"Filho da Selva" - juntamente com o disco-bónus que o acompanha gratuitamente na primeira edição, "Politicas à Parte" - chega num momento crítico para o hip hop nacional. É óbvio que um álbum com «acabamento» tão esmerados quanto este e na sequência dos recentes lançamentos de gente como Fuse, Infamous & Vrz ou Valete, a única conclusão possível é que, artisticamente, o género já alcançou no plano local a maturidade que foi construida paulatinamente ao longo dos últimos anos, faltando agora a derradeira obra-prima para que o hip hop inscreva definitivamente a sua marca na galeria de «momentos dourados» da música nacional. E se o momento é crítico, é porque estamos no timing ideal para que o hip hop passe a ser pertença de um público mais vasto, garantindo viabilidade comercial e mercado para a frondosa quantidade de novos registos que tem tomado de assalto as lojas, principalmente quando está nas mãos de muitos destes nomes alguma da música local mais criativa e que melhor e mais consistentemente trata a língua portuguesa associada a sons.
D-Mars, inteligentemente, não se lançou do dia para a noite num disco em nome próprio, tendo esperado atingir um estatuto de «veterano» - como se auto-intitula no tema homónimo - para se mostrar num disco que ultrapassa tudo aquilo que havia criado até ao momento com os Micro e já muito longe dos primórdios com os Zona Dread. No entanto, e para que não se perca o fio à meada, "Políticas à Parte" estabelece a ligação entre a sonoridade típica dos Micro e o que se seguirá, é o som «velha-escola», excelentemente ancorado em samples que desenrolam um funk/jazz eléctrico setentista, mais cru e rude, e que tem nas suas partilhas com Sagas e DJ Assassino (companheiros nos Micro, no curioso exotismo de «Em Serviço») e com os britânicos Rodney P e braintax («Guerras Silenciosas») dois dos seus temas mais fortes - só superados por «Um Passeio pela Fama», em que a sonoridade soul oferece a D-Mars a possibilidade de se dissertar acerca das armadilhas prepeardas pela fama.
E embora "Politicas à Parte" seja um disco extremamente convincente, é justo que apareça num segundo plano relativamente a "Filho da Selva", álbum em que D-Mars não só reforça a crença de que é exímio na produção de instrumentais, como revela igualmente um flow que realmente flui. O som é muito mais encorpado, depurado e de uma inventividade que aposta na diversidade, privilegia os instrumentos e dá descanso ao sample, recolhendo no baixista Francisco «Cool Hipnoise» Rebelo um valoroso ajudante na construção de grooves irresistíveis e na voz de Carla M. uma eficaz abordagem ao formato canção - «Para Toda a Minha Gente» e «Sente o Calor» (também com Melo D) são absolutamente certeiros. E há ainda os excelentes «Trago Sons da Rua» e «Filhos da Selva», que deixam um rasto muito Timbaland, e coisas deliciosamente serpenteantes como «Por Baixo da Pele». Em suma: um magnífico elevar da fasquia que tem tanto para oferecer no presente quanto para exigir no futuro.
Por Gonçalo Frota para o "Blitz" |