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H2T - HipHop Tuga"HipHopalusa#0", Vila do Conde, 5 e 6/09/2002 - Sam The Kid, Dealema, 7PM, La Familia, Terrorismo Sónico e Mundo Secreto (in "Blitz" nº897 de 08/01/2002)

Hipopalusa
  Isto pode ser um assalto

  A organização do Hipopalusa começou por atribuir à edição inaugural o número zero que define os acontecimentos experimentais mas, lá para o final da noite de sexta-feira, isso já parecia esquecido perante uma evidência que, se calhar, já era antes de o ser, estando só à espera de um esboço de concretização: o apetite em fazer e em ouvir hip-hop em Portugal, ano 2002, justifica e ampara a realização de festivais dedicados ao género.

  O primeiro Hipopalusa surge encaixado na programação da Semana da Juventude de Vila do Conde. Tem entrada livre, como todas as outras actividades do evento e, na passada quinta e sexta, chamou ao descampado a um passo do centro da cidade umas razoáveis centenas de interessados, quase todos de tenra idade, boa parte proveniente do Grande Porto. São eles, mais outros tantos, porventura sem meio de transporte para se deslocarem a Vila do Conde, que enchem as noites de hip-hop no Hard Club. A que se podem juntar mais alguns faltosos de última hora na sexta, devido ao cancelamento da prestação dos Mind da Gap, devido a problemas de saúde do Ace. Os portuenses são substituídos pelos espanhóis La Família, única presença estrangeira no Hipopalusa, mas, apesar de algum interesse pela fluência, profissionalismo e capacidade de comunicação de um colectivo que diz encontrar mais afinidades com Portugal do que com Espanha, é notória a lenta deserção dos ouvintes.

  Este relativo desinteresse pelo que não é «nosso» está longe de ser circunstancial. As novas gerações adoptam o hip-hop feito em Portugal não apenas como banda sonora dos dias da adolescência mas também como um carimbo de identidade, pessoal e comunitária. Faz lembrar toda a história sociológica do rock? Claro que sim. A diferença reside na forte ligação entre essa identidade e o território onde ela se processa. Pode tratar-se de uma transposição em módulo mais ou menos pacífico dos feudos de rua e bairros de um certo hip-hop americano, mas os paralelismos com o outro lado do Atlântico, pelo menos nas movimentações no Grande Porto, ficam por aí, já que a dieta musical parece ser escolhida em função da proximidade geográfica, e na forma como isso se traduz em termos de afinidades vivenciais. Os exemplos estão à mão de semear. Na barraca de venda de discos da LowFly, montada nas imediações do palco, a pergunta mais ouvida durante os dois dias do festival foi, «têm hip-hop português?». Não tinham, o que não ajudou ao negócio. No entanto, na quinta-feira, após a actuação dos 7PM, algumas cópias da mixtape «Das palavras aos (Pr)actos» foram ali colocadas à venda. Os exemplares desapareceram num ápice.

  O forte sentido de ma lealdade quase de bairro tem como principal perigo uma certa queda para a insularidade. Nesse sentido, o cartaz do Hipopalusa deste ano é um bom princípio de desmantelamento de tribalismos impotentes, juntando formações das facções dominantes do Porto e Gaia (Mind da Gap, Dealema, Terrorismo Sónico), a projectos mais jovens de áreas ainda com pouco peso no hip-hop e frequentemente menosprezadas, como Maia (7PM) e Leça (Mundo Secreto), a um nome com peso mais significativo a nível nacional (Sam The Kid), vindo de Lisboa, núcleo com o qual a facção nortenha mantém relações de altos e baixos. Não ceder à tentação dos tribalismos é a primeira vitória deste festival.

  A outra vitória do Hipopalusa é dada pelas próprias bandas, sobretudo na mui inspirada noite de quinta-feira. Os 7PM revelam-se entusiasmantes desde a entrada em palco, as quatro vozes entrelaçando-se com espírito hedonista para dar o que uma das suas rimas define como «música para o povo». Uma atitude de abertura que marca a diferença entre a fixação pelo underground que domina a paisagem nortenha, e que se estende também pela abordagem de outros sabores sonoros, como o ragga e o funk, neste caso com a ajuda da guitarra de Mário Leite, e da voz e trompete de Orlando Pona, ambos dos Feed. Uma parcela significativa da plateia está aqui por causa dos Dealema, que mostram as roupagens de parte de material que vai integrar o álbum de estreia e que, pela amostra, pode revelar-se um dos melhores discos de produção nacional deste ano. Sobretudo «Brigada Digital Anti-Plágio», clima de guerra química sintetizada, de onde sobressai a voz de Fuse, o caos que se solta de «Bófiafobia», e a rigorosa batida electrónica de cabedal negro que marca o passo de «Infiéis».

  Sam The Kid chega acompanhado pelas vozes de GQ e Bellini, pelas mãos de ouro de DJ Cruzfader (que também brilha, e de que maneira, nos intervalos dos concertos), e por um Mini-Disc que só arranca ao terceiro «take». Nas primeiras filas, há quem grite «Samuel, casa comigo». Ele concentra-se nas canções, nas histórias dentro das canções, e nos ritmos que tiram o fôlego. A sua presença é sempre tão agitada que parece que nem ele sabe o que fazer a tanta energia.

  Embora interessante, a noite de sexta não consegue preservar o ambiente de celebração, descoberta e curiosidade da primeira sessão. Os muito jovens Mundo Secreto têm largueza de vistas, tocando levemente na pop, lançando breaks à discrição e navegando nas influências orientais do momento (Missy Elliott «oblige»). Há frescura na sua produção (introduzem um par de vozes femininas noutros tantos temas; o resultado, embora desencontrado, é um bom princípio de diversidade), mas percebe-se que ainda não sabem muito bem o que fazer em palcos de grandes dimensões. Depois de uma notória troca de plateia, a facção Terrorismo Sónico dos Dealema (DJ Guze, Mundo e Expião) dá livre curso a pulsões mais violentas, mas a máquina acaba por enferrujar com o trânsito intenso de convidados (Auge, Berna, Rey, Maze), que transformam a agressão em confusão. Ainda assim, a reunião final de toda a família para a interpretação do portentoso «Assalto» tem um fulgor contagiante, e capta o momento mais marcante de sexta. Os La Familia têm batidas aguçadas, histórias com sentido de humor e um DJ que revela virtuosismo aos baldes, mas a fórmula instrumental plana ainda não descolou do gangsta por alturas de 1993.

  Por Jorge Manuel Lopes para o "Blitz"

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