Caso curioso, este dos Mundo Complexo, que comecei por descobrir em palco: "Acredites Ou Não" alinha uma boa meia dúzia de temas capazes de se tornarem êxitos pop (partindo, claro, do princípio que a rádio não lhes torce o nariz) sem perder o rigor hip-hop. Mas esse apelo melódico, bem explorado pela experiência trabalhada e conversacional das rimas dos três MCs (Ridículo, Tony e Tranquilo) e pela presença rítmica do baixista Hélder «Kissassa» Godinho na formação, acaba por esbarrar na excessiva simplicidade dos beats de DJ Kwan.
Falta a "Acredites Ou Não" a riqueza que se sentia nos clássicos old school que são a evidente influência do quinteto de Carcavelos – a auto-produção talvez não tenha sido a melhor opção. Estas canções (porque de canções se trata), contagiantes e irresistíveis, precisariam de um som menos esquemático e mais rico para realizarem o seu potencial completo. E o já proverbial excesso de duração dos álbuns de rap (65 minutos) não ajuda. É evidente que a fasquia não pode ser a mesma dos clássicos; afinal, é um primeiro disco, numa independente de recursos modestos. Mas, a julgar pela amostra, os Mundo Complexo já só precisam de limar e afinar o som. Porque a solidez das canções e o flow dos MCs garante que "Acredites Ou Não" é mais do que um simples cartão de visita: é uma das melhores portas de entrada já propostas para o hip hop nacional.
Por Jorge Mourinha para o "Blitz" |