Nota H2T: Directamente de Massamá (Linha de Sintra) chega-nos Chikano. Quem escutou o EP do Biru “Dica da Semana” sabe certamente de quem estamos a falar.
Sonoridade crua, cortante e com um toque de J.Dilla, ou não fosse este o produtor indicado para falar d' "o produtor favorito do teu produtor favorito”.
Quem ainda não escutou faça um favor a si mesmo: www.myspace.com/chikanopt; e fique com a prova de que a produção por cá ainda vai dar muito que falar.
De Detroit para o Mundo
Nativo de Detroit, J. Dilla apresentou-se no mundo Hip Hop com algo a mais do que os outros intervenientes. Para muitos era mais do que um produtor/DJ, mais do que um MC, falo de uma pessoa que dedicava o seu dia-a-dia à música, à orquestração de diferentes sonoridades “à moda antiga”, sem o embelezamento que hoje em dia os grandes estúdios oferecem e sem gastos astronómicos em engenheiros de som. Uma tarola é uma tarola, um bombo é um bombo e era assim que Dilla via as coisas.
Fevereiro é o mês do rei dos instrumentais, pois contam agora dois anos desde a sua lamentável e irreparável morte. Dizem que se calculam pelas dezenas de milhares os beats que James Dewitt Yancey (mais conhecido por Jay Dee ou J. Dilla), deixou a representar o seu legado que, agora é gerido pela sua mãe Maureen Yancey, carinhosamente conhecida por ‘Mama Dukes’.
“O produtor favorito do teu produtor favorito”
Esta é a frase que tem ecoado nos Estados Unidos desde há uns anos para cá e muito mais nos dias de hoje. Encaixa que nem uma luva em Dilla. O homem que sempre deixou a sua música falar por si, compartilhando com todos o que eu facilmente chamo de história de amor. Entre uma selva de limitações físicas com que se deparou na vida, conseguiu criar uma espécie de disciplina musical indisciplinada (irreverente), pautada por elementos sonoros que não cresceram próximos, mas que ao passarem pelo “filtro-Dilla” começaram a dançar de mãos dadas, como se de amantes se tratassem.
O Jay era especial, era o “cool dude” do jogo. Nunca repudiou o “bling-bling”, também fazia parte do seu carácter, mas, jamais o meteu à frente da música nunca se desviando da sua missão. Deixou uma história que, felizmente, está longe de terminada pois o seu baú de obras-primas está em boas mãos, nas da sua mãe. Desde beats para os De La Soul, Common, Erykah Badu, passando por A Tribe Called Quest, Pharcyde, Talib Kweli e Slum Village, o seu legado acaba por se tornar intemporal, clássico e histórico, reavivando trilhos que remontam a “golden era” do Hip Hop dos anos 70 até ao princípio dos anos 80.
Influências
Dilla teve contacto com o universo da música desde pequeno, dado que os seus pais sempre estiveram a ela intimamente ligados, pelo que a sua curiosidade por tudo o que é “vintage”, clássico, transformou-se em influência. Do meloso Soul, ao ritmo quente do Funk, passando pelo Rock e flutuando pelos maravilhosos Blues, o produtor de primores como “Donuts” viu no passado a porta para o futuro. Samples, cortes, linhas mágicas de baixo, tarolas, palmas, bombos, pratos, tudo descompassadamente compassado… sim porque nada é perfeito na vida e a música não escapa a isso. Imaginem um cientista num laboratório a fazer experiências, diariamente, reinventando-se a si próprio sem medo da crítica, rindo-se do erro, glorificando-o, até que chega a um patamar em que passa a ser ele próprio uma influência para os outros. Incrível não é?
O Hip Hop cru de Detroit entrou nas rádios, expandiu-se e tornou-se num ser com cabeça, tronco e membros, estendendo-se por todo o planeta. Não há ninguém no cenário das produções deste estilo musical que se possa afirmar imune às influências do Dilla, até porque se não o é, anda muito longe de tudo.
