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H2T - HipHop Tuga"Festival HipHop Em 4 Elementos", Hard Club, Gaia, 11 12 e 13/07/2003)

Siga a rusga

Um festival que serviu de pretexto para a abertura de um inquérito. Um inquérito que foi pretexto para falar de hip hop. A rusga segue dentro de momentos…

  Prólogo
  O hip hop nunca gozou de tanta popularidade em Portugal. As editoras organizam-se, os álbuns multiplicam-se, despontam as publicações especializadas, os concertos sucedem-se. Mas terá o fenómeno a sustentação que a aparência sugere? Tomemos como amostra a vertente mais empírica da questão: os concertos. Tomemos como área geográfica o Grande Porto. Haverá alguma razão para os concertos terem sempre assistência abaixo do ideal? Subtraídos os intervenientes e respectivos amigos, quem fica? A postura perpassa nas próprias actuações: assistem os amigos dos que actuam enquanto os restantes passeiam ou estão de costas (à espera que os seus amigos actuem também). Onde pára a fruição desinteressada de hip hop? O movimento parece estar na posição paradoxal de quase ter mais praticantes do que ouvintes. São poucos os projectos a conseguir angariar um número aceitável de espectadores participativos, não sendo só o factor qualitativo a ditar a regra. Há projectos nacionais (e não só) sem a devida atenção por parte de quem interessa: aqueles para quem é feito (e isto aplica-se aos concertos organizados por qualquer das famílias).

  Não somos o Instituto Nacional de Estatística mas resolvemos tomar três pessoas para elucidação desta questão. São pessoas interessadas na cultura hip hop mas desfasadas dos seus clãs e questiúnculas pessoais. Pretende-se com isto tentar perceber se é o argumento qualitativo que afasta algumas pessoas, até porque, não tenhamos dúvidas, é também destas pessoas que depende a sustentação do movimento. O pretexto não podia ser melhor, uma vez que é de celebrações como o Festival Hip Hop em 4 Elementos que o movimento se há-de cimentar. Foi um evento que padeceu de alguns males anteriormente descritos, mas que teve a extensão temporal suficiente para se notarem evoluções. Os efeitos benéficos da sua administração parecem ter entrado no organismo, agora é só preciso garantir as devidas recargas.

  Dia 1
  Na primeira etapa do festival fomos acompanhados por Miriam, que em muitos pontos corresponde ao protótipo de quem agora adere ao hip hop. Tem 15 anos, começou a interessar-se há dois, já assistiu a uns quantos concertos e compra discos sempre que pode. Como predilectos nacionais tem Fuse, Dealema, Circuito Secreto, Berna e Expensive Soul, enquanto na secção internacional destaca Jay-Z, Tupac Shakur, Wu Tang Clan, Busta Rhymes, Puff Daddy e Miss Elliott. Sempre que lhe é possível (ou a mãe deixa) vai aos concertos, tendo o de J Live sido o último. Os resultados dessa regularidade nos treinos não se fizeram esperar e à entrada no Hard Club seguiu-se um longo percurso para saudação de amigos. No entanto, e apesar de serem bastantes os seus conhecidos, a festa teve que ser feita com muito menos participantes do que seria desejável. A modalidade de bilhete único e mais barato para os três dias não teve grande adesão, pelo que foram poucos a presenciar a totalidade do festival. Em termos qualitativos, a falta de um nome internacional foi colmatada com a actuação dos Dealema. Embora só agora (em Setembro, ao que parece) os Dealema editem o seu álbum de estreia, o colectivo é já uma instituição no hip hop nacional. Nesta primeira noite foi o único projecto a angariar a atenção de todos os presentes na sala e a conseguir animar as hostes. A razão de tal entusiasmo resulta de uma conjugação de culto, bons temas, bons MCs e DJ à altura. Não é qualquer projecto que se pode orgulhar de ter quatro MCs sem que isso seja um atropelo de vozes e muitos menos os que se poderão vangloriar de ter em cada MC um valor acrescido. O certo é que o Hard Club cantou em uníssono os hinos, delirou com as novidades e respondeu com entusiasmo puro às descargas.

  Do que se pôde assistir nesta noite, os UNA apresentam-se com força, embora os instrumentais precisem de algo mais do que crueza e haja entre o trio de MCs quem não esteja a fazer os trabalhos de casa. Seguiram-se os KS Xaval, numa histeria próxima da festa de liceu, o que foi facilmente contornado pelos bons instrumentais. Xex, dos 7PM, foi o homem que se seguiu. Problemas de voz, enganos, temas ancorados em banalidades e ambiente hostil acabaram por não compensar a coragem de subir sozinho ao palco, ditando um fim antecipado da actuação. Por fim houve a prestação de Berna, membro dos LCR, acompanhado por Auge (que é uma daquelas promessas que tardam, talvez por desistência, em confirmar-se). No seu todo foi um concerto coeso, próprio de quem já sabe o que vai fazendo, embora sem o êxtase que já se exigia. Entre os concertos actuaram os DJs, mas infelizmente para as paredes. A tendência foi dominante em todas as sessões do festival, umas vezes por culpa do público (a tal situação de desprezo por quem actua), outras por culpa dos DJs, apostados em passar temas impróprios para consumo num ambiente festivo.
  No fim da noite, Miriam mostrava-se satisfeita. Particularmente severa em relação a KS Xaval e Xex, elogiosa em relação a Una e Berna, e sem poupar louvores aos Dealema, era a materialização de um saldo positivo para esta primeira noite. Não há-de ser por aqui que os concertos vão estar vazios, desde que a mãe, as semanadas e os horários dos espectáculos permitam.

