo que caracteriza a sensação de perturbação mental que anuncia a proximidade de uma tempestade eléctrica. Isto é, naturalmente, um elogio.
Lá para o fim da breve prestação, a maior parte dos interessados iniciais recua para as posições pré-concerto. Nessa altura, já Bad Spirit tinha proclamado que o hip hop é uma ciência, já se lançara numa bem sucedida incursão por rimas em castelhano, já anunciara que «a situação está fodida» (não falava do estado do tempo, mas também faria sentido), e já mostrara que se ajeita bem com o ragga. O vazio é que não ajuda muito ao entusiasmo.
Por Jorge Manuel Lopes para o "Blitz" |