"Geração Rasca" foi o primeiro objecto saído de um estúdio nacional a colocar o consumidor português perante o dilema clássico do adepto de hip-hop nos anos 90: um disco formalmente atraente mas de conteúdo - no mínimo - questionável merece ser amado ou rejeitado? Se bem que o álbum de estreia dos Black Company estivesse longe de corresponder a uma encenação doméstica do circo de atrocidades do paradigma do género (Doggystyle de Snoop Doggy Dogg), a verdade é que acabava por reflectir com apreciável exactidão uma realidade cultural autónoma onde a condenação veemente dos males de fim de milénio coexiste com a exaltação do individualismo misógino do moderno protagonista do gueto.
A avaliar pela reacção globalmente positiva ao disco, duas hipóteses se podem equacionar: ou a música propriamente dita ainda é o que as pessoas querem ouvir quando ouvem música, ou "Geração Rasca" foi recebido como uma forma irónica, descomplexada e esteticamente cativante de um conjunto de jovens fazer jus ao epíteto que então pairava sobre a juventude portuguesa. Mas que a questão inicial existe, existe. E se ela deve ser colocada em público (afinal, espera-se da crítica que seja crítica), já a resposta deve ser remetida para o foro íntimo. Ou não tivessem algumas cruzadas moralistas começado por muito menos.
"Filhos da Rua" não parece trazer nada de novo neste domínio: por um lado, exprime o desejo de paz e acentua o olhar crítico sobre o tecido suburbano; por outro, faz o inventário dos atributos e façanhas individuais dos intervenientes (a série «Skills»). De resto, como o próprio título sugere, se alguma novidade pode existir, ela aponta no sentido de um mergulho mais profundo nas águas do gueto e, por conseguinte, da consolidação dos traços da identidade cultural que lhe está associada. O mesmo já não se pode dizer da frente estética. Mas a troca do ambiente de festa de "Geração Rasca" pela aproximação militante ao gueto acaba por ser a causa da metamorfose da expressão final que a música dos Black Company revela em Filhos da Rua.
Quando começa a generalizar-se a impressão de que o hip-hop português deveria agarrar-se menos a fórmulas de sucesso e cultivar mais o gosto da aventura, saber que o segundo álbum de um grupo de sucesso é substancialmente diferente do primeiro não pode deixar de ser recebido como uma boa notícia.
Mas a verdade é que - contra todas as aparências - a opção estética subjacente a "Filhos da Rua"é a menos espinhosa de quantas se poderão ter apresentado ao trio de Miratejo depois de "Geração Rasca".
Por outras palavras: sem querer pôr em causa a capacidade comprovada dos Black Company para erguer álbuns com princípio, meio e fim, acredita-se que teria sido mais difícil conceber um novo objecto rap-pop-soul à altura do original que organizar uma adaptação portuguesa do modelo de longa-metragem do gueto que hoje predomina na produção hip-hop norte-americana.
Como diz Makkas perto do desfecho da acção, certos «rappers» nacionais seguem tão de perto os seus congéneres americanos que, por vezes, não se dão conta do absurdo da transposição de um texto para uma outra realidade.
Mas, se é certo que os «rappers» de serviço em "Filhos da Rua" dissertam sobre aquilo que os rodeia e quase sempre em português (apesar de resquícios como «Chico Dread» e «Meu People»...), a consciência de que o hip-hop feito entre nós deve lutar pela emancipação estética e cultural apresenta-se, por enquanto, como uma promessa.
Sobretudo quando considerado numa perspectiva puramente estética, "Filhos da Rua" revela uma estrutura narrativa sólida, uma estratégia de encenação viva e preocupada com o equilíbrio entre o investimento na melodia e a libertação de energias e, ainda, uma atenção rara ao pormenor.
Mas, por outro lado, não consegue nunca estabelecer uma distância confortável em relação ao modelo inspirador que nos permita olhá-lo como um objecto único e, até, como uma prova potencial da desejável chegada da maturidade ao hip-hop português.
«Todos querem ser MCs; ninguém quer ser 'deejay'» - lamenta-se ainda Makkas. E, se calhar, o problema é mesmo esse.
Por Ricardo Saló para "O Expresso" |