Em terra de cegos, quem tem olho é rei, costuma dizer o provérbio popular que, apesar de tudo, não acerte necessariamente a 100 por cento. Mas, neste ano de hip hop nacional a carburar em alta, a reedição de "Educação Visual" vem mesmo provar a validade do dito: aquele que foi ponto alto da produção local de 2002 continua a elevar-se muito acima da produção corrente de 2003, ano contudo que não tem sido parco em discos no género. O que o distingue é a marca inflexível de um MC dotado que sabe como dar a volta ao jogo: não é uma questão só de flow, só de rima ou só de atitude, mas antes uma confluência disso tudo com aquela variável desconhecida que explica porque é que uns chegam lá e outros ficam pelo caminho.
No caso de Valete, essa variável é um talento inato para o lirismo de rua de assinalável inspiração poética e literária, manifestado num fluir linguistico de insuspeita maturidade que parece brotar sem esforço. Não é, aliás, por acaso que, mais do que MC, Valete se auto-define como «liricista», sublinhando a componente formal e poética das suas rimas, significativamente construídas e trabalhadas: ele é capaz de construir faixas inteiras à volta de metáforas para um único tema (o dinheiro em «Ele e Ela», a droga em «Serial Killer»), de manter a história que sustenta cada beat a correr por quatro minutos sem cair em vazios nem repetições, sem nunca perder o ritmo.
O segredo, como diz Ace a certa altura do espantoso free-for-all «Liricistas» (onde também passam Adamastor, Chullage e Fuse), está no sentimento - e disso Valete está cheio, mesmo que o álbum opte por uma atitude muito secret de «tough love». Nem outra coisa seria de esperar de um álbum cheio de retratos a um tempo desencantados e lúcidos de uma «realidade paralela» dura, da qual aqueles que consomem hip hop por pura rebeldia ou por moda ou por atitude mas raramente páram para pensar na mensagem está irremediavelmente alheada. O segredo encontra-se na forma elaborada dada a estes despachos da «linha da frente» social («Nada a Perder»), embrulhados numa economia sonora enganadoramente simples e eficaz, valorizando a voz e as imagens visuais fortes que o MC vai conjurando. As batidas fornecidas maioritariamente por Bomberjack e Sam The Kid (com participações pontuais de Kilu, Ace e Bambino) mantêm sempre o motor embalado: «Ele e Ela» evoca o riff de «Come Together» dos Beatles, «À Noite» não resiste a uma flauta Morriconiana, «Beleza Artificial» joga com um beat old school bem funky repetido até à exaustão. Não podiam faltar os já proverbiais hinos ao espírito de corpo («Liricistas») ou «Pseudo MC’s») nem à mulher-musa («Mulher que Deus Amou»), mas não é neles que reside a alma de "Educação Visual". É em tudo o resto que preenche estes 48 minutos de música, que merecem de corpo inteiro estar entre os melhores discos do hip hop made in Portugal.
E se este é apenas o primeiro disco, daqui a mais uns álbuns nem quero imaginar o nível a que Valete já terá subido.
Por Jorge Mourinha para o "Blitz" |