Não há absolutamente razão nenhuma para que a estreia longamente aguardada dos nortenhos Dealema não entre direitinha para a lista dos clássicos do hip hop feito por cá. E não há por uma razão muito simples que se tornou numa «regra de três» de qualquer carreira musical: há sempre tempo para trabalhar o primeiro disco, para o tronar no melhor cartão de visita possível. No caso dos Dealema, esse tempo equivaleu a quase uma década de maquetas, concertos, colaborações e trabalhos a solo. Seria preciso alguma coisa estar muito mal no quinteto do Grande Porto se Dealema não correspondesse às expectativas.
Confesso que não sei, ainda e contudo, se "Dealema" as ultrapassa - em parte porque o reportório aqui incluído já era razoavelmente conhecido dos palcos, em parte porque não consigo largar o botão do repeat para recomeçar com o disco assim que ele acaba, tal é o feitiço que o universo escuro, mal-disposto e interventivo de Mundo, Expião, Maze, Fuse e Dj Guze lança sobre o ouvinte. Os Dealema são cronistas (sub)urbanos descontentes com o estado das coisas, um gang de rufiões que lança desafios, que manda vir, que provoca, cinco putos da rua armados em maus, atitude quase gangsta. Existem, evidentemente, pontos de contacto com os comparsas da Coalizão Mind da Gap - Serial produz os assombrosos «Regresso do Expresso», «Cena Toda», ou «Tributo» tèm um inteligência pop rara hoje em dia, cheia de hooks que nunca mais largam os ouvidos. E os Dealema refinam e afinam a pontaria da gera nortenha, criando m híbrido fascinante entre o «keeping it real» da old school e o desafio arrogante do gangsta West Coast, temperado pelomicro-clima chuvoso e enevoado da Invicta e pelo espírito lutador dos «homens do Norte, carago». Talvez resida mesmo aí o magnetismo dos Dealema - é o brio e a honra do Norte que eles vêm aqui defender, o espírito tribal e o orgulho de se saber quem é, onde está e de onde se vem.
Dealema é o som da tribo a representar e apresentar com pronuncia do Norte, com a mesma urgência e a mesma energia da «reunião das tribos» que é a alucinante abertura de Gangs de Nova Iorque de Scorsese. "Dealema" é o som de uma cidade feito hip hop, directa ao assunto, pão-pão-queijo-queijo, sem conversa de chacha. Este é um disco territorial, na melhor acepção da palavra - um demarcar de zona que não se coloca contra as outras, mas antes erguendo o estandarte bem alto. Não é um álbum perfeito (eu dispensava a facilidade de «Bófiafobia» e «Talento Clandestino», e cortava quatro ou cinco temas para não esticar em excesso o álbum). Mas faltou muito pouco. Compre-se obrigatoriamente e guarde-se ao lado de D-Mars e Valete, completando o pódio dos clássicos do hip hop nacional 2003.
Por Jorge Mourinha para o "Blitz" |