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H2T - Qual o simbolismo que vocês pretendem transmitir com o título “V Império”?
Mundo - O “V Império” está relacionado com o facto de sermos 5 elementos, por terem também passado 5 anos desde o nosso último lançamento e em grande parte com a simbologia de Fernando Pessoa, na sua obra “A Mensagem”. Além disso, achámos que tinha tudo a ver com o tipo de música que estamos a fazer, com o estilo de “liricismo” que procuramos, e daí o “V Império”, o tão aguardado quinto império ancestral dos nossos antepassados. De certa forma decidimos pegar em todos esses elementos simbólicos, associando isso ao conceito do “Pentágono Dealemático”, ou seja, aos Dealema.
H2T - O single de avanço é o tema Sala 101 que conta inclusivamente com um videoclip a circular. Em que consiste a visão do vídeo e como surgiu a ideia para o mesmo?
Mundo - Originalmente não tínhamos qualquer ideia para o videclip, apenas tínhamos a música escolhida e sabíamos que queríamos fazer algo diferente. Havia uma grande vontade em trabalhar com um amigo nosso, o Miguel Januário, que já tinha feito o videoclip do tema “Bairro”, do álbum do Ex-peão. Surgiu assim oportunidade de fazer algo em conjunto, ele levou a música para casa, e passado 3 dias surgiu com uma ideia para o vídeo, e com o guião já totalmente escrito. A ideia agradou-nos e o conceito estava muito próximo daquilo que nós queríamos. No fundo a Sala 101, é uma sala que faz parte de um filme, o “1984” – baseado no livro de George Orwell – e todo o clima do videoclip está associado a essa sala.
DJ Guze – A música em si é a falar sobre o problema da violência. E o Miguel Januário baseou-se no conceito da “Não-violência”, onde no filme a encontras na Sala 101, que é quase como o Paraíso onde tudo está bem e eles não estão a ser vigiados.
Mundo – Exactamente, e depois no final do vídeo observas uma espécie de libertação, numa parte em que passa do interior para o exterior, e esse momento é inspirado na Sala 101, onde quando lá te encontras te libertas de todos os teus medos. Nesse filme, o mundo exterior é controlado e manipulado pela imprensa e pelo governo, mas há sempre alguém nessa “cadeia de eventos”, um pequeno elo que salta fora do sistema, e o vídeo é a representar precisamente isso, aquele “Elo” que salta fora.
H2T – Mas sendo o livro “1984” uma sátira ao Totalitarismo, e tendo em conta que o Imperialismo e os regimes totalitários partilham algumas características, não têm receio que o nome Império no título do álbum tenha uma conotação paradoxal?
Mundo - Não porque aqui o “V Império” é no sentido do Império da sabedoria extrema e nós tentamos através do “liricismo” transmitir isso mesmo, não uma ideia de Império no sentido físico. É um império mental, onde as pessoas se podem elevar e atingir um outro nível de pensamento, se quiseres é uma espécie de Contra-Império.
H2T – Considerando o vosso olhar crítico sobre o “sistema”, nomeadamente à forma como querem industrializar a arte – musical neste caso - gostava que comentassem a seguinte frase: "O facto dos cd´s estarem a um preço tão caro faz parte de manobras por parte do poder instituído para manter as pessoas ignorantes porque assim é mais fácil comer-lhes a cabeça".
Mundo - Acho que isso é relativo, tu podes ir a uma loja e ver que tens bons artistas a 9 euros como tens o mesmo artista já noutro CD a 16 euros.
DJ Guze – Isso faz um bocado parte é de outras contas, mais em relação à questão do IVA…
H2T - … mas acham que o preço dos CD’s é bastante elevado?
Mundo - Sim, isso é verdade. Mas ponto um: O pessoal tem de perceber uma coisa, a arte não tem preço! Podia custar 10 euros como podia custar 10 mil euros. Como por exemplo com os quadros, por acaso um CD não é um quadro mas se fosse provavelmente não iria só custar 10 euros. E se fosse só um iria valer mais e se não pudesses fazer réplicas ainda iria valer muito mais.
E neste caso da música, em relação a se estão a limitar as pessoas em os preços estarem tão caros, eu também acho que hoje em dia as pessoas gastam dinheiro muito mal gasto. Se calhar ao invés de comprarem cinco telemóveis se comprassem um livro ou um filme e assim se instruírem. E apesar da cultura ter o seu preço, também consegues encontrar cultura gratuita, podes perfeitamente ir à biblioteca e instruíres-te. Na música existe o seu preço, às vezes é alto, outras vezes mais baixo…
H2T - … na sequência do que disseste em relação à cultura gratuita, qual é a vossa visão sobre a pirataria?
