Ouvir Dealema (DLM) é estar 1h09 à conversa com sociólogos-psicólogos sem licenciatura mas com um empirismo de se tirar o chapéu. É calcar nas calçadas citadinas lascas fotográficas com os podres dos becos, do materialismo, da bófia, das cadeias, da religião oca. Cruas como socos no estômago, reais como a vida de cada um, são desenhadas em rimas certeiras pelos MCs Fuse, Maze, Mundo e Expião - que nunca caem na tentação de rivalizarem entre si -, sobre "scratches" soturnos do (aparentemente ausente, mas soberbo) DJ Guze. A soma das partes, igual ao todo, está na capa do álbum: um acumular de colunas de som e amplificadores a anunciar o terrorismo auditivo, sem papas na língua ou fronteiras. E quase em formato "best of", pois este é o primeiro CD em mais de sete anos de formação. O facto é até frisado demasiadas vezes no disco, num orgulho - merecido e finalmente consumado - com sabor a presunção mas humilde quando agradece a paciência dos fãs, em "Tributo" e "A Cena Toda", que faz parte da colectânea "Dez Anos de Hip-Hop em Portugal". Pena mesmo é que o material acumulado foi tanto que os 18 temas finais tiram impacto directo a algumas faixas e geram certo desgaste.
"O pessimismo toma conta do metabolismo/ Quando estiveres na merda por favor tem calma (...) Mano acorda para a vida e acredita em ti". Isso. Mais do que criticar, a linha com que se cose o trabalho usa a agulha da esperança para tramar mensagens de força e levantar o queixo para olhar o mundo em frente. Os presos são um dos principais visados pelos cinco advogados de defesa e não admira que o disco se torne n.º 1 no top presidiário, como acima em "Mergulha na felicidade", no "single" "Talento clandestino" ou em "A chave da saída". Por acréscimo, os gaienses não deixam impune a polícia, retratando-a em "Bófiafobia" como toxicodependente e abusadora da autoridade ("Rusga, pé na porta, bófia vasculha / Não importa se é gente boa / Vai à força bruta, seja a guna ou puta"). Sem espinhas. Enquanto houver potência vocal na mandíbula, como reza "Ultimato", as lágrimas salgadas ajudam a sanar as feridas. Marta Ren (Sloopy Joe) dá uma ajuda em três temas, enquanto Ace e Presto (Mind da Gap, a instituição hip-hop mais conhecida de Gaia) assomam em "Rota de Coalizão": "Com DLM a terra treme, o povo cresce / MDG a abanar o palco, moço sente, tripeiro é raça filha da puta / Talento nato para esmagar cabeças". A produção cabe a Mundo, no seu sótão pentagonal "2.º Piso", a DJ Serial (Mind da Gap) e a Sam The Kid.
O ritmo também sabe quando respirar e quando sacudir o refrão. Nos apeadeiros seguintes, "Regresso do Expresso" e "Infiéis", prova-se como é impossível deter as vozes da rua e do submundo nublado. Ouvir primeiro e interpretar depois: "A tua vida de 8 mm é uma película; sorri, foste gravado por cima (...) Olho por olho, rima por rima / Toma a pílula / Fodemos infiéis como conas de Lolitas". A vida é um "show" dos Marretas, a urbe robótica, por isso importa fugir "a rotinas de merda" que nem o sustento garantem, a modas e ao capitalismo-salsicha, destilado na fantástica "Anatomia do Espírito", que exige braço no ar. "Falsas doutrinas, impingidas como o gado com o jugo / Estes putos são tratados tipo escravos condenados ao lucro / E crescem como ramo morto de uma economia que os guia para o trabalho, que é um matadouro / Não existem miúdos burros, apenas educações estúpidas".
Por Nuno Passos para o "Y" (suplemento do jornal "O Público") |