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"Ritmo & Poesia
Os Caminhos do Rap"
António Concorda Contador / Emanuel Lemos Ferreira
Assírio & Alvim
1997
Nota H2T: Este livro nasce de um trabalho conjunto de dois estudantes do ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa) quando, ao serem desafiados a escolher um tema para dissertar na disciplina de Sociologia da Cultura, elegeram o rap como preferência de estudo. Do trabalho ao livro foi, certamente, uma questão de tempo e muita teimosia.
Introdução (página 9)
“Porquê um livro sobre rap? Porquê um livro sobre um género musical incómodo movimentando-se nas águas conturbadas do politicamente incorrecto? O que é que faz do rap um estilo, social e mediaticamente, opaco, e consequentemente pouco visível à superfície do panorama musical? Que tipo de particularismos se inserem nas letras do rap para que delas se discuta unicamente a sua contorvérsia? Por que é que a construção do seu ritmo parece tão linear e a melodia tão ausente? Como se define um rapper e que tipo de atributos ostenta, permitindo que se distinga sem ambiguidades de um outro artista-músico qualquer? Passamos destas interrogações à formulação de perguntas mais concretas num ápice e no decorrer das várias leituras. As perguntas deram por sua vez lugar, a um plano de trabalho que embora parecendo extenso, parece-nos ser o mais apropriado para entender nos diversos, mas incontornáveis contextos sociais, culturais, políticos, o desencadear à solidificação das várias correntes e tendências do rap.” (...)
Excerto (página 165)
Nota H2T: O pequeno excerto que se segue foi retirado do último ‘capítulo’, denominado “O Rap em Portugal”. Procura desvendar a iniciação do rap em terras lusas, estabelecendo o inevitável paralelismo com a suas origens do outro lado do Atlântico. O texto avança depois para “O rap em Inglês de Portugal”, acentuando o descrédito inicial dos MC’s portugueses pela língua materna, um clichet rapidamente desprezado. Mas para conhecer a forma como está abordada toda esta sequência histórica terão mesmo de ler o livro.
“Miratejo está para o rap em Portugal, como o Bronx está para o rap nos Estados Unidos. Em suma é a Meca dos estetas lusos dos ritmos & poesia, nesta fase inicial, ainda copiada do irmão mais velho americano e à procura de uma maior clarividência que irá passar decisivamente por um período de rodagem em black english. Os rappers americanos encontram aqui uma base receptiva à sua mensagem, tanto mais que as semelhanças entre as condições de sobrevivência em South Bronx e a Margem Sul são facilmente apreendidas por estes potenciais MC’s. A escassez de meios é crucial na fraca visibilidade daquilo que se vai dizendo gritando, mas não é impedimento suficiente para calar as suas vozes, bem pelo contrário. O recurso ao beat-boxing e outras técnicas de improviso vai ditando o desenvolvimento, crucial nesta altura, da base, sustentáculo fundamental do rap em qualquer lado. Em qualquer lado o rap começa por ser underground. Portugal não é excepção.”
Testemunhos
Nota H2T: Na parte final do livro encontram-se transcritas algumas das entrevistas realizadas pelos autores no âmbito deste trabalho. O intuito, tal como dizem, foi “dar voz aos principais intervenientes na cena rap lusa”. Os entrevistados são Double V,João Vaz, Johnny, Makkas, Presto, Yen Sung e X-Sista, entre os quais escolhemos três pequenos excertos. De referenciar ainda que as fotografias expostas são da autoria de Patrícia Almeida e estão também presentes em “Ritmo & Poesia, Os caminhos do rap”.
Johnny

“O que falta realmente é haver um núcleo. Que dirija o hip hop para qualquer lado. Tem de haver um núcleo que faça a divulgação do hip hop. Em França começa com a Zulu Nation, em Inglaterra aconteceu com outra coisa, no Japão aconteceu com outra coisa. Tem de haver uma organização, e eu acho que esse é o grande problema, esse é o grande vírus em Portugal. É que toda a gente espera que o próximo faça qualquer coisa. Porque toda a gente pensa que para montar uma cena é preciso dinheiro. Não! É preciso é força de vontade, é preciso realmente as pessoas estarem com o mesmo goal (objectivo) e fazerem as coisas. Quando eu digo fazerem as coisas... Eh! Pá, porra! Quantos rappers é que nós temos cá? Já não são poucos. É necessário arranjar-lhes um sítio para pô-los a rappar? Arranja-se um sítio. Não é também o que eu vejo, por exemplo, há espaços que pensam logo no factor comercial. Eu não sou contra o factor comercial, sou contra o factor imediato que o hip-hop não é! Porque é uma música de culto e é tão complicada como o jazz. Se fazes uma festa em que vais passar jazz, e eu tenho a experiência porque já fiz festas só de hip hop e só de jazz... Com um estilo de música, tu não fazes dinheiro no primeiro mês, nem no segundo, porquê? Porque aí vais começar a fomentar um culto. Gente de culto que vai ali porque gosta de ir ali, porque gosta da musica, prontos! E o que eu vejo aqui é que se faz uma noite de hip hop, e pensam à primeira noite vai estar cheia, é impossível!”
X-Sista & Yen Sung
“X-Sista: Há uma falta de sensibilidade dos produtores e em geral para o hip-hop...
Yen Sung: Isso tem a ver com a cultura musical em Portugal. Quando os produtores não dominam aquele tipo de música é natural que não possam dar 100%. E o produto final, é claro, não é 100% aquilo que podia ser. Os produtores têm simplesmente que conhecer hiphop.”
Makkas

“Já nos chamaram de gangsters, já nos chamaram de bué da merdas. Iam lá a Miratejo tirar fotografias e no dia seguinte aparecia: «Os Marginais de Miratejo», e afinal a entrevista era a falar sobre rap, ‘tas a ver?...”
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