Mundo - Quando me perguntam isso da pirataria, também acho um pouco relativo. Há pessoas que têm poder de compra e outros que não têm. Isso é uma pirataria que não pode ser julgada da mesma forma, porque existem pessoas que vivem em grandes vivendas e com grandes carros e andam sempre a fazer downloads do Bit Torrent ou do Emule, e outras que nem para o seu dia-a-dia têm, quanto mais para comprar CD’s regularmente. Nessa perspectiva apoio a pirataria de pessoas que não têm como comprar. Agora quem tem como comprar e faz pirataria acho que é uma mentalidade um pouco errada.
DJ Guze – Por exemplo, tu pesquisas na net uma banda. Gostas da sua música e até a podes “sacar”, mas se tu gostas realmente desse grupo, eu pessoalmente não iria ficar satisfeito, porque a qualidade não é a mesma, é fraquíssima. E se é um grupo que tu gostas mesmo, vais preferir ter o original, vais chegar à tua estante e dizer que tens este, aquele e o outro CD, tudo em original. Basicamente, vais gostar de apoiar esse artista para que continue a fazer a música que sentes.
H2T - O que vos levou a não voltarem a editar por uma label como a Norte Sul e lançarem o álbum numa edição conjunta com a Banzé?
Mundo - A Banzé é do José Costa que é nosso Manager e nosso amigo de longa data, trabalha connosco desde o inicio, por isso fazia todo o sentido. O que nos levou a não voltar a lançar pela Norte Sul, são sobretudo motivos pessoais que só nós saberemos, porque o segredo é a alma do negócio. Conseguimos a nossa autonomia, estamos independentes, e daqui para a frente vai ser assim.
H2T - … nunca pensaram em criar a vossa própria editora? Para lançar outros artistas?
Mundo - Já temos! O José Costa com a Banzé surge como parceria, mas o disco foi todo feito por nós, a Banzé ocupou-se apenas da cópia dos discos.
Em relação a lançar novos artistas nem pensar, eu não me vou comprometer com uma pessoa e dizer: “olha eu vou-te lançar e não sei quê…” . Eu estou mal orientado da minha vida, como é que eu vou orientar a de outros?
Existem as Majors e as independentes, e tu pensas entre uma e outra, entre uma mais alta e a mais baixa. E se um artista quer promoção, e se vai para uma editora que não te dá promoção, meios e visibilidade para quê estar numa editora? Mais vale pegares no teu dinheiro e ires à fábrica mandar fazer os discos, depois chegas à FNAC apresentas-te, negoceias e colocam-nos à venda. Isto funciona de forma igual para todos, é preciso é o pessoal ter vontade de fazer.
H2T - Estão atentos ao movimento HipHop no Grande Porto? Encontram explicação para que, depois de Mind Da Gap e Dealema, não ter surgido mais nenhuma grande referência nessa zona?
Mundo - Sim claro, 100%... pronto ok, 99% (risos) Em relação a Mind da Gap e Dealema serem as únicas maiores referências, eu acho que se pode considerar dessa forma mais a nível de CD’s editados. Mas existem outras pessoas como os LCR – o Berna e o Nokas – que são pessoas que já estão nisto há muito tempo. Existem outros grupos novos, como os ACTS – pessoal de Custóias – Barrako 27 já com outra idade mas que tem toda a vontade de fazer RAP. Tens IRS, UNAcrew…
DJ Guze – Tens as Syzygy também..
Mundo – Olha e os Governo Sombra… tão sempre a aparecer coisas, eu acho é que desde o início o HipHop sempre foi muito Underground em Portugal e continua a ser, a única coisa que vês na televisão é pessoal que conseguiu investir mais algum dinheiro para poder dar esse salto, porque de resto continuamos todos a trabalhar num meio muito underground e isso vai continuar.
Ainda há pouco estávamos a dar uma entrevista a uma jornalista e ela referiu a questão do mediatismo no HipHop. E eu disse que antes do HipHop estar na televisão ou na rádio, eu conhecia todas as bandas do Porto ao Algarve e os jornalistas não conheciam. E quando ela disse: “Ah mas agora há um Boom…” eu respondi-lhe: “Não o que há é um Boom na vossa câmera de filmar, porque o HipHop já cá está à muito tempo vocês é que foram atrás. Os media colocam a situação ao contrário, parece que eles já cá estavam no meio, e que o pessoal só chegou depois. Não, nós já cá estávamos, os media é que só chegaram e nos “descobriram” depois.
