Isto é entretenimento
Agora que foi conseguido um circuito regular de concertos, pelo menos no Porto, faltava à cena hip-hop a visita de figuras internacionais para consolidar e recrudescer o trabalho feito. Mas o simples facto de serem artistas estrangeiros não fará deles visitas indispensáveis, pelo que o cuidado da sua selecção terá que ser uma prerrogativa essencial. O livro de contas diz que ainda não será altura de trazer nomes de primeiro plano, mas o obstáculo pode facilmente ser ultrapassado com figuras que compensem com igual qualidade aquilo que lhes vai faltando em quantidade de vendas e respectiva notoriedade. Assim sendo, a vinda dos De La Soul (apenas possível porque integrada numa lógica financeira de festival), de J Live, de Lewis Parker e de Richy Pitch revestem-se de uma importância fulcral. O passo é arriscado mas, mesmo assim, necessário. Não haverá cultura hip-hop relevante se este processo não seguir o seu percurso natural.
Quanto à prestação de J Live, em si, poderemos dizer que foi feita sem mácula. Abordou os temas dos seus dois álbuns, «The Best Part» e «All Of The Above», trouxe duas novidades, os temas «Here» e «Add A Cipher (5 – 5000)», e fez do Hard Club um local de verdadeira celebração musical – dizer que se tratou de hip-hop torna-se aqui irrelevante. Pelo meio e a terminar houve momentos de freestyle de embasbacar, coreografias à Rua Sésamo sem qualquer concessão ao ridículo, e um saber-fazer que nasce tanto do talento como de horas de prática num meio onde se respira hip-hop. Também forte foi o momento em que o tema «Braggin’ Writes» foi interpretado por J Live nos pratos, bem como o acelerado «Them That’s Not» vertido de uma forma alucinante. Mas os créditos não podem ir todos para J Live. Para que esta concerto tivesse o sucesso que teve, muito contribuíram MC Words-worth e Dj Flow Fader, ambos capazes de dar a devida réplica ao homem que encimava o cartaz, ambos com a mesma capacidade de encher o palco. Como bons alunos da escola americana que são, o que estes artistas nos proporcionam foi entretenimento. Puro, simples e sem subterfúgios.
Mas não podia faltar uma palavra para um importante factor destes concertos: as primeiras partes, que são asseguradas por nomes portugueses. Desta vez houve oportunidade de ver Fuse e um sistema de som à altura da sua força vocal e uns incendiários Expensive Soul com uma Jaguar Band em plena forma.
Por Sérgio Gomes da Costa para o "Blitz" |