Há 20 e poucos anos, muito se falou do «boom do rock português» - em número de lançamentos, pelo menos, 2003 parece ser o ano do «boom do hip-hop português», tantos são os títulos que já viram lançamento este ano. A esperança de J-Cap, integrante dos 6º Templo, ser um dos títulos de ponta do ano, contudo, esgota-se logo nos primeiros dois temas do álbum: «Intro» e «Não Aguentas» são maus cartões de visita para um longo mais interessante do que as aberturas sugerem.
J-Cap é um produtor com talento, responsável por beats sólidos e bem construídos («Sinto-me Sozinho», «Ko Brinca», «Vida Dura» ou «Mãe»), bem apoiados pelos excelentes scratches de DJ Kronic, mas a sua vertente MC não é tão interessante. Basta, aliás, ouvir alguns dos duetos aqui incluidos, nomeadamente «Clássico II» com Bellini aka Regula, para perceber a distância que separa os skillz vocais de ambos. E o uso excessivo e por vezes afectado de idiomas americanos nas rimas, combinado com o sotaque peculiar de J-Cap e um flow algo desiquilibrado, que vai do aceitavel ao completamente ao lado, jogam contra. Passe-se por cima do lado politicamente incorrecto de algumas letras - o hip hop é uma música de transgressão e desafio, mas isso não quer dizer que essa transgressão tenha que soar um tudo nada descabida ou gratuita como o faz aqui por vezes - e do proverbial excesso de duração (70 minutos de som). E retenha-se aquilo que realmente vale a pena em "Esperança": a revelação de um produtor com potencial.
Por Jorge Mourinha para o "Blitz" |