Fonte: Destak nº111, 20/02/2004
17/12/2004, 19:51
Graffiti
Entre a arte e o vandalismo
Pode ser um simples nome rabiscado numa boca de incêndio, uma mensagem política escrevinhada num comboio ou um elaborado mural pintado numa parede. Considerado vandalismo pela generalidade das pessoas, o graffiti é a expressão de uma cultura urbana mais vasta, geralmente associada ao hip hop. Existem, contudo, desvios que denigrem os graffiters mais puristas.
Pela calada da noite, quando as pessoas dormem e a luz escasseia, há uma lata de tinta que ganha vida na mão de um writer (ver glossário). A parede transforma-se, o comboio muda de pele. No dia seguinte, a população urbana entra em massa para a carruagem e depara-se com grafismos de ambiciosas dimensões. Para quem pinta, o graffiti é este misto de protagonismo e adrenalina, inspirado pela contestação social. «O graffiti é muito egocêntrico, tem necessidade de se expôr», explica Ricardo Silva, um assistente de marketing que pinta graffiti nos tempos livres e que lançou recentemente o DVD Referência. «Sendo egocêntrico, o writer quer estar em todo o lado, pintar o máximo possível», acrescenta Ricardo. É uma postura que contém um certo paradoxo: o objectivo é conseguir a maior visibilidade possível, mas sem que o autor seja visto. Por isso, espalham a sua marca através de um tag, ou pseudónimo, escondendo assim a sua verdadeira identidade.
A irmandade
O graffiti nasceu no metro de Nova Iorque, na década de 1970. Seria a expressão plástica de uma cultura mais vasta, o hip hop, que inclui ainda os MCs, os DJs e o breakdance. Associado às comunidades hispânicas e afro-americanas que eram alvo de discriminações, hoje enquadra-se num grupo bastante mais fluído. Em Portugal, é difícil estabelecer um perfil social ou económico sobre quem produz graffiti – apesar de ser frequentemente associado a grupos marginais. A socióloga Catarina Dias, que estudou o graffiti para a tese de licenciatura, afirma que «há mais pessoas a pintar que não são propriamente pobres, até porque as latas são caras. Para poder fazer um graffiti bem elaborado, com muitas cores, é preciso poder económico». Do contacto que teve, a socióloga descreve os graffiters como pessoas naturalmente atentas ao meio envolvente. Além disso, são grupos bastante coesos que alimentam um apurado sentido de respeito pelo trabalho de cada um. Por isso mesmo, crossar (riscar por cima de um graffiti anterior) é visto como uma provocação.
Bombing e hall of fame
Ram é um graffiter diferente dos outros. Raramente assina os seus trabalhos, raramente pinta clandestinamente. Mergulhou no graffiti há uns seis anos. «Começou num dia de Verão», recorda serenamente. «Lembro-me que estavam umas altas ondas na Praia Grande, fui surfar e apanhei um flyer sobre uma workshop de graffiti que ia haver». Com formação em design gráfico, Ram funde a linguagem do graffiti com as artes plásticas, contando hoje com uma longa lista de produções encomendadas - incluindo, por exemplo, o bar Amo-te Meco. Os trabalhos são feitos às claras, com tempo, paciência e preocupações estéticas - aquilo que, na gíria do graffiti, se denomina de hall of fame. No extremo oposto encontra-se o bombing, que tem um carácter mais clandestino - como uma emboscada rápida e mortífera. São trabalhos incisivos, por vezes uma mera assinatura, feitos normalmente de noite. «O bombing corresponde aos hackers da informática - pretende mostrar as fragilidades do sistema», explica a socióloga Catarina Dias.
Arte ou crime
A discussão é antiga. Será o graffiti uma expressão artística ou mero vandalismo? Embeleza a paisagem urbana ou destrói o património? Para a socióloga Catarina Dias, é preciso primeiro quebrar as convenções clássicas que compartimentam as artes plásticas (pintura, escultura...) e excluem, tradicionalmente, o graffiti. «Só vamos conseguir perceber o graffiti, até enquanto arte, quando rompermos com essas ideias», defende. Os próprios writers fazem uma distinção entre aqueles que levam o graffiti a sério e os outros – denominados toys ("brinquedo", à letra) – que fazem só para estragar. «Há muita gente que nem é writer e que faz vandalismo. Chegam a um monumento, escrevem palavrões, estragam e prejudicam os próprios writers», comenta Ricardo Silva.
Legalismos
Nunca houve em Portugal um graffiter a cumprir tempo de prisão. Isto, apesar de a actividade se enquadrar no crime de dano qualificado, que compreende uma pena que pode atingir os oito anos de prisão. Para isso é preciso que os proprietários das superfícies pintadas apresentem queixa - o que só se verifica, segundo o comissário Luís Elias da PSP, em casos muito isolados. «É uma actividade com algum grau de aceitação social», explica. A acção da polícia consiste em tentar prevenir ou apanhar em flagrante delito. Existe, por isso, uma base de dados com as assinaturas dos graffiters e os grupos a que pertencem. O comissário salienta, no entanto, que este é um movimento eminentemente artístico, por vezes associado à delinquência juvenil, mas raramente ligado à violência dos gangs.
Entrevista a um writer
Conversámos com um graffiter do grupo D.S. (Dimensão Subterrânea), que pediu para não ser identificado. É estudante e animador social.
