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H2T - HipHop Tuga"Arte Teoria" - Revista do Mestrado em Teorias de Arte da Faculdade de Belas-artes da Universidade de Lisboa | nº2 | Ano 2001

'Arte Teoria'

(nota H2T: este livro contém 15 ensaios, entre os quais este sobre graffiti. Apenas transferimos parte do texto que ocupa 9 páginas do livro - aquelas partes que nos parecem mais curiosas e directamente relacionadas.)

Graffiti
  Mestiçagem Imagética dos Não Lugares
  Por Professor Pintor Hugo Ferrão

  …”A cidade foi invadida por multidões em fuga, imigrantes vindos de continentes à deriva, amputados da sua identidade cultural foram conduzidos aos guetos a perder de vista, vastos horizontes, os quais podemos hipocritamente considerar como não lugares, pólos de hibridização, da maravilhosa qualidade de recombinar ou juntar materiais e matérias estereotipadas , sucedâneos de algo, como indicadores de vitalidade e paradigma da condição cultural pós-moderna.

  As telepalavras e as teleimagens são as melopeias cadenciadas que regulam os gestos sem sentido que se confunde com movimentos mecânicos, repetidos e ensaiados até se transformarem numa arte marcial onde cada movimento abate um adversário. A socialização das tribos mais jovens deixou de ser feita com base em dois núcleos estruturantes, a família e a escola, “onde poderia acontecer o ser”, lembrando o Adalberto Dias de Carvalho.

  Nas paredes das “cavernas suburbanas”, ou nos santuários a céu aberto são desenhados os contornos de formas de animais do grande espectáculo, referências a banda desenhada, grafismos de capas de discos, palavras soltas de letras de canções, um pseudónimo como assinatura, talvez com o propósito de marcar território, gravar um sinal numa superfície, talvez o único momento em que se chegou a ser pessoa.

  A cultura concebida pelas instituições oficiais regra geral opõe-se a uma cultura produzida pelos próprios cidadãos, os grupos de pressão associados aos tradicionais lobbies que correm todo o espectro político, segregam defesas, que são bem patentes na atribuição de subsídios, ou financiamentos de eventos culturais, voltados para a animação das grandes cidades, as famosas megafeiras mundiais e as capitais da cultura, ou espaços dedicados como a praça Sony na Expo 98. Resta-nos saber qual é a cultura que deve ser promovida, e se continuamos com a falsa despolitização cultural?

  Provincianamente os aparelhos políticos protegem e fidelizam um conjunto de artistas, uma carteira de agentes culturais, porque desta forma podem ampliar a sua visibilidade mediática; a promoção dos artistas de estado obedece a um processo de entronização que acaba na sua consagração como “superstar”, essas sim, reconhecidas pela singularidade de carácter e obra; algumas delas passam mesmo à categoria de semideuses chegando a integrar o panteão nacional.

  Manifestações culturais fora da esfera de sucção das instituições oficiais são sempre olhadas como suspeita, pois a ausência de enquadramento e controlo pode ser articulada como a suspeição de rupturas do discurso instituído , a “crise” pode instalar-se. Esta tensão dualista é a antítese da visão multicultural que hoje se vive nas grandes cidades. As actividades culturais oficiais deviam funcionar como elemento de integração, aglutinador, e não como um circo romano, ou como sociedade do espectáculo à Guy Deborg.”

  (…)

  “Esta cultura de rua, assim considerada por alguns autores, pode ser superficialmente relacionada com um posicionamento de contracultura com fortes tradições na Europa Central e nos Estados Unidos, porém a ausência de orientação ideológica patente nas manifestações artísticas, metaforicamente “frescos urbanos”, reveladores da hipótese telemágica de tudo se alterar num segundo, como se vivêssemos num perpétuo concurso televisivo é bizarro.

  O aparente primitivismo tribal dos graffiters, marca e define o seu espaço urbano, com “riscos caligrafados”, diariamente vigiado para evitar a invasão de “outsiders”, não fazem mais do que reproduzir o modelo concentracionário-gheto imposto de for a para dentro. Não é por acaso que se considera como local de nascimento ou catedral, o Bronx, um gheto negro de Nova Iorque na década de 70. Exportada para a Europa, chega a Portugal nos fins dos anos 80.

  As regras impostas pelos “gangs” necessitam de códigos facilmente reconhecíveis, como o traje e adornos, um visual “cool” , como equipamentos de futebol, uma equipa – “crew”, os graffitis como pintura de guerra que identificam as fronteiras e criam novas identidades protegidas pelo pseudónimo, geram mistério, apenas se reconhece o estilo, a oralidade é convertida em letra de música, com forte impacto político, “avisos à navegação”, “stórias” da Zona Jota, caracterizam o “corta e cola hardcore”, da música Rap, e a Break Dance, ou expressão corporal espontânea inicialmente dançada nas ruas e posteriormente concentrada nas discotecas e manipuladas pelos DJ’s.

