«Ouvidos atentos e espírito aberto» — começa por recomendar Demo Style. Mas — uma hora mais tarde — continuará por esclarecer se essa nota preliminar constitui uma preparação do clima para a ocorrência iminente de factos fora do vulgar, um aviso para o regresso a uma atitude — como o título sugere — mais informal perante a música e as regras da indústria, um apelo à disponibilidade espiritual dirigido a quem nunca tenha ouvido música negra produzida por dois microfones e um gira-discos ou um simples ritual solidamente enraizado na rotina do hip-hop.
A questão é esta: oito anos depois de Rapública, onde pára o hip-hop feito em Portugal? Por outras palavras: saberá ele que lugar ocupa no quadro da sua própria evolução como linguagem autónoma e — por outro lado — no imaginário específico do público português consumidor de música para que ainda sinta a necessidade de anteceder cada nova acção de um prudente aviso à navegação?
Demo Style — para além da vaga declaração de regresso às origens do movimento implícita na réplica do cartaz do filme Beat Street — pouco faz para responder à questão mas talvez traga consigo uma contribuição decisiva para que melhor se compreenda onde ela verdadeiramente reside. Valerá a pena, então, reparar como Demo Style nunca ameaça, sequer, forçar os limites (auto)impostos por uma leitura convencional dos princípios da acção hip-hop enquanto o trio (dois «rappers» e um «dj») partilha o espaço do estúdio. E como, de súbito, a música solta os movimentos, revela uma dimensão onírica e chega mesmo a sugerir o desejo de partir em busca de outros horizontes quando — na segunda metade do disco — o homem do gira-discos fica abandonado à sua sorte. Os suspeitos do costume? Nem por isso. Os elementos dos Micro que se ocupam da palavra revelam a sagacidade necessária para saber por que lado se pega no funk («on the one» — como explicava Bootsy Collins) e agilidade quanto baste para, por vezes, conduzir os acontecimentos até ao limiar do «swing». Mas — porventura, por falta de oportunidades editoriais — o hip-hop de extracção nacional permanece prisioneiro de uma necessidade imperiosa de afirmação de uma condição social e cultural diferenciada e adia eternamente o momento da passagem para essa outra dimensão onde as ideias se libertam, a linguagem adquire sentido poético e o sonho talvez volte a comandar a vida. E Demo Style — como outros antes dele — é um reflexo disso.
Por Ricardo Saló para "O Expresso" |