O que é para ti o graffiti?
- Se falarmos de hall of fame, é um encontro de amigos que se juntam num domingo à tarde numa parede, para expressar ideias. Em termos de bombing, é uma questão de afirmação: darmo-nos a conhecer sem sermos conhecidos. Além disso, é uma forma de expressar a minha insatisfação e raiva. Não gosto daquilo que vejo todos os dias.
De que é que não gostas?
- Da política e da falta de união entre os portugueses, apesar de sermos poucos. Não inovamos, não trazemos nada de novo. Não gosto do racismo, da falta de confiança entre as pessoas.
Como começaste a pintar?
- Comecei por volta dos 14/15 anos fora do meu bairro, mas correu mal. Não gostei do que pintei. Não tinha formação. Então, parei durante um ano e meio e comecei a entrar na cultura, a frequentar festas de hip hop. Conheci então o Obey, que era o bomber mais respeitado, mas "bué" humilde. Comecei a acompanhar o trabalho dele, a falar com pessoas, a aprender técnicas. Depois senti que devia voltar à rua.
Como escolheste o teu tag?
- Queria uma marca que conseguisse penetrar na cabeça das pessoas. Na altura havia poucos e as pessoas falavam no meu nome. Era uma máscara que me protegia da sociedade. As pessoas viam a máscara, mas não me viam a mim. Cheguei a assistir a conversas sobre mim. Além disso, revejo-me no filme (A Máscara). A personagem era engraçada, pregava partidas.
Preferes o hall of fame ou o bombing?
- O bombing, sem dúvida. O hall of fame é para relaxar, como os homens que vão à bola ou as mulheres ao cabeleireiro. O bombing é um desafio, uma adrenalina mesmo.
Estabeleces limites para ti próprio?
- Sim. Há sítios que é por respeito, outros porque não fica bem. Mas quando vejo uma estátua ou um edifício bonito, também vejo lá arte. Aí não tenho coragem.
O graffiti devia ser legalizado?
- Não devia. Davia era haver mais espaços para hall of fame. Já aconteceu a polícia chegar a paredes legais e "cortar a festa". Às vezes fazem uma mega-operação, com carros, caçadeiras, tiram a identificação e levam as latas.
Alguma vez foste apanhado?
- Os membros mais novos do meu crew fazem bombing, mesmo de dia. As duas vezes que me aventurei e fui com eles, fui apanhado. Já tinha acabado, mas apareceram e cercaram. Fomos para a esquadra e tiraram-nos a identificação.
Quando pintas, é mais importante a arte ou a contestação?
- No bombing, o lado da contestação é mais alto. As pessoas que estão de fora não vêem muita arte. Quem faz e percebe, consegue ver para além disso – o risco, o estilo, o reconhecimento, a atitude.
E o protagonismo, é importante?
- É sem dúvida um dos objectivos principais. Por isso é que é preciso conseguir subir a sítios mais altos, saltar redes, fugir a cães.
Dantes era raro os writers darem a cara. Porque decidiste dar esta entrevista?
- Se não fizesse, ia ser outra pessoa. Faz parte da comercialização da imagem. A entrevista traz fama, mas também props (ver glossário).
Um graffiter famoso
Um dos artistas contemporâneos que mais vende tem as suas raízes no graffiti. Keith Haring, natural da Pennsylvania, nos Estados Unidos, foi preso diversas vezes pela sua actividade ilícita. No entanto, os seus trabalhos no metro de Nova Iorque foram--lhe dando cada vez mais notoriedade e chegou a associar-se, na década de 1980, ao ícone da cultura pop, Andy Warhol.
Glossário
A terminologia utilizada entre graffiters tem origem inglesa, já que nasceu nos EUA.
Bombing: Graffitis realizados rapidamente, pouco adornados e normalmente realizados em locais de grande visibilidade e ilegais.
Crew: Grupo de graffiters que pintam em conjunto
Crossar: Pintar (traço, assinatura ou graffiti) por cima de um graffiti alheio.
Graffiti: arte visual da cultura hip hop. Pintar com aerossol.
Hall of fame: Parede pintada com uma sequência longa de graffitis bem elaborados.
Hip Hop: Cultura urbana específica composta pelo graffiti, MC'ing, DJ'ing e breakdance .
King: Graffiter experiente, com muita técnica, com estilo e bastantes trabalhos realizados.
Piece Book: Caderno de projectos e esboços de graffiti..
Props: Mensagens que se acoplam ao graffiti para mandar a alguém; dedicatórias.
Sell Out: Termo que identifica a actividade do graffiter quando este pinta, por sistema, apenas a troco de dinheiro ou latas de tinta.
Silver: Graffiti realizado rapidamente, normalmente composto pelo tag do seu autor, realizado com letras compostas por um contorno (outline) e cheias a tinta cor de prata.
Tag: Assinatura ou pseudónimo que identifica o autor do graffiti.. Tagar: Espalhar o tag.
Toy: Graffiter inexperiente, sem uma considerável quantidade de trabalhos realizados e com uma técnica inferior aos graffiters mais experientes.
Writer: Pessoa que pinta graffiti. O mesmo que graffer e graffiter.
Por Cristiana Pereira para Destak nº111 (20/02/2004)