A descoberta e o seu significado
“Encontrei” o J Dilla há poucos anos, tempo suficiente para me apaixonar rapidamente por um som que me parecia bipolar: ritmado, descoordenado, roufenho e bonito. Acabei por perceber que nunca tinha ouvido música assim e agora pretendo que outras pessoas também a oiçam, porque de uma coisa eu tenho a certeza, é difícil ser-lhe indiferente. Por alguma razão só tive conhecimento da sua música nesse determinado momento e porque acredito que tudo acontece na altura certa, faço da sua dedicação e paixão um importante dínamo motivador, que me ajuda diariamente na construção da minha estrutura enquanto beatmaker.
Como já foi dito diversas vezes por gente influente no meio, não interessa o material que tens, mas sim o que fazes com ele. Trabalho, afinco, disciplina diária, procura de motivação constante e superação. Nada é feito de um dia para o outro, assim como nada se constrói em dois dias. Com o tempo, com treino é possível chegar a vários patamares. Nunca se descuidem no factor “satisfação pessoal”, em substituição de situações fúteis que, daqui a uns anos talvez se arrependam. Toda a gente sabe que a independência económica é fundamental para o ser humano, mas no meio da loucura é vital fazer escolhas acertadas, nunca pondo em causa o que nós somos enquanto pessoas (por mais que nos ofereçam). Nunca se esqueçam donde vieram, das vossas raízes.
Último donuts da noite (Independência)
Aproveito para finalizar o artigo com algo que me atravessa a cabeça há uns tempos. Como se devem ter apercebido o negócio musical tem mudado muito ao longo dos anos, e hoje, mais do que nunca, qualquer pessoa pode fazer música em casa, o sucesso, esse, dependerá muito da perseverança aplicada. Parafraseando o J Dilla mando um recado para o universo musical português: a vez dos artistas e editoras independentes está a chegar de vez. A máquina empresarial que os “media” representam tem sempre fome, ávida por algo novo, refrescante. A população por sua vez gosta de ouvir o que é novo, portanto deixem-se de lamentações e deitem mãos ao trabalho. Abram-se a todas as culturas, leiam tudo o que vos aparecer à frente, concentrem-se num objectivo e mostrem flexibilidade e estratégia no rumo que decidam tomar. Caso tenham a sensibilidade necessária, encontrem o vosso espaço na música, seja ele em que ramo for (produção, MCing, breakdance, graffiti, agenciamento), mas estejam nele porque são verdadeiramente bons nas vossas funções.
Apaixonem-se pelo que fazem pois a maior parte das pessoas que alguma vez viveram neste planeta nasceram e morreram a fazer algo que lhes foi incutido pelas vicissitudes da vida e não por escolha pessoal. Isto excluindo o J Dilla (www.stonesthrow.com/jdilla). Turn it Up!
Por Chikano para H2T - www.h2tuga.net (Fevereiro/2008)
O artigo tá muito bem escrito!!
Reflecte bem o influencia inquestionável da musica no contacto humano!
Sem duvida nenhuma ,Jay Dilla foi um dos mais puros produtores de musica!
Descansa em Paz!
» Por Mentonha
04 Março, 2008 - 15:16
Gostei de ler oseu artigo sou Mentonha deretamente de Mocambique. Gostaria de uma producao sua de bit e da letra. Aguardo a sua resposta
» Por tnt
23 Fevereiro, 2008 - 03:04
J.Dilla... é o produtor que mais me influenciou... era um génio... um mágico... o texto ta bakano.
eu faço beats há uns 4 anos. Fui inspirado por este e por outros génios... curtia partilhar beats ctg já k curtimos o mm tipo de som... é deste tipo de som k o hip hop tuga ta a precisar... se kiseres responde aki e dps o pessoal combina... fika bem... [[[tnt]]]
» Por Biru
22 Fevereiro, 2008 - 17:29
Amor e Músika, são Verdades Universais Inkontestavéis.
Toda a Gente o Sente, porke a toda Gente Toka.
Muito bom texto, onde a Verdade está explicita.
Paz
ps - Para Free Download do EP “Dica da Semana” kom produções do Chikano, kopiar este link:
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