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H2T - HipHop TugaRoyalistick - Abril/2008

Royalistick - Portfólio @ Festival Noites Mestiças, Institut Franco-Portugais

Royalistick - Portfólio @ Festival Noites Mestiças, Institut Franco-Portugais

Totalmente inesperada, a sua “Visão Periférica” das ruas deu-lhe o estatuto de revelação do ano em 2005 e entrada directa para o quadro de referências do Hip Hop Nacional. Três anos depois, eis que surge um dos discos mais aguardados pelo público, o “Portfólio” de experiências pessoais e visões do mundo de Royalistick.
  Com o selo da Footmovin’, o álbum chega às prateleiras a 12 de Maio.

H2T - "Em 2006 junta-se à Footmovin' com o objectivo de levar a sua música a um patamar superior". Esta é a frase que conclui a biografia de Royalistick no myspace. Sentes que não tinhas margem de evolução na Chocolate Bars? Foi esse o motivo da tua saída?
   Royalistick – A minha saída da Chocolate Bars não tem nada a ver com a Footmovin’, aliás posso dizer que para gravar este meu segundo disco a Footmovin’ foi a única proposta, ou seja, foi a única escolha que eu tive. A Chocolate Bars nunca disse “olha vem gravar o segundo disco”. Além disso, temos que ter noção das coisas e quando entrei na Footmovin’ achei que era uma editora que se mexia bem e eu sei que por muito bom que tu sejas, por muito bem intencionado que sejas com a tua música, nunca vais conseguir chegar a muitas pessoas se não tiveres os meios para o fazer. Podes ser um Cristiano Ronaldo mas se tiveres a jogar num ringuezinho na tua comunidade, ninguém vai saber que “aquele gajo ali” sabe jogar bem à bola. Se tiveres a possibilidade de ir a um programa ou de participar num treino de captação num clube, vais ter mais hipóteses. E é nesse sentido que falo num patamar superior na Footmovin’ porque a própria editora até me exige isso, não posso andar a brincar.

Royalistick - Portfólio @ Festival Noites Mestiças, Institut Franco-Portugais  H2T - Hoje apresentaste ao vivo aqui no Instituto Fraco-Português, uma antevisão do “Portfólio”. Para quem não pôde estar presente e tem de esperar um mês até que saia o álbum, como é que defines este teu novo trabalho?
   Royalistick – O meu segundo trabalho é mesmo isso, um “Portfólio”. É um álbum bué pessoal, mostra um pouco do meu trabalho ao longo destes 26 anos que tenho de vida, as minhas experiências pessoais, aquilo que vivi, todas as cenas que eu absorvo, coisas que me rodeiam. É essencialmente um disco íntimo e tenho a certeza que qualquer pessoa que o vá ouvir – sem preconceitos e de mente aberta – vai encontrar pelo menos um tema, uma música em que vai dizer: “é mesmo isto que eu sinto e não consigo dizer”. Até porque eu próprio sou muito mau a expressar-me, sou muito mau a falar e só a escrever é que eu consigo sintetizar bem os meus pensamentos e aquilo que digo. O meu disco é muito à base disso, é uma introspecção aberta.

H2T – Queres explicar melhor o que se passou aqui, o clima um pouco tenso que se gerou?
   Royalistick – O que se passou aqui foi que eu tenho uma música que se chama “2º Round” que é um re-make do “1º Round”, que é o segundo single do Twism e ele é das pessoas que eu mais gosto neste mundo, adoro o miúdo. E o que aconteceu foi que o Twism ficou estranho, são coisas que acontecem na vida, aquelas coisas normais, as pessoas chateiam-se. Eu fiz esta música e não digo mal do Twism, eu não digo uma palavra mal dele, não estou a insultá-lo, não lhe estou a faltar ao respeito. Estou a dizer “abre os olhos, eu sou teu amigo e um dia vais precisar de amigos”. É a única coisa que a música diz. Estava aqui pessoal de Quarteira, pessoal que eu conheço e se calhar ressentiu-se um bocadinho disso mas de certeza que não ouviu com atenção, é aquela cena do preconceito. Eu não estou a chatear ninguém, não estou a gozar com o Twism, se ele depois ouvir vai perceber que não estou a gozar. É um re-make que eu fiz e se eu não gostasse do Twism estava-me a cagar para ele. Diz-me o que é que eu preciso, sinceramente, de falar do Twism para que se fale de mim? Graças a Deus não tenho essa necessidade, se eu falo do Twism é porque me preocupo, porque gosto dele. O amor e o ódio são sentimentos que andam de mãos dadas e eu gosto muito dele, por isso que fiz esta música. É o que eu digo, o meu “Portfólio” é isto, são estas coisas.

