É sempre a subir
Representando Carcavelos, os Mundo Complexo são capazes de ser o mais próximo que o hip hop nacional já esteve do «crossover» comercial com integridade e, se houvesse justiça, deviam já estar a vender estupidamente bem. Basta pensar na quantidade absurda de êxitos potenciais interpretados pelos MCs Ridículo e Tranquilo, pelo MC/ percussionista Tony, pelo DJ Kwan e pelo baixista Kissassa Godinho ao longo da hora e 15 em que estiveram no palco do simpático auditório temporário do Parque Eduardo VII. Em qualquer país do mundo onde a rádio tivesse ouvidos, a boa onda e os «grooves» clássicos de «Auto-Confiança», «Será Que…?», «Acção» ou do irresistível «Tomado por Maluco», a meio caminho entre o old school alimentado a funk clássico e a geração Soulquarians com uns pózinhos de reaggae, já teriam tomado de assalto as playlists – e há muito mais de onde esses vieram. E, das 50 pessoas que estariam de início, a lotação foi enchendo até triplicar pelo fim, tanto mais espantoso quanto, mesmo contando com a presença dos homies de Carcavelos, grande parte do público que foi ficando não tinha, claramente, perfil de seguidor do hip hop nacional.
Dito isto, os Mundo Complexo não mostraram, nesta noite, a veterania dos seus 5 anos de carreira. Se a formação cerrada dos 3 MCs começou desde logo a carburar a bom nível, com Ridículo, Tranquilo e Tony a passarem rimas como quem despacha uns 400m estafeta ao pé-coxinho na maior, a mistura de som levou tempo até cerrar, prejudicando essencialmente o trabalho de DJ Kwan. O diálogo saboroso entre as percussões e o baixo encetado em «Mandioca» não foi suficientemente explorado, e a sensação de jogar em casa trazida pela presença dos amigos acabou por jogar contra. Mas a energia e a boa onda sinceras mais do que compensaram as insuficiências técnicas deste pequeno concerto, suficientemente bom para dar vontade de ir ver o que estes gajos dão num palco a sério. Fiquem de olho neles.
Por Jorge Mourinha para o "Blitz"
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