H2T - … achas que há alguma falta de respeito dos media nesse sentido?
Mundo - O que eu acho é que há um centralismo em demasia na música. E muitos músicos - e não falo só no Porto - que residem em zonas menos centrais sofrem muito com a falta de apoio dos meios de comunicação social. E assim, apesar de terem material tão bom ou melhor que outros, não têm a mesma visibilidade e saem prejudicados, não tendo tanta facilidade em mostrar o seu trabalho.
H2T - Já que estamos a falar de mediatismo, apesar de os Mind Da Gap serem um grupo com maior projecção mediática, sentem que os Dealema são grandes representantes do RAP do norte?
Mundo - Bem os Mind da Gap são os pioneiros do Porto e ponto final. Depois começa outra frase. Os Dealema fazem um RAP mais espiritual, e na minha opinião o que se faz no Porto é um RAP mais de bairro, que se calhar nem tem nada a ver com Mind da Gap nem com Dealema, ou mesmo com Matozoo. Hoje em dia a onda de RAP que está no Porto não é nada daquilo que nós fazemos, não tem mesmo nada a ver, porque é essa mesmo a mentalidade que tentamos incutir no pessoal. Se tu vais aparecer, surge então com algo fresco e novo, não venhas com rimas usadas ou expressões conhecidas. Isso no Porto não passa, és logo morto à partida, metem-te logo uma pedra em cima e morreu!
H2T – … apesar de vários desses novos rappers vos verem como referências…
Mundo – Exacto, mas eu também vejo Gangstarr como referência e não faço as músicas iguais às deles…
H2T – … referia isto porque na Grande Lisboa ou mesmo em outras zonas do país a sul, se perguntares por um grupo do Norte respondem-te logo com Dealema…
Mundo - E nós agradecemos isso, ficamos honrados!
H2T - Já contam com uma carreira assinalável, desde do primeiro EP Expresso do Submundo já vão 12 anos. Como analisam a vossa carreira? O que mudou no HipHop em geral e em vocês em particular, de lá até agora?
Mundo - Posso falar do nosso exemplo em particular mas no geral penso que em Portugal todos os músicos sofrem disto. A tua carreira avança mais depressa que o mercado, todas as tuas ideias são mais expansivas que tudo o que a indústria possa fazer, e para a indústria chegar a nossa mentalidade teria de fazer um estudo muito aprofundado sobre o assunto.
Hoje em dia o pessoal mais velho do HipHop já pensa noutras coisas. O mediatismo da televisão é algo que pode atingir fortemente um adolescente, ao contrário de uma pessoa de vinte e tal anos que já pensa minimamente para saber distinguir o que tem conteúdo daquilo que é oco, o que é real daquilo que é falso. Este tipo de pessoa já rejeita certo tipo de RAP que é feito e penso que isso no HipHop português está a acontecer cada vez mais, algo que dantes não acontecia. O cenário que vias antigamente era malta muito jovem, de EASTPAK às costas, calças gigantes e nos tempos que correm já não é tanto assim porque esses miúdos cresceram, essa geração evoluiu e já começa a haver uma família HipHop com pessoas na casa dos 20/30 anos.
H2T – Sendo vocês quatro emcee's e um DJ, muitas ideias e personalidades para conciliar, como é gerir tudo isso? Como é o vosso processo de criação musical?
Mundo - Não se torna complicado mas antes agradável gerir tudo. Nós somos todos muito marrões, cada um com a sua cena, mas tentamos sempre arranjar um consenso entre as ideias de cada um. Eu posso ter uma ideia muito relaxada e outro achar que isso é muito “terra-a-terra” e dizer que precisamos algo para lá da Troposfera.
DJ Guze – Não há grandes regras para o processo de criação das músicas, por exemplo um dia um dos elementos faz uma batida e eu pego no som coloco uns scratches e fica bem. Depois juntamo-nos todos para falar sobre esse som, ou trocar ideias para outro porque entretanto alguém trouxe um novo instrumental.
Mundo – É um pouco assim, tudo muito espontâneo. Ao inicio era eu que tratava das produções, mas agora também me quero descartar um pouco desse trabalho, mais no sentido de conseguir passar os meus versos em cima de outras batidas. Isto porque como deves imaginar quando és tu que fazes as tuas próprias músicas, por muito boas que sejam como são feitas por ti é sempre tendencioso avaliá-las.
