|
Eu não entendo o curso que isto está a tomar
Eu não entendo o que se está a passar
Eu não percebo a razão que te leva a matar
Mas não critico o motivo que te leva a roubar
É um país de ladrões e corruptos
Gananciosos, agarrados e astutos
Que já te deram a volta à cabeça
E hoje estás aí, chorando de tristeza
O rico mais forte é quase sempre absolvido
O pobre do jovem nunca é ouvido
O homem mais pobre é sempre o detido
A cor mais escura é quase sempre o perigo
O ordenado, menos que isto é troça
Mínimo? Mínimo? Quase não se nota…
Escola para quê? Estágio, só na obra
Dá-lhe só no duro e vais ver que já sobra
Talentos escondidos atrás de barracas
Armados com drogas, pistolas e facas
Polícias que matam jovens inocentes
Marados que matam polícias parentes
Polícias que batem no puto perturbado
E não procuram entender a razão do seu estado
Jovens que roubam o pouco ordenado
Contado, e que já estava destinado
O sistema atrasado, maluco, passado
O pobre do povo vivendo enganado
Roubado, gingado, com raiva do estado
Vontade eu tenho que suba o ordenado
Justiça da treta a que estou submetido
Quem fala a verdade não merece castigo
Quem fala é o dinheiro, primeiro amigo
Represento o meu povo e enfrento o perigo
A culpa é dos pais e nunca é do filho
Pois é de pequenino que se torce o pepino
Educaram o povo à sua maneira
Agora queixam-se. Quem é que fez asneira?
A corda rebenta sempre do lado mais fraco
“Cá se faz, cá se paga”. É um facto
Vivemos atrás de coisinhas mesquinhas
Fofocas de merdas e guerras de vizinhas
Em vez de unirmos a mão (porque não?)
Já que cá estou faço parte da tua nação
Um dia se eu fosse alguém
Português eu seria, e nunca um Zé-ninguém
Tens que morrer para te darem valor
Tens que sofrer para saberes o que é o amor
Tens de humilhar para alguém te ajudar
Neste país só te sabem enterrar
Vives e morres da mesma maneira
Sonhas com carros em vez da betoneira
Vives dos sonhos que a mente produz
Vives sonhando que encontrarás a luz
Vives cercado de falsos amigos
Vives cercado de grandes perigos
Vives e vives e tens que viver
Porque não tens onde morrer
Recebes com uma mão e pagas com outra
O dinheiro não gosta de ficar no bolso
Meios não tens e o bolso está roto
O teu filho tem fome, mas o dinheiro está pouco
Que vais tu fazer para ele parar de chorar?
Roubar, traficar, enganar ou matar
Que vais tu fazer se quiseres ser alguém?
Roubar como faz o sistema também
Não me digas que a droga é cá fabricada
Não me digas que as armas crescem em casa
Terrorista é o sistema que nos engana
Vivo na cidade do bacano Santana
Concelho de Oeiras, de apelido Morais
Tirou-nos a casa que fizeram os meus pais
Trabalham no duro e não têm nada
Se não pagam a renda ainda lhes tiram a casa
Ainda querem bom comportamento
Que o preto seja pouco violento
Que o filho do preto ajude o país
Sem livros para a escola e papel para o nariz
Mostram imagens de putos com fome
Sem roupa, sem vida, e quase sem nome
São merdas que mostram para nos lembrar
Que estamos aqui só para trabalhar
Sei que não é motivo para o que se está a passar
Sei que alguns de nós já estão a abusar
Pretos com pretos, brancos com brancos
E os ricos observam, sentados nos bancos
SS, "Sistema" (CD "Escuta Só")
|