Quem tem acompanhado o percurso dos Mind da Gap terá percebido os saltos criativos que o trio portuense tem dado de disco para disco - mas nada faria prever que, logo na primeira aventura a solo, o MC Ace assinasse um disco que ombreia sem problemas com a produção do trio. E a expressão «a solo» é aqui usada literalmente - rimas, batidas, gravação e mistura são do próprio Ace, numa manifestação de maturidade que cruza a intervenção take-no-prisioners dos Mind da Gap com uma desarmante sinceridade autobiográfica. As rimas tentativas e, por vezes, desajeitadas de outros tempos vão já bem longe, o discurso de Ace constrói-se aqui, inteligentemente, como uma extensão personalizada do universo dos Mind da Gap, sempre dentro das coordenadas bairristas da gera nortenha (Maze e Mundo, dos Dealema, fazem perninhas por aqui).
É certo que o disco soa não raras vezes como uma versão nacional do actual panorama West Coast pós-gangsta (a sombra de Eminem não anda nada longe em «De Gaiolin a Novagaia», por exemplo…). Mas ouçam-se hits evidentes como «Cor de Laranja», «Eu Consigo» ou o imbatível «Tu Sabes» e perceba-se que há aqui um desejo pop que apenas pode jogar em favor do movimento, contribuir para conquistar públicos alheios, sem nunca ceder desnecessariamente nem trair a cena. Dezanove temas e 74 minutos parece, no papel, estupidamente excessivo mas, na prática, resulta às mil maravilhas e dá vontade de seguir o conselho: mostra bem o teu orgulho, põe este som bem alto.
Por Jorge Mourinha para o "Blitz" |