Aquilo que desde 2002 tem acontecido no universo hip-hop feito em Portugal pode ser, admita-se, perigoso. Não há dúvida, excepto para quem delimita ferozmente as suas áreas de interesse, que o hip-hop é o género em mais evidente desenvolvimento no último ano no país. E se o entusiasmo gerado ao assistir ao crescimento fundamentado de um movimento é algo de muito prazenteiro, não é menos verdade que a tradição demonstra que há que encarar os fenómenos com alguma contenção. Não será, certamente, necessário recordar o álbum "Rapública" para aferir da inconsequência de algumas euforias. Ou seja, e transpondo a coisa para a realidade actual, talvez seja importante relativizar a importância do que está a ser feito no hip hop. A militância, que aqui não é menosprezada, não dá sempre origem a bons discos. É admirável, na melhor das hipóteses, mas não chega para dizer que o hip hop português está em pico de forma.
Apesar de tudo, o hip hop português está em pico de forma. Isso não acontece pelo facto de, semana após semana, se assistir à celebração do género de Norte a Sul do país. Nem tão pouco pelo facto de, no espaço de alguns meses, termos passado a fazer algum esforço para recordar todos os nomes na lista de protagonistas desta nova era, sinal de que a quantidade é, no mínimo, assinalável. Isso acontece, simplesmente porque entre as numerosas e mais distintas propostas há aquelas que respondem de forma inequívoca ao desafio de fazer a contemporaneidade. Há, entre todos os artistas que têm saltado para as páginas de jornal, reportagens televisivas e edições através de etiquetas especializadas, rappers e produtores que demostram fazer do hip hop uma linguagem que não se satisfaz com o simples prazer de existir. Para estas pessoas, o hip hop não existe, constrói-se.
É isso, precisamente, que apetece dizer a propósito de “100 Insultos”, o álbum editado pelo projecto Infamous & Vrz. Num disco cujo cuidado é alargado à apresentação gráfica do objecto, juntam-se dois nomes fora dos centros urbanos que temos como centros do desenvolvimento do estilo. Neste caso, Infamous faz as batidas a partir do Canadá, enquanto VRZ, por seu turno, representa Évora, a capital do Alto Alentejo. Esses são apenas dados biográficos de um álbum que se sustenta à custa de dois pilares indestrutíveis, precisamente os dois pilares do hip hop: batidas e palavras. No primeiro âmbito, os instrumentais são um mundo de descoberta fascinante, particularmente quando se toma contacto com as frequentes aproximações à perigosa música clássica. No segundo, VRZ, Bross, Brigadeiro Mata Frakuxz, Martinêz, Bezegol, Badja e Fidbek erguem um registo acutilante e (pasme-se!) pertinente, escrito com inteligência e dito com um flow que, marcado pelo problema de ser-se português (sim, no rap é um problema), não se fecha num discurso auto-recorrente, auto-contemplativo, e digno da mais profunda depressão de Calimero. Faltava ao movimento um registo que alargasse complexos geográficos e colocasse a qualidade acima da quantidade? Está aqui.
Por Pedro Gonçalves para o "Blitz" |