A Rima é Uma Arte
O mote chama-se "Afro-Disíaco", o primeiro álbum a solo de NBC. A actuação, um showcase, ocorreu na abafadíssima sala da loja Fnac do Almada Fórum - com uma temperatura superior aos mais de 35 graus centígrados do exterior. Africanamente, a actuação estava marcada para as 21h00 - começou mais de 40 minutos depois. Africanamente, o people do hip hop foi compondo aos poucos a sala. A acompanhar o mestre de cerimónias Natural Black Colour estiveram Bomberjack nos pratos e, pontualmente, um segundo MC.
O que faz destacar NBC é o vigor com que rima, a entrega cheia de alma que impõe no seu palavreado, com a mais-valia de uma descontracção que se foi acentuando progressivamente ao longo da mais de meia hora de prestação, limitada pela pouca naturalidade que o espaço - uma pequena divisão de uma loja de um grande centro comercial - gera, apesar de alguma informalidade que se foi sempre notando entre a assistência e o artista. Além de um rap fluente, NBC demonstrou uma ainda mais interessante inclinação para a soul, numa prova de abertura do hip hop, fora dos apertados guetos. As duas formas musicais não se substituíam mas completavam-se e uniam-se. E abriram ainda espaço para pequenos tiques vocais jazzísticos à Luis Amstrong que NBC experimentou.
Nas mensagens, o discurso de habitual auto-estima, próprio do hip hop, como equilíbrio e provocação às injustiças provocadas por uma cor diferente e uma classe social diferente. E, claro, a advocacia de defesa do género musical, que não esteve naquela noite somente nas rimas das músicas, mas inclusivamente nos discursos entre as canções - «o hip hop não é feito para crianças, tenho 28 anos e não estou aqui a brincar»; «o hip hop dá-nos liberdade de expressão» - ou na defesa dos seus parceiros musicais - NBC definiu Bomberjack como «uma bomba». Quando as rimas e ritmos estavam a dar as últimas, NBC desafiou o camarada Chullage, que estava junto ao bar da sala, para um pequeno dueto espontâneo. Encontrou resposta negativa.
Conforme se comprovou na loja da Fnac de Almada, este "Afro-Disíaco" é especial: estimula mais a alma e a consciência do que os prazeres do corpo. Mérito então para o seu autor.
Por Gonçalo Palma para o "Blitz" |