Balas sobre o Lux
«Às vezes oiço uma voz dentro de mim/ E começo a escrever rimas sem fim/ Falo da realidade, da vida na cidade/ Nada consegue mudar a minha mentalidade». Quem o diz são os Micro, autores de um novelo de letras que se desenrola em nome do hip-hop nacional. Os rapazes voltaram à carga e a bom ritmo, com um novo álbum na manga e muitas rimas debaixo da língua.
Falam dos podres do bicho-homem, do senso comum, das luzes da ribalta, da violência da hipocrisia, tudo cartas de um mesmo jogo viciado. Contra isto se agita a bandeira do hip-hop, a espada sagrada dos insurrectos, o instrumento de crítica cirúrgica com que colocam o dedo nas feridas sociais e beliscam as consciências alheias à realidade das ruas. A urbe é passada a pente fino pelos temas dos Micro: em «Viagem no Tempo», «Microlandeses», «Os Olhos Não Mentem» ou «Faz da Vida um Vício», tema que encerrou a actuação do trio, já no tempo suplementar.
E o público dos Micro, vai além dos amigos do bairro? Vai. «A rima é um estado mental», partilhado por um efusivo clã de microlandeses, leia-se habitantes da Microlândia (assim baptizam os Micro o espaço ideológico onde se movimentam), que os seguiram até ao Lux, em Lisboa, na quinta-feira, para assistir ao concerto de apresentação do novo álbum de Sagas, D-Mars e DJ Nel’Assassin, exímio manipulador dos pratos, que voltou a dar provas concretas do seu talento.
Depois do anterior «Microestática», anuncia-se agora um regresso dinâmico em que a noção dos tempos, a métrica e a componente instrumental são objecto de especial atenção e resultam num todo estimulante. Os Micro são um bom exemplo de que o hip-hop pode ser feito a preto e branco. O público que o diga: betinhos e «dreads» à mistura, da casa dos 18 em diante, tornaram pequeno o piso inferior do Lux para tanto aplauso, tanto assobio e dança desenfreada.
«Estamos aqui juntos, num mundo à parte, no combate da rima…» E estiveram mesmo. A canção é uma arma e os Micro apontaram-na na direcção certa: desigualdades sociais na mira e um tiro certeiro ao comodismo instalado. «Não entres na história como mais um desperdício/ Não fujas da vida, faz dela um vício»: foram estas as últimas palavras deste trio incansável, já em tempo suplementar.
Antes dos Micro, Armando Teixeira, perdão, Vladimir Orlov e Kalaf Nicov já tinham requisitado os préstimos giradisquistas de Nel’Assassin (aqui sob o alter-ego de Nel Fahid) para a missão secreta dos Bullet, companheiros de editora na Loop, pela qual lançaram, há alguns meses, o excelente «The lost tapes». Um contributo essencial para a revitalização do hip-hop pela democratização das suas fronteiras, com a elegância e o bom gosto que lhe conferem o estatuto de um dos melhores álbuns de 2002, no que à produção portuguesa diz respeito.
«Não percebes o hip-hop?» - Sam The Kid (que também marcava presença na assistência) já dera o mote e os versos têm-se sucedido. Então ouve Bullet, Micro, Chullage… E restarão poucas dúvidas.
Por Catarina Sacramento para o "Blitz"
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