Neste álbum existem produções não só minhas como também do Ex-peão e do Fuse, talvez no próximo iremos ter igualmente do Maze e do DJ Guze, e quando isso acontecer vamos estar em máximo poder, ou seja, cinco produtores, quatro emcee’s e um DJ. Aí vamos estar mesmo em força, tenho a certeza!
H2T – … aproveitando essa deixa, e talvez explicando isso mesmo, do álbum “Dealema” para este “V Império” nota-se uma mudança na sonoridade ao nível da produção, samples menos orquestrais e clássicos, e mais com uma componente electrónica…
Mundo – O que houve foi uma evolução na sonoridade, e lá está o Ex-peão não tinha produzido no último álbum, os samples electrónicos a que te referes vêm exactamente das suas produções. E é isto que estamos a tentar trazer, uma mistura de aromas sonoros, mesmo no contexto da escrita porque tu próprio queres ter beats diferentes para aplicares métricas diferentes, fazer experiências. Porque se o instrumental for sempre naquele registo habitual, a rima acaba praticamente por sair no mesmo estilo.
Maze – Como agora todos fazemos beats, as próximas músicas vão acabar por puxar para coisas novas, quer nas letras quer depois no scratch. Vão surgir flow’s diferentes, BPM’s diferentes, sonoridades diferentes, o que acaba por se verificar na escrita.
H2T - Se fizerem uma análise individual, qual acham ser o contributo que cada um de vós traz a Dealema?
Mundo - É um pouco complicado, acho que o público é que tem mais essa função de decifrar as diferenças, tipo um jogo, “Descubra as diferenças” (risos). Mas digamos que o Fuse é aquele estilo metafórico e obscuro, o Maze é aquele gajo mais de sentimentos e máximas de vida e cenas assim, o Ex-peão é a cena “Espadas Celestiais e Guerreiros Espirituais”, eu gosto de fazer uma cena muito crua e directa.
Maze – Sim isto mais a nível de letras, depois a nível de sonoridade o Ex-peão tem influências do Hardcore, o Fuse é o Metal…
Mundo – …nós sabemos que se tivermos um beat assim mais na destruição a voz do Fuse é a ideal. Se for algo mais diferente, pode ficar melhor um refrão do Ex-peão ou do Maze. Mas mais importante que isso tudo, são as experiências das nossas vidas que nos caracterizam e trazemos para as músicas. É a criar que nos sentimos felizes, e como cada individuo não é igual e somos todos diferentes, é nessa diferença que encontramos a felicidade.
H2T – Já se encontram em tour na promoção do álbum, mas fazendo fast forward e focando atenções em possíveis lançamentos a solo ou outros projectos, há algo em perspectiva?
Mundo - Da minha parte lançamentos a solo não há nada em vista, quero centrar atenções em Dealema. Mas em relação a outros projectos temos aí uma Mixtape em preparação, “Mixtape 2º Piso 15 anos”, vai ser lançada este ano e vamos convidar aproximadamente 37 emcee’s da zona norte, pessoal que não tem muita visibilidade e que decidimos convidar porque são nossos amigos, têm qualidade, e o pessoal deve ouvir nem que seja para ficarem a conhecer.
Maze - Eu estou a preparar o meu álbum, mas agora vou dedicar-me a Dealema porque vamos ter muito trabalho em perspectiva, concertos e promoção, mas lá para o fim do ano tenho aí o meu disco a sair. Além disso, tenho outro projecto chamado Subverso também para breve. Por enquanto não posso adiantar mesmo mais nada, está tudo sobre sigilo profissional (risos). Já agora em relação ao Fuse ele também está a preparar algo ainda para este ano, mas também está tudo em segredo.
Mundo – É, o ano passado lancei eu e o Ex-peão, espera-se que seja a vez do Maze e do Fuse.
H2T – E pronto é tudo, para finalizar não querem deixar uma mensagem ao Paulo Portas?
Mundo – Ohhh, “Paulo Portas, Submarinos” (risos) Paulo Portas gasta menos dinheiro em fotocópias.
DJ Guze – Ele que vire o risco do lado esquerdo para o lado direito!
Mundo – Mas a sério, queremos deixar aí um abraço ao pessoal do H2Tuga, por manterem o HipHop actualizado! Estilo Dealemático a fechar o Tasco!
Por Ivo Alves para H2T - www.h2tuga.net
Fotos cortesia dos Dealema |