  Dia 2
  Ao Mário, de 26 anos, coube a parte nobre do festival, a noite dos Blackalicious. Já lá vão sete anos desde que começou a ouvir hip hop, num processo gradual deflagrado pelo jazz e com Busta Rhymes como elemento decisivo. Há algum tempo começou a passar música em festas de amigos, e nos últimos meses continuou a experiência em alguns bares do Porto. Em conversa prévia, mostrou-se crítico em relação à postura adoptada nas sessões de Djing (que designa de vagarosas e pesadas) e compara as actuações de muitos MCs a «relatos de futebol», com scratchs em fundo a investir sobre «tudo o que mexe». Daí que não as costume frequentar por considerá-las uma «depressão». Quanto a si a solução até era simples: «Falta fazer a festa».
  Depois do filme que é estacionar um carro num raio de cinco quilómetros em redor do Hard Club, entrou-se no espaço para descobrir uma sala bastante mais composta que na noite anterior. Mesmo assim, e apesar de um saudável aumento na variedade das proveniências, estava-se muito aquém do exigível. Por esse altura os Terrorismo Sónico (com Mundo, Expião, Guze e, num tema, Maze) começavam mais uma prestação em casa. Infelizmente o cansaço da noite anterior fez-se sentir no palco e a explosão dos Dealema não se repetiu - é o que dá partir com expectativas demasiado altas. Há, claro, exemplos contrários, como a vinda dos Blackalicious. As expectativas eram altas, muito altas, mas nem por isso alguém poderá ter saído daquela sala triste. Começada e acabada com «Bow And Fira» (tema que introduz Blazing Arrow), a prestação dos Blackalicious teve tudo o que se poderia querer. Sem Chief Xcel (em casa a gravar o próximo álbum), mas com Gift of Gab, um DJ e dois vocalistas de apoio (um feminino e um masculino), este concerto mostrou, mais uma vez, a falta que umas décadas de diferença fazem. A noção da espectáculo esteve presente do princípio ao fim, não se perdendo com isso a mínima genuinidade. Gift of Gab, em modo metralhadora, mostrou-se um MC ainda mais completo do que os álbuns deixavam adivinhar, capaz de debitar palavras a uma velocidade estonteante, de soprar rimas sem piedade pulmonar e isto com uma voz capaz de ameaçar os alicerces da casa - sem perder afinação. Teve-se direito a todos os clássicos, skits personalizados, cruzamentos de géneros (pois é, as raízes são importantes), e a uma assistência rendida por tamanha festa. Precisa-se disto muito mais vezes. Com urgência.
  Coube aos C.S. (Circuito Secreto) a tarefa ingrata de suceder aos Blackalicious. A tarefa podia não ser fácil mas foi tomada a pulso, pautada por um som rude e coerente com uma postura sonora de rua. Acabaram por beneficiar, com todo o mérito, da exaltação dos ânimos e por entregar o testemunho aos Mundo Complexo. Artilhados com percussão e baixo, estes não parecem obter com isso quaisquer mais-valias, demonstrando ainda uma fraca tendência para prolongar os temas para lá do suportável.
  Em jeito de relatório, Mário garante que o que viu foi bem melhor do que o presenciado noutras situações. No entanto, continua a considerar os portugueses demasiado «negativos», excessivamente preocupados com «a sociedade e o sistema», e que nos instrumentais os beats tomam um indesejado domínio sobre os restantes sons. Sobre o evento considera o balanço positivo, lamentando facto de ter sido pouco publicitado.

  Dia 3
  A Ana é fotógrafa, tem a idade do Mário e o primeiro disco de hip hop que comprou foi dos Cypress Hill, já lá vão cerca de 10 anos. Mais tarde partiu para os clássicos, tanto do género como das suas raízes, e foi fazendo evoluir o seu gosto. Dos portugueses confessa conhecer pouco, embora se mostre receptiva. Como defeitos nos que conhece aponta um excessivo protagonismo das palavras e instrumentais repetitivos. Quanto a festas, não as frequenta com regularidade devido a algumas desilusões, mais por causa dos MCs do que dos DJs.
  A sessão que coube em sorte a Ana foi a da tarde de domingo, ou seja, a dominada por Fuse. A determinação deste em espicaçar os (poucos) assistentes deu resultados, originando um dos seus melhores concertos dos tempos recentes. De bom humor e com a pujança habitual, Fuse trocou as voltas aos temas, deu-lhes instrumentais inusitados e terminou com algum público em estado de amotinação eminente - para o que contribuíram alguns instrumentais a derivar noutros géneros mais incendiários. Antes de Fuse, a tarde seria também dos Kódigo 03, com MCs de Flow dominado e instrumentais condizentes, pelo que o tempo da prestação acabou por ser curto em relação ao que se pedia. Os Bunker Intervenção apresentaram-se sem Aisha, mostrando-se contudo, competentes nesse formato showcase. Quanto aos IRS, revelaram-se demasiado monótonos e ainda incipientes, com maturação completa e versos ásperos. No entanto, ao fim de três dias, e apesar de tão pouca gente, notava-se algo de diferente no ar: a festa já se começava a fazer.
  Já cá for a, Ana disse-nos ter admirado a «força e a garra» de Fuse, o seu espírito combativo, bem como o «som». Considerou a maioria dos restantes projectos bons (embora a repetição grassasse num ou noutro), pelo que ficou com vontade de reincidir com mais frequência nas festas do género.
  Acabado o festival damos também por findo o respectivo inquérito. As conclusões tire-as quem quiser, desde possíveis espectadores a organizadores, esperando nós que os bons concertos se multipliquem e que o mesmo aconteça a quem a eles assiste.

  Por Sérgio Gomes da Costa para o "Blitz"

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