Hip-hop (legitimamente) de peito feito. O novo Portugal. Enquadramento perfeito relatado por Sam The Kid. O panorama musical português, dificilmente, poderá legitimar de forma tão vincada um álbum hip-hop como sendo o melhor produto do catálogo nacional como se prepara para assumir «Pratica(mente)», em 2006. O novo álbum de Sam The Kid apresenta-se como uma refeição muito generosa. Com muito conteúdo. Depois de entradas como "Entre(tanto)", "Sobre(tudo)" e "Beats Vol 1: Amor", «Pratica(mente)» assume-se como o prato mais refinado da cousine de Chelas.
Passe o pequeno desgaste que a saga de trocadilhos para os títulos de disco já soe redundante, Samuel Mira estilizou um género dentro do hip-hop tuga. E ao fazê-lo encarou o facto com muita preserverança.
O novo disco contém informação sem se dispersar. Da referência da escrita de José Saramago à pertinência de Carlos Vaz Marques. Da visão sobre tradição ampla e visionária de um passado diverso entre Carlos do Carmo e Duo Ouro Negro. Apresenta o Portugal de hoje quando convoca João Gomes (Cool Hipnoise, Spaceboys), Lil`John (Buraka Som Sistema, 1 Uik Project), Milton Gulli (Philharmonic Weed, Cool Hipnoise) ou Carlos Bica.
É saudavelmente primário quando apresenta excertos de conversas telefónicas. É auto-referencial quando coloca a intimidade familiar em exposição máxima nos conteúdos do disco. É desarmante quando revela um específico engrandecimento da sua personagem, sabendo que os níveis de humildade poderão ser atacados. Aproveita-se de assuntos recorrentes ao cânone hip-hop quando vira os azimutes para as indústrias e os «quase» contratados. Irrita-se com brainwash quando queria brainstorm. Faz analogias desconcertantes com a Piscina dos Olivais. Assume em sub-texto que tem o direito de continuar a escrever porque ainda tem muito para dizer.
O novo álbum de Sam The Kid, curiosamente, não deriva para a polémica, porque não é ambíguo. É chapa cinco. Os floreados recentes em torno dos mui considerados Moonspell não passam de uma agenda mediática com pouco conteúdo a explorar. A banda da Brandoa é enorme na sua área. Sam The Kid cimenta o seu trabalho noutro campo artístico. A leitura elogiosa a retirar do tema «Poetas de Karaoke» serviu outros propósitos mediáticos, muito mal geridos por algumas partes. Os próprios Moonspell, curiosamente, constam no lugar de destaque nos «amigos» do Myspace de Sam The Kid…
«Pratica(mente)» é um disco que prepara o desaparecimento do tão estimado «cansaço» nacional. Do desgaste do jogo «dos mesmos de sempre». É um álbum que assume o excesso. O pouco convencional. Evita o lugar comum de atacar o politicamente correcto. Sam The Kid assumiu-se. Os incomodados terão que esperar pela sua vez…
Por Miguel Matos para www.discodigital.pt |