História do 52
Tempo de Antena
Os U.N.A., do Porto, mostram-se em palco como três rappers relativamente novos nestas coisas e bastante ruidosos nas intenções. O hardcore é a sua sina, e enquanto o jogo vocal tem um funcionalismo eficaz, a atenção acaba por deter-se na algo invulgar componente instrumental – minimalismo despido até ao osso rítmico, focos de jogos de ecos, murmúrios sombrios num quarto vazio às escuras, aparentemente despida de samples, mais perto das facas afiadas electrónicas da Warp e da Rephlex do que dos preceitos hip hop mais institucionais.
Com um arranque destes, esperam-se coisas auspiciosas de uma noite hip hop com sala quase cheia e cartaz religiosamente variado, com a presença de uma pequena comitiva do ainda muito pouco divulgado hip hop algarvio, mas a animação só regressa no fim, com a actuação de Berna. Maze, dos Dealema, mestre de cerimónias da noite, ainda tenta acordar a plateia, mas uma das expressões que usa - «é muita ganza, vocês estão todos mortos» - descreve bem a apatia benigna. Pelo meio, Auge arranca uma actuação breve e pouco entusiasmante, apesar da escrita automática mas lúcida aplicada a um mundo onde consciência social e política na primeira pessoa se confundem.
Odeo e Kusp, a dupla que veio do sul, põe o público em sentido e moderadamente atento com uma atitude musical e verbal dura. O Algarve que se projecta deste repertório violento, pontuado de suspense via silvos orquestrais, como que deseja revelar o asfalto que se esconde sob a praia – tudo razoavelmente sintetizado no quase épico «Benvindos ao Paraíso». Mas a energia e a atenção colectivas estavam (merecidamente) guardadas para o concerto de apresentação de “Reflexologia”, primeiro álbum de Berna. Cada tema é entoado em coro pela vasta representação de Aldoar, que recebe estas canções como crónicas neo-realistas do seu quotidiano. E é a celebração dessa banalidade feita música, das viagens no autocarro 52 às peripécias na escola, entregue com destreza, que faz deste concerto um momento de uma intensidade pouco comum. Berna mostra-se um dos mais convincentes e carismáticos rappers nacionais, e o que se escuta de «Reflexologia», com bases instrumentais de Mundo, dos Dealema, em módulo funk minimal futurista, sugere um álbum marcante no hip hop em 2003.
Por Jorge Manuel Lopes para o "Blitz"
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