Desafio:
Este é um passatempo que a Equipa H2T realiza em colaboração com o café teatro Santiago Alquimista (www.santiagoalquimista.com) e a organizadora de eventos Mundo de Aventuras (www.mundoaventuras.com).
Em conjunto, temos para vos oferecer 5 entradas (no valor de 10€) para o “Natalapalooza’03” no Santiago Alquimista (em Lisboa), reduzindo os vossos custos ao consumo mínimo obrigatório do local (5€). Esta iniciativa, que vai já na terceira edição, ocorrerá em quatro eventos de norte a sul do país, chegando dia 20 de Dezembro ao Santiago Alquimista. As três bandas eleitas para este ano são: Dealema, Sloppy Joe e The Legendary Tiger Man.
Para se habilitarem a um destes convites só terão de expressar a vossa opinião sobre o seguinte tema:
A mistura e fusão do hip-hop com outros estilos musicais (e culturais).
O facto de, cada vez mais, os artistas procurarem a diversidade, apresentarem convidados fora do contexto hip-hop e assim cruzarem ritmos, estilos, ideias…
Será que esta mistura é vantajosa e enriquecedora para o hip-hop, que ganha assim a hipótese de conquistar novos ouvintes; Ou, por outro lado, será que este caminho é traiçoeiro e pode conduzir ao início de um processo de perda de identidade?
Será que tudo se resume a uma questão de gostos, ou de princípios?
Conhecerá o hip-hop limites?
Não iremos avaliar as vossas respostas segundo a opinião ou ideologia seguida, vencerão aquelas que estiverem melhor fundamentadas. Também não necessitam de responder directamente às questões, elas são apenas tópicos que visam guiar o vosso comentário argumentativo.
Os comentários deverão ser enviados para passatempos@h2tuga.net, juntamente com o vosso nome e número de BI, até ao dia 18 de Dezembro. |
Resultados:
Agradecemos desde já a todos quanto participaram mas, como era sabido, os vencedores teriam de ser apenas cinco, e o resultado final foi ditado pela equipa H2T. Apresentamos então os eleitos, devidamente acompanhados pelos respectivos textos de participação:
Dentro do Hip Hop, em qualquer uma das 4 vertentes, o mais importante é transmitir aquilo que se sente. É óbvio que cada um tem a sua filosofia e maneiras de ver/viver a vida... dai a liberdade que cada um tem para desenvolver a vertente, seja ela qual for. Mas esta liberdade deve ter base na igualdade e humildade que abrangem toda a sociedade dos nossos tempos. Tem sido o hip hop comercial (internacional) que tem chamado a atenção da maior parte da sociedade mais jovem para esta cultura, tornando-a 'moda' e não o símbolo que realmente significa.
Há, por isso, uma ideia muito errada da veracidade de tudo o que possa envolver a cultura Hip Hop. Esta é quase sempre associada à violência, revolta, o que vai fazer com que uma possível fusão com outros estilos musicais e culturais não seja tão vantajosa quanto isso. Pode sim aproximar cada vez mais gente, e isso é sem dúvida fundamental porque queremos que esta cultura cresça em todos os níveis.
Mas há sempre o perigo da perda de identidade. É imprescindível dar valor aos clássicos e pioneiros que sempre se dedicaram e naquilo em que se tornaram. ''Há muito para compreender, para descobrir, cultura pura. Será que TODOS a sabemos sentir?''
Teresa do Carmo de Campos Barroso Vieira
Quando, algures pela década de 70, o hip-hop apareceu, era um movimento de pura intervenção, o seu som era muito pouco melódico e os MCs praticamente declamavam por cima destes. Desde esses tempos até à actualidade muito mudou e muito se ganhou, pelo menos em termos de qualidade sonora, o que se calhar não se repercute na identidade. Será que em nome de um som que seja mais agradável se deverá vender a identidade do hip-hop? E isto passará apenas pelo som ou também deve abranger o conteúdo? Tudo isto é muito complexo e cada vez mais difícil de definir na nossa realidade actual, em que o artista se vê na possibilidade de dar largas ao seu poder de criação. Mas em resposta à pergunta que fazem, do que acima fica a introdução, a minha opinião é a seguinte: todos os artistas são livres de fazer o que quiserem, sou um democrata nato, mas algo que fuja em muito àquilo que eram as origens do hip-hop, em conteúdo e musicalidade, não deverá ser considerado hip-hop. Afinal de contas se perdermos a nossa identidade porque raio haveríamos de ter um nome de estilo musical que difere dos outros?!
