Há qualquer coisa no ar
Não é, em absoluto, uma novidade, mas a inexistência de reflexos mediáticos das grandes movimentações hip-hop no grande Porto fazem com que cada incursão nos seus meandros ainda tenha o sabor de uma descoberta. Há pelo menos 2 anos que, no eixo Vila Nova de Gaia-Porto-Matosinhos, vão surgindo catadupas de bandas, criadores de graffitis e público devotado ao hip-hop. Todos de tenra idade. O universo hip-hop nortenho é maioritariamente branco e de classe média, e há um saudável equilíbrio entre os sexos. Uma visita às estações e apeadeiros desta área revela construções visuais de crescente apuro formal e constelações de nomes que continuam a existir apenas em festas para (crescentes) legiões de convertidos. Quase como que um mundo deliberadamente secreto.
Os muito jovens Mundo Secreto são de Leça da Palmeira e pertencem a esse mundo secreto. A sua prestação no B Flat, em Matosinhos, na passada 5ª feira, é uma amostra credível desse microcosmos cultural e artístico, oferecendo sinais de enorme vitalidade, mas também de algumas contradições – se, por um lado, se aproxima a hora em que a amplitude e força do movimento vai acabar por chegar a um qualquer patamar de «mainstream», também é verdade que a frescura da atitude e a vontade de mostrar obra continuam a sobrepor-se a uma atitude estética ainda crua.
O B Flat está repleto de amigos e colegas de andanças musicais dos Mundo Secreto. Na sua esmagadora maioria, aparentam pertencer à classe sub-18 (do palco, chega o pedido de «uma salva de palmas para o Sistema, que tirou hoje a carta»). O ambiente é descontraído e entusiasmado. Musicalmente, os Mundo Secreto apoiam-se em sumárias variações de secas bases rítmicas electro, a que se acrescenta o vibrar de um baixo, os acordes de um piano em regime circular, ou samples de orquestras. As bases instrumentais são accionadas a partir da mesa de som, deixando o palco livre para 4 desenvoltos MC’s, que submetem uma discreta pronúncia nortenha a rimas com um surpreendente grau de articulação e diversidade que, em alguns instantes, e entre curiosas cortinas onomatopeicas, passam por razoáveis exercícios poéticos. Um pouco mais de refinamento, e pode-se estar perante um importante caso musical.
Por Jorge Manuel Lopes para o "Blitz" |