  H2T – Voltando então ao “Portfólio”, como correu todo o processo de concepção, desde a inspiração para os temas até ao disco estar pronto a ser copiado na fábrica?
   Royalistick – O meu primeiro disco, o “Visão Periférica”, gravei-o numa semana. Nunca tinha feito um disco na vida. Este foi um disco que foi acontecendo, não me pressionei muito. Já tinha algumas coisas e o Bomberjack disse-me que quando quisesse podia começar. Comecei e depois de três meses tinha o disco feito. Entretanto parei um ano – o meu álbum está gravado há mais de um ano – enquanto estive à espera das participações de pessoal que tinha convidado. A nível de inspiração… sou muito céptico em relação a isso, no que toca ao talento. Acho que as coisas não aparecem, tens que te esforçar. Eu esforcei-me para fazer um disco e acho que consegui fazer um disco bom, não mudava nada.

H2T – As produções tanto deste novo álbum, como do “Visão Periférica” fazem lembrar o rap francês dos anos 90. Tens algumas influências dessa escola?
   Royalistick – Tenho, tenho. Hoje em dia posso dizer que ouço muito rap americano. Posso dizer que há mais ou menos dois anos que não ouço um disco de rap francês, mas sim: “L’école du micro d’argent”, “IAM”, “NTM”, o rap de Marselha, o rap de Paris, ouvi muito. Gosto muito mais da sonoridade do rap francês do que a sonoridade do rap americano porque sou uma pessoa um bocado sensível e acho que os instrumentais franceses têm muita personalidade.

H2T - Ao contrário do “Visão Periférica”, que teve apenas duas colaborações vocais (Twism e Carla Sousa), o teu segundo álbum conta com muitos nomes consagrados, como Valete ou Pacman e Virgul. Foi a nova editora que trouxe este “portfólio” de artistas ou foi fruto da evolução espontânea da tua carreira como músico?
   Royalistick – Nem uma coisa nem outra até porque alguns são gajos que conheci depois do “Visão Periférica”, mas a maioria dos convidados já conheço há muitos anos. O que eu quis fazer com o “Visão Periférica” foi numa altura em que toda a gente que aparecia no Hip Hop Português aparecia com um disco em que tinha convidados de peso: tinham o Sam the Kid no disco, ou o Chullage, ou o Regula – ou tinha-os a todos juntos – e eu achei que não ia precisar. Sem estar a ser pretensioso, eu queria era mostrar que não precisava de ter esses gajos no meu disco. São bons, toda a gente sabe que são bons mas eu não preciso de os ter para que o pessoal vá ouvir o meu álbum, e acabei por ter razão porque o meu disco correu bem. Sou um gajo que aparece de onde? Ninguém sabe. Com um disco que vale ninguém sabe o quê e vendi os discos todos e correu bem, teve um buzz bué bom. Este tem mais convidados, como tu dizes, porque achei que já podia fazer isso, já não tinha nada a provar. Já não se põe a questão de agora ter uma música com Pacman e o Virgul porque as rádios vão passar e o pessoal vai curtir só porque estão lá eles mas “aquele gajo” não tem valor nenhum. Como é que alguém pode dizer isto se eu fiz um disco sem convidados nenhuns e correu bem?

Royalistick - Portfólio @ Festival Noites Mestiças, Institut Franco-Portugais

H2T – Quais são as tuas expectativas em relação à aceitação por parte do público e mesmo de performance em termos de vendas?
   Royalistick – Eu acho que nós criamos sempre expectativas mas não é aquela expectativa de “ah porque eu quero bué… isto vai correr bué bem...” e depois as coisas não correm bem e fica-se desmotivado. Não é nada disso. Tenho a expectativa de aceitação mais por curiosidade de ver o feedback que vai ter este disco, ver qual vai ser a resposta das pessoas. É mais isso que tenho curiosidade, a nível de vendas não me preocupo até porque venda muito ou venda pouco, vendo sempre pouco. Não é por aí que vou ter mais uma casa no Algarve. Esse tipo de coisas sinceramente nem penso nelas.

