Composto e produzido por Gutto e Boss AC, «Private Show» sustenta-se em mui convincentes instrumentais vestidos a rigor pela modernidade digital e esparsa em ornamentos. Nesse aspecto, este álbum, o primeiro registo nacional em formato r&b contemporâneo, é um começo feliz. Mas se o minimalismo fica bem à música, ele torna-se redundante quando aplicado à temática de quase todas as faixas – Gutto explica em grande pormenor à seduzida a noite que aí vem, Gutto sofre com o fim de uma relação, Gutto deseja a mulher do próximo, Gutto faz uma declaração de fidelidade… À canção (refinada) do engate corresponde um desfilar de canções em tempo lento, o que, prova a tradição do género, é muito pouco dado a ousadias.
Todavia, um pouco de insistência revela um punhado de variações acima da média, como a abertura com «Gutto Tava Aqui», com a voz de Prince escondida no refrão, ou «Já (Quero-te)», próximo de «No Scrubs», das TLC. E tudo se desculpa quando lá para o fim, há uma gloriosa festa ao ego em módulo funk e hip hop em «Quero Mais (Som)» a quebrar o molde, com um refrão irresistível cantado por Carla Moreira.
Por Jorge Manuel Lopes para o "Blitz" |