«Nadar» não é para aqui chamado. «Geração Rasca», o álbum de estreia dos portugas Black Company, vai valer por si próprio e, mais importante do que isso, vai engrossar a frente que representa a área musical mais profícua este ano no nosso país: o rap/hip-hop e variantes. É, precisamente, por falarmos em variantes de cada vez que discutimos um disco de rap português que somos levados, pela primeira vez, a constatar que já vai sendo possível saber o que é o rap português e como é que ele se define. No fundo, o que todos nós já sabíamos fazer em relação ao rap francês, ao rap inglês ou ao rap americano, east-coast ou weast-coast que seja. Então é assim: o rap português tem como característica fundamental o facto de ser um rap fusionista, que no mesmo tacho em que já são corriqueiras as pitadas de funk e soul, fazem cozinhar referências como a importante música africana ou os sons característicos da história da Jamaica. World-rap, é isso que se faz em Portugal.
No caso dos Black Company, o quarteto composto por três rappers e DJ, tratam-se dos rapazes que mais sorte comercial tiveram com o investimento no futuro que representou «Rapública». A recompensa encontrada foi, obviamente, a gravação de um álbum. À primeira audição, «Geração Rasca» desengana todos aqueles que, provavelmente como eu próprio, não esperavam grande inventividade musical por parte dos Black Company. Isto porque, apesar de os concertos que a banda deu nestes meses ao sol serem, na sua maioria, momentos de energia e pujança, a verdade é que, musicalmente, os temas sofriam da falta de adorno, vivendo sobretudo das características de cada um dos MCs e do esforço do DJ KJB, obviamente limitado por alguma falta de meios. Vai daí, o grande mérito da eficácia musical de alguns dos temas de «Geração Rasca» vão, não só para Bantú (também conhecido por Gutto) que na cabeça compôs as canções, mas também para quem dominou as máquinas, no caso André Roquete e Tó Ricciardi. Aliás, estes dois manipuladores já tinham mostrado uma obra exemplar quando agarraram em «Nadar» (não pronuncio mais este título) e o transformaram num maxi-single com versões dançantes para todos os gostos, do dub ao house.
Os Black Company, apesar de não traírem os princípios do rap como forma mais ou menos simples, dura e directa de transmissão de mensagem, também não deixaram, através deste «Geração Rasca», de investir na componente comercial que fizeram incluir em algumas canções como «Abreu» (o primeiro single e um «N***r» em potência, garanto eu), «Pura Ressaca», «Sero+» (este algo soul, que não fica nada mal), «Snookar», «Eu Quero» e «Sem Parar». No fundo, trata-se de um golpe que promete recolher frutos num país em que, para mal dos nossos pecados, os artistas são, frequentemente, levados a dar roupagens levezinhas a discursos que merecem tratamento mais honesto. No caso dos Black Company, apesar de ser notória essa atracção pelo sucesso, não se pode apontar grandes concessões, já que o nível estético não é abalado por temas como «Abreu» que resultam na perfeição como hip-hop descomplexado, escorreito e imediato.
Só que é possível encontrar um outro lado nos Black Company, um lado mais underground que reflecte os conflitos entre os membros do grupo na procura de um som conjunto e consensual. Há portanto, uma fracção mais dada a rascunhos soft e outra mais dada à dureza das palavras e do som. Apesar de não se tratar de um disco revoluccionário, visionário ou imprescindível nas discotecas viradas ao rap (e, consequentemente, ter na falta de inovação estética o principal ponto fraco), «Geração Rasca», o primeiro álbum dos Black Company é importante para estender os limites do rap português. E tem um grande tema, «Vipes», que nos põe a dançar sobre um sample da guitarra de Jimi Hendrix.
Por Pedro Gonçalves para o "Blitz" |