H2T - Sensivelmente 10 anos depois de teres começado a fazer rap, qual é a sensação de ver o single "Uma Estrela" nos tops da rádio e da MTV?
   Royalistick – Em relação a isso, ainda há poucos dias estava a falar que é uma sensação estranha porque lembro-me de quando era miúdo ir para casa de um amigo e víamos cenas da MTV, clips americanos que gravávamos em cassete e ficávamos uma noite inteira a vê-la. E hoje estou a ver a MTV e apareço, e logo a seguir aparece o Snoop Dog. Sinto-me um bocado misturado com aqueles artistas, faz-me sonhar um bocadinho e sonhar é bué bom nestes aspectos… O sonhar e guardares para ti. Ou o ouvires na rádio a tua música e estão a falar bem de ti e depois pensas: “eu ouvia esta rádio e estas pessoas que eu curtia e agora estou aqui”. É esquisito mas é uma sensação bué boa.

  H2T - Falando ainda desse tema, como surgiu o conceito criativo do vídeo clip e as participações de figuras públicas tão diferentes como o futebolista Jorge Andrade, o apresentador Rui Unas ou a actriz Maria João Abreu?
   Royalistick – O conceito do vídeo é meu, aliás tenho esse princípio de não deixar ninguém gerir a minha música e a visão que tenho dela. Deixo as pessoas interferirem no sentido de ser mais aberto e ouvir opiniões mas não é nenhuma república, ninguém vai dizer como é que vai ser o meu vídeo. Fui eu que desenvolvi o conceito porque a música saiu do estúdio já há bué tempo, espalhou-se e tornou-se bué conhecida e o pessoal associou a música a uma cena de amor homem-mulher. Mas não era esse o propósito, era uma música de motivação, foi para isso que a escrevi e é isso que quero passar. Então pensei em como é que ia juntar estrelas e motivação e, conforme retrato no vídeo, acho que nada é mais motivante para uma miúda que tem o sonho de ser locutora de rádio, ver a Ana Lamy – uma das maiores locutoras de Portugal – a dizer que quando era pequenina queria ser jogadora de futebol. E porque é que se ela que queria ser jogadora de futebol, se tornou numa grande locutora de rádio, porque é que eu que quero ser locutora de rádio, não o posso ser? Não há limites. Acredita naquilo que queres fazer, mesmo que te digam que és maluco, acredita e vale a pena tentar ser sempre melhor porque mesmo que o mundo te caia em cima, vai haver sempre alguém que pode nem dizer nada, mas tem ali um brilhozinho que te diz que consegues fazer as coisas.
  Em relação às participações, muitos são meus amigos, outros são amigos de amigos mas não quis estar a aproveitar o facto de conhecer esse pessoal, até porque são figuras públicas e elas próprias protegem-se um bocado. Então quis dar todo o dinheiro que reverte do vídeo e entregá-lo à instituição Abraço, ou seja, não vou ter proveitos próprios do vídeo clip.

H2T - “Bem-vindo à Footmovin’ onde o talento bate o ódio que nos têm”. Sentes esse ódio na pele? E por parte de quem?
   Royalistick – Eu escrevi isto numa antevisão. As pessoas à minha volta às vezes dizem que sou maluco, que sou paranóico, porque às vezes sou um bocado, mas eu sinto muitas coisas a acontecerem porque sabia quais eram os comportamentos. Havia pessoas que me falavam muito bem que me deixaram de falar bem e pessoas que diziam que eu era o maior e deixei de ser o maior. “Tu vais ser dos maiores gajos do Hip Hop Português”… e quando passo para a Footmovin’, o pessoal deixou de me dar esse props. Não diziam que era uma boa contratação, que tinha feito bem para me promover… não, passa a ser pataqueiro, quer é guita… Já sabia que isso ia acontecer e sinto muito esse ódio. Mas o que eu digo sempre – e é uma coisa que me guia – é que quando fazes coisas boas, o teu sucesso só te traz inimigos, não vai trazer nunca mais nada, o que vai trazer é inimigos, não amigos. Mas isto não me afecta no sentido de andar aí triste, afecta-me porque acho que era preferível não existir este sentimento, porque é uma coisa estúpida e eu sou uma pessoa preconceituosa no que toca à estupidez, uma pessoa que seja estúpida mete-me muita raiva. E é estúpido uma pessoa dizer que não sou tão bom porque estou na Footmovin’ em vez da Chocolate Bars.

Por Rute Silva e Ivo Alves para H2T - www.h2tuga.net

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