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Em pausa para refrescar, o H2T falou com a organização da OJT (DJ Pass One, Geb dos Factos Reais, e DJ X-Acto), para descobrir melhor os moldes que definem esta iniciativa.
H2T - Como surgiu a ideia de realizar a Open Jam Turntablism?
OJT - Surgiu nos estudios Konpasso, em conversa com o Pass e o Núcleo, comentávamos que viamos imensas jams lá fora e cá não havia esse hábito de reunir com outros djs, apesar de sabermos que o pessoal andava a treinar. Resolvemos então disponibilizar o estúdio Konpasso e organizar uma Open Jam Turntablism, à porta aberta como o nome indica, para qualquer pessoa que queira vir. Não tem nada de especial, o pessoal vem e curte.
H2T - Que objectivos estão adjacentes?
OJT - Criar um espaço, divulgar mais o turntablism e também acaba por ter um papel importante na evolução, porque há uma partilha de técnicas. Cria-se uma certa picardia, quando se sabe que vai haver uma próxima jam daqui a dois meses é como definir um objectivo, há uma meta para treinar, chegar e estar melhor.
H2T - Contem-nos como foi a primeira Open Jam Turntablism
OJT - Foi bom, teve boa adesão por parte dos DJs e estivémos imenso tempo, começou também às dez da manhã e acabou às dez da noite.
Na primeira esteve mais pessoal que não era sequer DJ, havia muitos curiosos, muitos MCs que aproveitaram para dar freestyle, falaram, e ficaram a conhecer-se. Houve pessoal que trouxe video-clips que tinham feito, cenas caseiras para os outros verem. Convidámos também o Smile para pintar o estúdio e para expor algumas telas dele, agora o Pass cedeu o espaço para ele expor permanentemente, assim quando quer vem e troca as telas. Esta segunda OJT não tem graffiti ao vivo, mas há intenção de repetir em próximos encontros.
H2T - Notam diferenças evolutivas da primeira para a segunda edição?
OJT - Sim, está mais competitivo e harmonioso. Nota-se que estão a desenvolver mais técnicas, está um pouco mais exigente. Existe uma cena quando os djs stão a fazer a jam que se chama as bars (o tempo) e na primeira notava-se que os DJs não estavam muito à vontade, excediam no que deviam ter dado, e agora não, vê-se que o pessoal interiorizou a cena, cada um dá o seu tempo, um acaba já está próximo a entrar e sucessivamente, está muito mais harmonioso.
H2T - Como fizeram para reunir os DJs?
OJT - De início procurámos através do myspace e pedimos contactos a diversas pessoas. Depois da primeira jam, com fotos e vídeos resolvemos criar um myspace próprio - www.myspace.com/openjamturntablism - foi o X-Acto que fez, colocou lá toda a informação que reunimos e destacou inclusive um relógio de contagem decrescente para a próxima OJT, isso deu maior impacto. O pessoal viu, comentou, divulgou e esta segunda jam beneficiou de todo esse apoio extra.
H2T - Podem-nos listar alguns nomes que já passaram pela OJT?
OJT - X-Acto, Pass One, Núcleo, Ride, Sero, Extreme, MGL, LS, Nuance, Nery (estes dois são mais do drum’n’bass), Sizza, Isak, Mee_K, Stick Up, Knowledge, Motherfunky, High Torque, Unite Sensei D, Alpha, Sniper, Dizzy, Freelancer, Lil’pip, V3, Klash.
H2T - Esta iniciativa procura ter regularidade?
OJT - Sim, pretende ser regular, de dois em dois meses ou três em três. Com o objectivo de não se tornar algo monótono porque se fosse mais frequente os DJs começavam a faltar. Assim é aquela data mais especial, que cria mais expectativa. Apesar de não ser algo essencial para os DJs, porque até hoje não houve open jam e eles estiveram aí.
