A Prova Do Veneno
Os palpites deste escriba acertam completamente ao lado. Imaginei que uma festa rap na órbita do grande Porto com actuações de dois nomes de peso lisboetas (Chullage, Nigga Poison) e formações locais pouco (Afroclick) ou nada (Nação Unida) conhecidas, na mesma noite do concerto de aniversário dos Mind da Gap no Hard Club, escoaria todos os interessados nas coisas rap para a margem do Douro, deixando o evento de Espinho para meia dúzia de amigos das bandas em cartaz, perdidos na imensidão árida que as palavras «Armazém Zona Industrial» do cartaz (o nome é absolutamente literal, e não uma reconversão chique de toponímia não-«fashion») podem evocar. Contudo, a realidade mostrou outro quadro: casa grande e previsivelmente cheia em Gaia, e armazém reduzido a uma dimensão sensata e agradavelmente habitado alguns quilómetros para sul. Parece pouco, mas é um passo importante na confirmação do hip hop português como um conjunto de entidades estilhaçadas em rota de colisão com um cada vez mais amplo interesse popular (mesmo que o «movimento» ainda se ache preso, por questões estéticas, ideológicas e de traumas de crescimento, a uma paroquialidade underground).
Os NU (Nação Unida) beneficiam do efeito grupo-local e enchem as primeiras filas da plateia com um muito animado e muito jovem bando de fãs / devotos / amigos / familiares / vizinhos / colegas de escola. Quem já assistiu a um concerto de uma qualquer banda nova de hip-hop Nacional (e quase todas são, por definição, novas) sabe que muita da sua energia e inspiração vem do intenso sentimento de união (se quiserem, no sentido religioso e/ou familiar da palavra) que esbate as fronteiras entre artistas e adeptos. Essa manifestação de identidade passa pelas letras (as poucas que se conseguem compreender) e pela alegre energia que Irradia dos três MCs, temperada com as garrafas de vinho tinto (!) que vão transitando entre palco e plateia, e mostrada com um sentido cénico surpreendentemente apurado. O repertório tem algumas peculiaridades, alicerçando-se em estruturas rítmicas rugosas e dançáveis, suficientemente extensas para que palavras e música tenham tempo para brilhar.
Já com os Afroclick, a componente instrumental reduz-se a uma cortina de batidas ao dispor do que parece um Encontro Regional de MCs (e cameramen...). O aglomerado de vozes, que se sucedem em protagonismo segundo uma ordem que só os intérpretes devem conhecer, contamina a plateia com o vírus da festa. É improvável que coisas destas venham a fazer sentido em disco, até porque a música parece ser quase apenas um pretexto para a animação.
Nos antípodas desta abordagem agitam-se os Nigga Poison. Não que falte sentido cénico a Praga e Karlon (muito pelo contrário, mesmo que o resultado, à semelhança da música, saiba a desafio, a entretenimento onde o acto de comunicar é perturbado pela sombra de um comportamento instável - e isto, caso restem dúvidas, é um imenso elogio; além disso, subir a um palco nas mediações da Invicta com uma camisola do Benfica, gesto que soa muito mais a orgulhosa e necessária afirmação de identidade do que a provocação, ainda requer coragem), mas a singularidade da proposta sonora é um teste às fronteiras da tolerância do público que a dupla passa com escassos protestos. Na introdução, com «NP», as vozes já levam um balanço tremendo muito tempo antes de as batidas entrarem em cena para acompanhar o sample de guitarra acústica. Mas esta capacidade de manter um tema em fabuloso estado de suspensão é só um dos pratos da ementa. Os Nigga Poison atiram a política para um estado de sítio sónico (a acreditar nas explicações prévias de alguns temas, já que o grupo rappa em crioulo) digno das produções Bomb Squad, alinham rendilhados vocais sufocantes a velocidades impossíveis, deixam passar canções que levam o método esquelético de Timbaland a novas conclusões do lado de fora do invólucro hip hop. A soberba estranheza da coisa encontra par à altura na instabilidade do seu comportamento em palco: as tentativas de comunicar com o público soam a involuntárias transmissões de Marte. Se o que se ouve são amostras de um novo álbum, então é possível que esteja encontrado O disco nacional de 2003.
Todos esperam por Chullage, mas a sua actuação, que custa a arrancar pela malvadez das máquinas, arrasta-se tristonha e apática, a adesão não mais do que respeitosa ao balde de gelo lançado aos sentidos, até à chegada do infalível trio final, liderado pelo órgão que anuncia «Rhymeshit que Abala», seguido de «O Nosso Movimento» e «Mulher da Minha Vida». Subitamente, já tarde, acciona-se a ignição geral.
Por Jorge Manul Lopes para o "Blitz" |