Teatro Variedades
O impacto do primeiro álbum dos De La Soul, «3 Feet High and Rising», provocou um duplo efeito secundário de ressaca – como se não bastasse o grupo ter sido atingido pelo síndroma do primeiro álbum inultrapassável na exposição programática de uma nova linguagem musical popular, tal aconteceu num território, o hip hop, ao qual os ouvidos estreitos de muita opinião pública influente presta(va)m uma atenção residual. «3 Feet High…» passou não só a ser o único disco de hip hop nas colecções de discos de quem não liga ao hip hop (mais concretamente, da fracção indie, branca e esteticamente cristalizada; num acesso de desvario, podia, quando muito, estar ao lado de um registo dos Public Enemy), como também assinala uma espécie de apogeu numa alegada idade do ouro a que se gosta de chamar «old school» (facção purista, multiracial e esteticamente afunilada). Com este peso teórico nos ombros logo a partir de 1989, projectando a sua sombra sobre quase toda a carreira posterior do trio, os De La Soul adquiriram o estatuto dissonante de nome de referência e, sem qualquer justificação, de promessa nunca concretizada. O que fez com que o primeiro capítulo da trilogia «Art Official Intelligence» («A.O.I.»), editado há três anos, fosse recebido como um renascimento, uma merecida segunda oportunidade.
Esperava-se que as facções indie e purista que haviam vivido o embate com «3 Feet High…» em tempo real chegassem para meter no Coliseu do Porto um bom bocado mais de gente do que a assistência apenas razoável que lá esteve na última terça-feira, mas – e este é um facto que o escriba anuncia com imensa satisfação -, na verdade, quem se encontra em maioria na sala é uma geração que tomou contacto efectivo com os De La Soul via «A.O.I.». Isso torna-se mais do que evidente quando o anúncio de Posdnous e Dave de que o concerto passaria por momentos de «3 Feet High…», bem como a concretização da promessa via «Potholes in My Lawn» e «Me, Myself and I», não são recebidos com o mesmo entusiasmo e cânticos em coro que se sente em temas de «A.O.I.: Mosaic Thump», como «Oooh», «I.C. Y’all» e, sobretudo, «All Good».
O espectáculo que os De La Soul trazem a Portugal anda perto de uma actualização para MCs e DJs do formato «soul revue», captado em disco nos anos 60 nos dois volumes de «Live at the Apollo», de James Brown, e refrescado numa dimensão cósmica e heterogénea nos concertos de Prince desde a década de 80. O que se presencia não é uma sucessão linear de canções, antes um espectáculo de variedades onde o diálogo sensorial com o público é crucial para assegurar o ambiente de festa (e é preciso ver um concerto assim para perceber o despropósito com que tantas vezes se usa a palavra «festa»). Onde as canções adquirem o estatuto mais abrangente de momentos musicais, como pérolas que se fundem com o recurso a interlúdios que anulam o silêncio, um colar / fluxo sonoro a que Posdnous, Dave e Mase adicionam um jogo teatral permanente de sedução com a audiência, uma «one night stand» assumida por ambas as partes. A experiência dura quase duas horas, num intenso, ruidoso e veloz formato medley que inclui passagens por quase toda a discografia da banda, do material acima referido a «Ring Ring Ring (Ha Ha Hey)», «A Roller Skating Jam Named “Saturdays”», ou «Stakes Is High». Perto do fim, chamam as «ladies» para continuar a dançar no palco e elas, dezenas delas, acedem ao convite, esbatendo um pouco mais os domínios do palco e da plateia. Tal como o arranque da noite, a conclusão faz-se com Mase e Dave a caprichar no papel de DJs / animadores.
A prestação dos De La Soul é antecedida por um elenco nacional que se debate com um som deficiente e público que vai chegando a conta-gotas (a acústica do Coliseu não se dá bem com o vazio). Fuse explode nos tímpanos dos madrugadores (elogio), «Prémio Nobel» é um single soberbo, mas o efeito dilui-se em confusão quando os Dealema se juntam em palco. Os Micro demoram demasiado tempo a perceber que estão num concerto e não na sala de ensaio, e o seu tesouro de repertório só começa a ser entregue com alguma coisa remotamente parecida com entusiasmo perto do fim. Ao contrário do vendaval Sam The Kid, o homem que funciona a pilhas de lítio e, apesar do seu já lendário leitor de CDs (ou lá o que é) que não dá uma para a caixa, lança um alinhamento de todas as cores, onde até há espaço para desfazer a lógica funk, e traz alguns convidados, com destaque para o eléctrico NBC, a revelar um potencial formidável no cruzamento de várias músicas negras, e também o único representante luso da noite a aproximar-se da energia e sentido de palco dos De La Soul.
Por Jorge Manuel Lopes para o "Blitz"
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