O golo que ninguém viu
O concerto de terça-feira na sala do Johnny Guitar foi semelhante a um daqueles golos que um gajo não vê quando está num estádio de futebol. O amigo pede um cigarro, chamamos «Ó cervejas!», o gajo da frente levanta-se para mandar para a zona púbica um qualquer elemento dos hooligans adversários, etc. Perante uma destas situações, quando damos por nós, a bola entrou na baliza, e, quando é golo de bandeira, só ouvimos à volta os «foda-se!» do costume e frases de fino recorte literário, como «Que golaço, meu! Viste aquilo?». «Não, merda», respondemos quando nos lembramos que não há repetição da jogada.
Assim foi a apresentação dos Family no Johnny Guitar. Para uma sala praticamente às moscas, uma das bandas que mais interesse me despertou em «Rapública», demonstrou que se movimente num universo levemente superior ao de alguns dos seus comparsas de edição. Entretanto, e como poucos estavam lá para ver, sempre resta a oportunidade de os observar em Gartejo na sexta-feira – esperemos que em «replay» mas, em circunstância alguma, em «slow-motion», se é que os rapazes conseguem ser moles.
Muito mais do que um rap em fase de maturação, os Family apresentam brilhantemente rascunhos que são desde o ragga até ao soul, onde se destaca a voz «coolíssima» de Melo D, um dos MCs que melhor cor dão às linhas do «Rhythm And Poetry». Com uma secção instrumental que ajuda a encher uma sala de som contagiante, desenvolvem exercícios, ora lúdicos ora sentidos, mas sempre com um apelo à dança a definir o resultado final. Para além de «Hip Hop Está no Ar» e «Rebola Bô Corpo» - o excelentíssimo raggamuffin que merece muito mais destaque, toneladas de destaque, do que aquele que conheceu até ao momento, os Family são senhores de uma capacidade envolvente que não deixa frio ou indiferente quem se atreve a experimentá-los ao vivo. E foi isso mesmo que se viu no Johnny Guitar, de visual afro misturado com os cânones ocidentais.
Já com algum atraso se iniciou a contenda. Por isso, a coisa não pôde ir muito para além dos 40 minutos o que, perante um projecto como este, até chega para perceber que ali têm material para edições em nome individual (andava por lá Nuno Faria, novo A&R da Poligram que, certamente, não me deixa mentir). Apesar de «Nadar» andar a ofuscar os olhos de muitos do que viram em «Rapública» uma inequívoca oportunidade para entender uma parte de rap nacional, os Family são, decididamente, uma das apostas que não se podem perder. Não se fechando nos próprios limites do rap ou hip-hop, também não vão assentar praça no ragga nem no soul ou na funk. Melhor do que isso, mexem-se com destreza por entre todos eles e, saliente-se, por vezes pensamos se darão por isso, o que os torna ainda mais interessantes.
Como já vem sendo hábito em concertos dos MCs portugas, no final entramos em fase de «jam session» em que quem está presente sobe ao palco. Na circunstância, General D, Q Pid, Zona Dread e Pac Man (Da Weasel) deram um ar da sua graça. Instalou-se o pagode, foi o que foi.
Por P.G. para o "Blitz"
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