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"Fixar o Movimento
Representações da música rap em Portugal"
Teresa Fradique
Publicações D. Quixote
(Colecção – Portugal de Perto)
2003
Intróito de apresentação:
“Este livro resulta de uma investigação realizada no âmbito do mestrado em Antropologia: Patrimónios e Identidades (ISCTE, 1999). Procura reflectir sobre os lugares da antropologia e o papel do antropólogo na construção do conhecimento sobre os fenómenos culturais da contemporaneidade. O seu objectivo não passa por fazer a história complexa, apesar de recente, da música rap, mas antes uma discussão em torno dos vários discursos que, num determinado momento da sociedade portuguesa (1994-1998), contribuíram para a representação pública deste estilo musical, inserido na denominada cultura hip hop”
Excerto (pág 79):
Nota H2T: O excerto que se segue foi retirado do capítulo 3 – “Diário de um movimento: espaços de performance, consumo e produção de cultura (hip hop)”. Um capítulo onde a autora se lança numa pesquisa directa pelos espaços que, na altura, acolhiam festas hip hop. A análise e descrição de algumas destas experiências é mesmo feita ao pormenor, transmitindo uma imagem bem nítida e completa do ambiente e movimentação observada.
Este pequeno excerto escolhido, apesar de se basear numa realidade muito específica e diferente dos dias de hoje, aborda uma questão que permanece bastante actual - A razão da falta de público nas festas hip hop - A resposta parece ser tão complexa quão misteriosa.
“… Uma das questões que se me colocou durante o trabalho no terreno prendeu-se exactamente com o facto de, apesar da constante referência por parte dos rappers à escassez em torno deste estilo musical, algumas das iniciativas a ele dedicadas terem tido uma afluência muito reduzida. Foi o caso das experiências de concertos de rap no Ritz Club, da primeira festa organizada pelo colectivo Raska, ou ainda o de algumas festas organizadas por grupos de amigos. Em contrapartida, festas realizadas em lugares mais descentralizados (em relação ao centro de Lisboa) como o Pinhal Novo ou a Baixa-da-Banheira contaram com uma participação expressiva de rappers de várias zonas dos arredores de Lisboa.
As razões que levam à falta de público são variáveis e impossíveis de sistematizar na sua totalidade. Constituirão a falta de divulgação e a falta de condições logísticas dois dos factores que contribuem para essa ausência? Se bem que ambos os aspectos poderão ter uma influência significativa, o que se tornou visível através da observação da generalidade dos eventos realizados entre 1996 e 1997, foi um aparente paradoxo: alguns dos eventos pouco divulgados junto dos meios convencionais (comunicação social, cartazes, etc.) tiveram uma frequência expressiva; enquanto que outros, com uma divulgação considerável e condições técnicas acima da média, não foram capazes de suscitar motivação junto da comunidade hip hop. A questão reside então nos factores mobilizadores dessa motivação. O que a observação no terreno me mostrou foi que o aspecto fundamental encontra-se na capacidade de criação de espaço (de performance de rap), tarefa dificultada por este ser sempre temporário e efémero, ou seja descontínuo (tal como aconteceu na génese do estilo musical, na Nova Iorque dos anos 80).
Para além da escolha do local físico, a sua legitimação depende ainda da reunião de outras condições necessárias à criação de uma festa hip hop ou hip hop party, que se resumem a um único esforço convergente de procura de exclusividade. Ou seja, onde ela está ausente do ponto de vista físico há que criá-la a outros níveis. Isto porque os rappers estão muitas vezes limitados à ocupação de infraestruturas existentes para outros fins, tais como discotecas de música africana, bares de música rock, sociedades recreativas ou espaços criados pelas instituições autárquicas, por exemplo, concertos de bairro em palcos cedidos pelas Juntas de Freguesia ou concertos organizados pelas Câmaras Municipais. Antes de mais o grau de exclusividade é visível no tipo de música transmitida (quer ao vivo, quer gravada): esta tem de estar incontestável e exclusivamente conotada com a estéctica rap. Por outro lado, a maioria do público deve ser constituída por elementos «ligados ao movimento». O facto de nem sempre haver selecção na entrada, faz com que a legitimação de um acontecimento como acontecimento hip hop (e não apenas de rap, porque se trata sempre de um espaço de celebração de cultura e não apenas de consumo de um estilo musical) tenha de ser assegurado pelos próprios elementos, acorrendo em número suficiente para que se constituam como maioria. As motivações para que os elementos do movimento compareçam não residem no entanto na divulgação convencional mas antes na capacidade que os grupos participantes ou os organizadores têm de apresentar o evento como um evento legítimo. …”
» Crítica in "Blitz" (nº ? de ?/?/2003)
São trabalhos como este que dignificam o movimento hip hop nacional e lhe dão a validade e o apoio de que ele necessita para ultrapassar o underground em que está há demasiado tempo cantonado. Se lá fora já existe um assinalável corpus de literatura sobre o hip hop enquanto cultura autónoma e actualmente dentro da sociedade, o livro de Teresa Fradique é o primeiro ensaio sério sobre a realidade portuguesa do movimento - mesmo que a sua abordagem seja não tanto histórico-biográfica mas mais antropológica-mediática, surgindo a obra aliás editada na colecção de etnografia e antropologia dirigida pelo reputado prof. Joaquim Pais de Brito. E sim, estou a esquecer, deliberadamente, a obra de António contador e Emanuel Ferreira, "Ritmo e Poesia", publicado em 1997 na colecção Rei Lagarto da Assírio & Alvim, objecto de inegável pioneirismo mas de confrangedora, mesmo embaraçosa qualidade (literária e não só).
Isto não implica que "Fixar o Movimento" seja uma obra imediata - tratando-se, como se trata, de uma tese de mestrado, transporta consigo toda uma série de marcas e formulações académicas que não facilitam a entrada. E, sendo uma tese de mestrado em Antropologia, o seu objecto - tal como o inspirado título o define - não é tanto organizar uma história ou uma cronologia do movimento hip hop em Portugal, mas sim estudar os modos como a cultura hip hop e especificamente a sua vertente musical foi introduzida e assimilada, o significado que ela assume para os seus integrantes, a maneira como foi apreendida e referida por quem está de fora. Nesse aspecto, o trabalho da autora ajuda em grande parte a dissipar muitos dos lugares-comuns habitualmente ligados ao rap, desmontado-os como projecções mediáticas de uma sociedade que não sabe como representar ou integrar a diferença.
Abrangendo o período de emergência do rap feito em Portugal (1992-1997) como uma cultura abrangente construída a partir da colisão local de elementos importados, a pesquisa de Teresa Fradique não é, como já se disse, uma história linear do movimento, embora ela fique sucintamente desenhada por entre as tarefas antropológicas a que a autora se dedica. O grande número de citações de entrevistas próprias e inéditas com muitas figuras pertencentes ou ligadas ao rap português garante o interesse histórico-informativo de "Fixar o Movimento", que se revela rapidamente como leitura bem mais estimulante do que o estilo algo árido (forçado pelas especificidades do trabalho) sugeriria numa primeira abordagem.
Por Jorge Mourinha para o "Blitz"
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