Jorge Nabais
A grande questão será sempre "onde começa e onde acaba a música estilo hip hop". A música estilo hip hop é aquilo que era quando nasceu, nos ghettos dos EUA? Nesse caso, a maior parte do hip hop que se faz agora não pode ser hip hop. A música "original" tinha uma marca musical mais dançável do que agora, e mesmo as rimas seriam mais direccionadas para o entretenimento que para a intervenção. Será então o hip hop a música de crítica social e consciencialização? Então O hip hop contradiz as suas próprias raízes, para além do que a famosa expressão "Hip hop arte" seria um contra senso. Penso que é mesmo dessa expressão que devemos partir: "Hip Hop Arte". Porquê arte? Porque, como todos os tipos de arte, o hip hop tem que evoluir, porque as pessoas também evoluem. E como as pessoas são um conjunto de diferentes experiências e gostos, a música que fazem será consequentemente uma mistura de várias influências (musicais ou não) que constroem a sua personalidade. Assim sendo, o músico, quando cria, não está (ou não é suposto estar) preocupado com o facto de aquilo que está a fazer se chama hip hop ou não. Ele faz aquilo que sente, os outros é que rotulam o resultado do seu trabalho. Na minha opinião, é intrínseco a qualquer tipo de arte o factor "fusão/mistura". Isto porque a evolução da música funciona como a teoria da evolução da história (de Hegel): Tese, Antítese e Síntese. Podemos fazer um esboço muito básico de um exemplo assim: Tese - Música hip hop de rimas divertidas e quase sem conteúdo. Antítese - Música hip hop com rimas de intervenção e consciencialização social. Síntese - Música hip hop com rimas divertidas e de intervenção social. E assim por diante...
Joana Nicolau Oliveira
Este tema do passatempo é, curiosamente, um tema no qual tenho vindo a pensar cada vez mais com o passar do tempo, uma vez que é uma realidade o facto de novas ideias/ influências surgirem com cada vez mais força e impacto no nosso movimento.
Na minha opinião é um aspecto positivo o facto de o hip-hop alargar os seus horizontes trazendo novidades, inovando não só em termos de musicalidade mas também se pensarmos nas outras vertentes, que devido a algumas novas influências o resultado pode ser bastante positivo na medida em que inovação é sinónimo de crescimento, de desenvolvimento, e ao surgirem novas ideias o movimento torna-se mais rico.
Sou defensora da inovação, novas ideias para mim são sempre bem vindas, mas há que pensar num aspecto muito importante que é: qual é o objectivo e até onde poderemos ir com tantas novas ideias? Se o objectivo for tornar o movimento mais rico, mais consistente com novas ideologias adaptadas à actualidade, óptimo! Mas tudo isto tem que seguir umas directrizes muito bem definidas, directrizes essas que já estão definidas desde que o hip-hop surgiu. Não nos podemos esquecer dos objectivos deste movimento nem nunca os podemos abandonar! Inovação sim, mas seguindo sempre uma linha orientadora.
Caso contrário há, então, o grande perigo de o hip-hop perder a sua identidade, situação que talvez seja inevitável a longo - ou curto - prazo (tudo depende do nosso empenho em preservar o movimento).
Na minha maneira de observar os factos e a evolução do hip-hop ao longo dos anos, concluo que há sim uma evolução mas a linha orientadora dos princípios pelos quais o hip-hop se rege está lá! O seu espírito contestatário estará sempre presente... Para mim, como ouvinte e seguidora, sinto que antigamente havia mais uma união entre as 4 vertentes, ao passo que hoje em dia DJ's, MC's, B-Boys e writers seguem por vezes caminhos muito distintos e trazem cada um as suas influências, no entanto todos convergem para um mesmo ponto comum: o amor ao hip-hop e à sua filosofia.
Musicalmente a ideia é a mesma. MC's com diferentes culturas, que tenham um gosto por outros estilos musicais podem sem dúvida aproveitar esses factos para inovar, e criar novos "sub-estilos" dentro do hip-hop, digamos assim... Mas também não podemos esquecer o aspecto mais importante que é o perigo da perda da identidade do hip-hop se as influências e a vontade de inovar não forem "controladas" e aproveitadas pela positiva.
Espero ter sido clara na exposição do meu pensamento.
Ana Gisela Duarte Madruga
Se há coisa que sempre me intrigou no hip-hop foi o facto da maioria das pessoas ter uma atitude radical quanto à inovação, em termos da entrada de novos instrumentos. Se isso possibilita uma melhoria na qualidade sonora porque nos deveremos bater por uma inferior? E se, como reivindicamos, o sintetizador é um instrumento porque não o haveremos de misturar com outros?
Tudo isto me sugere pessoas que só servem para empatar o desenvolvimento do nosso movimento, que preferem dizer-se underground a evoluírem para um próximo passo, de modo a propagar cada vez aquilo que acho realmente importante no hip-hop: a mensagem. E para os ditos “underground” só tenho uma coisa a dizer: se nós nunca tivéssemos evoluído hoje em dia nem sequer haveria rap, este teria morrido com os Last Poets, o Dj Afrika Bambaataa e outros.
Filipe Mateus
Para terminar, enviamos um especial agradecimento às duas entidades que possibilitaram a realização deste passatempo conjunto: a organizadora Mundo de Aventuras (www.mundoaventuras.com) e o Café Teatro Santiago Alquimista (www.santiagoalquimista.com). |