  Do “crioulo visual”, nascido da mestiçagem imagética dos não lugares, emerge a trilogia baseada no Graffiti, no Rap e no Break Dance, estes três elementos são definidores da cultura de rua Hip Hop.”

  (…)

  “O graffiter tem de manter uma conduta baseada num código de honra de rua e uma feroz competição pela tomada de locais de “montra” dos seus graffitis, dentro da sua área todas as superfícies podem ser inscritas, a parede é o suporte mais apetecível, pode ou não ser preparada para receber as cores provenientes das “latas”, os aerossóis de tinta industrial. O desafio de questionar a autoridade instituída correndo um risco iminente de ser apanhado a graffitar um carro, uma porta, a parede de uma instituição fortemente policiada, e acabar por ser agredido, multado e perder o equipamento, faz parte da aura do graffiter.

  A iniciação à prática do graffiti reveste-se de ritual apropriado, e estabelece uma hierarquia, o graffiter, também chamado de “writter”, de letterings gigantescos, escreve o “tag”, pseudónimo em grandes letras no centro da composição, evitando desta forma a identificação por parte da polícia.

  A localização do graffiti deve ser em espaços públicos de grande visibilidade e frequência, praças, ruas, parques de estacionamento, estações do metropolitano, transportes públicos, os mais procurados para o “hit” são os comboios, os autocarros, interiores e exteriores, mas não são excluídas quaisquer outras hipóteses, como pintar o carro de uma entidade oficial em visita a bairro degradado. O grau de acessibilidade conta, fazer rapidamente com algum material de apoio, como escadotes, para chegar a paredes normalmente inacessíveis, obriga a planeamento, quanto mais difícil melhor, a dimensão é factor essencial, não só pelas latas que serão precisas mas pelo impacto visual.

  A linguagem plástica é rudimentar, linhas de contorno, curvilíneas desenham as letras, bidimensionais ou simulando a tridimensão, na parte central, ou funcionam como um texto ilustrado, cores fortes e planas provenientes das latas são pouco trabalhadas, a execução é realizada pela “crew”, que pode ser composta pelos “toys”, aprendizes sob a orientação de um “writter”, que após vários trabalhos bem sucedidos pode ascender ao estatuto de mestria e transformar-se num “King”, uma autoridade na matéria.

  As composições podem ser dinâmicas, quase sempre barrocas, excessivas, de um colorido intenso ou monocromáticas, Henk Pijnenburg, agrupa o graffiti em três estilos, o que tem por base o tag, outro o trabalho figurativo, e por último o de tendência abstratizante. Quando são utilizados elementos figurativos são oriundos da banda desenhada, filmografia e literatura da nova ficção científica, a narrativa e a mensagem oscila entre repressão e resistência, tecnodesumanização e humanização, Bruce Sterling e William Gibson são autores citados, porém os mitos Hip Hop como Tupac Shakur fazem parte do panteão da cultura de rua.

  (…)

  A fabricação da cultura de massas é uma indústria poderosa e tentacular, as bandas Rap nacionais como Cool Hipnoise, General D e Mind da Gap, adaptara-se à industria discográfica portuguesa, que não tinha detectado este nicho de mercado. O apoio institucional – Ministério da Cultura e Instituto Português da Juventude é real na figura de subsídios justificados pelas várias actividades, edição discográfica, organização de concertos, locais-paredes legais, fornecimento de materiais, determinação dos “santuários” ou “mumificação de espontaneidade”, acesso aos mass média, encomendas oficiais, em termos gerais a visibilidade que se desejava. Organizações como UGA, United Graffiti Artists de Nova Iorque discutem programas que levassem à legalização da prática do graffiti. Em Portugal temos a correspondente na associação H2, que associa graffiters e antropólogos.

  (…)

  A conflitualidade entre cultura dominante e a cultura dominada, de rua, esbate-se na integração e redução a mercadoria das actividades que caracterizam a hibrídade do movimento Hip Hop, adiando medidas estruturantes, projectos faseados para uma real integração no tecido cultural de acolhimento dessas minorias étnicas descaracterizadas, até porque a mundialização inevitavelmente nivelará as culturas e consequentemente as singularidades atribuídas às entidades culturais genuínas tenderão a miscigenar-se. Na óptica oficial já foi reconhecido que a situação se torna insustentável e que é economicamente mais rentável e viável integrar em vez de recuperar.”

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