Ao seu segundo álbum, os MatoZoo fazem um álbum de hip-hop duro, nas entranhas do funk, lançando-se ao reggae, e vislumbrando-se uma ténue abertura da neblina sobre a R&B. Os MatoZoo são uma das bandas de hip-hop mais antigas de Portugal, formados em 1995, e oriundos da cidade de Matosinhos a que dão o nome de Matarroa. Nome esse que seria adoptado para nome da editora liderada por Martinêz, também fundador, líder e MC dos MatoZoo.
Depois da estreia com "Pa'trástoplay No Teu Melão" em 2001, surgiu no primeiro dia do ano "Funk Matarroês", um álbum que à primeira escuta parece espartilhado, um álbum difícil de ouvir, mas que lentamente começa a fazer sentido. Complexo para se perceber à primeira, é um álbum cujo objectivo se não era o conceptual, não andará, na realidade, longe disso. As sucessivas escutas mostram-nos o encaixe de todas as peças de um puzzle sonoro, que aliado às letras carregadas de mensagens fortes sem rodeios, poderão estar a desvendar um novo rumo para o hip-hop nacional, sem que isso signifique cair no mainstream.
As suas mensagens são duras, sem lirismos, fazendo mesmo um "rap hostil" com um discurso pouco dado a mainstreams. Talvez por isso mesmo explicam porque razão a "Culpa não é minha". Identificam culpados, indicam soluções, ensinam a "Fórmula" para se ter sucesso na cena musical, mas sem mostrar desejo em tomá-la como própria. Têm um discurso acutilante para com o hip-hop nacional. Têm um momento altíssimo num combate, onde participam entre outros Xeg e Fuse. O álbum termina com a hilariante história sobre Zé Mortalhas e Xico Caiador, momento que faz sentido no emaranhado de ideias aparentemente soltas, assim como o comentário ao órgão sexual da prima de um dos intervenientes na intro. Com um grafismo cuidado, o único parágrafo existente no álbum serve de mensagem onde cada um pode partir à descoberta do nome de cada tema. Como nos disse o próprio Martinêz, «não foi nossa intenção divulgar a ordem das músicas, participações, produção, fotos, etc, etc. Achamos por bem fazê-lo assim, desta vez». Talvez isto seja a prova de que o importante é o conteúdo e não o acessório. Apetece dizer para que "CANCELEM O APOCALIPSE", porque este álbum serve "PARA A SEMENTE" do futuro.
Só o futuro o dirá, mas neste momento "Funk Matarroês" pode tornar-se num álbum marcante na diferença, sobretudo na alternativa ao que por cá se tem feito. Foi seguramente a melhor maneira de começar as edições de 2004 no género que mais tem evoluído em Portugal… O ano promete...
Por Rui Ribeiro para www.vida.pt |