H2T - Falem-nos do equipamento aqui disponivel
OJT - A base do equipamento (quem trata e arranja) é o Pass One. Temos seis pratos mais duas mesas, o X-Acto também adiciona sempre o material dele e depois os DJs trazem as mesas e as agulhas. E os discos claro, fundamental.
H2T - O que planeiam para próximas OJT?
OJT - A primeira foi mais porta aberta, convidámos toda a gente. Esta segunda foi já especificamente direccionada para DJ. E a partir de agora será com convite, o que não quer dizer que não se possam trazer amigos mas precisamos de ter uma noção do número de pessoas até porque isto é um estúdio e tem material e torna-se relativamente pequeno se for muita gente.

Aproveitámos novo intervalo para falar também com alguns dos intervenientes directos, procurando medir o impacto e importância deste tipo de encontros levados à pratica. DJ Dizzy, DJ Ride e DJ Núcleo foram os visados, numa conversa em que o H2T conta também com a colaboração do “reporter” X-Acto.
H2T - Dizzy, o que te fez vir do Porto para participar na Openjam?
DJ Dizzy – Eu ja tinha sido convidado para a primeira e não pude vir porque tive uma actuação. Então agora eu queria mesmo de vir porque lá em cima não há assim tantos djs quanto isso e os que há são um bocado longe de mim. E preferi vir cá em baixo, o Pass convidou e eu vim.
H2T - O que achas desta iniciativa?
DJ Dizzy – Eu acho que é bom devia era ser num espaço mais fresquinho e talvez com mais pratos para haver mais pessoal e não ser a rodar tanto. Porque há pessoal de mão esquerda, outros de mão direita.. era haver melhores condições, mas a iniciativa é excelente.
H2T - O que levas daqui hoje?
DJ Dizzy – Tanta coisa.. não dá para falar. É muito bom porque uma pessoa está habituada a ver as coisas no ecrã do computador e aqui tem contacto corpo a corpo é melhor estar a olhar para o lado e ver técnicas que curte mas que não sabe como são feitas.
H2T - Aprendeste?
DJ Dizzy – Mais ou menos, já fiquei com umas ideias.
H2T - Ensinaste?
DJ Dizzy – Acho que não (risos).
H2T - Um encontro no Porto por exemplo achas que rendia?
DJ Dizzy – Talvez, mas acho que ia acontecer o mesmo qu conteceu aqui que foi os djs daqui irem para lá. Se fosse no Porto ia o pessoal mais rápido daqui do que de lá . Se fosse ao contrário ia mais gente cá de baixo do que lá de cima.
H2T - O pessoal la de cima é menos participativo?
DJ Dizzy – Depende do pessoal é muito à base do “quando fazes, criticam e quando não fazes é porque não fazes”. Ficam basicamente nesta ideia e ninguem ajuda ninguem.
H2T - Próxima Open Jam estarás cá novamente?
DJ Dizzy – Em principio sim se não tiver nada que não me permita, virei.
H2T - Ride, que tens a comentar sobre este encontro de hoje?
DJ Ride – Adorei foi a primeira vez que vim. Acho que é algo que devia acontecer muito mais vezes. Eu sou das Caldas e lá só há dois djs (risos) e nem sequer há muitas condições, por isso é optimo estar assim com mais pessoal, e hoje eramos mais de 10 foi muito bom.
H2T - O que achas do facto de ser apenas de dois em dois meses?
DJ Ride – É fixe ter uma periodicidade assim alargada, tipo de dois ou mesmo de três em três meses, assim quando acontece é com mais entusiasmo. Se fosse todas as semanas se calhar ia haver semanas e que não vinha cá ninguem, é um bocado a mentalidade portuguesa mas acho que até se calhar em vez de dois em dois podia ser de três em três, mas mais não.
H2T - O que levas daqui?
DJ Ride – Levo uma MPC (risos). Estou a brincar, eu vim cá primeiro para estar com o pessoal amigo e tivemos bons momentos e rimos, foi o mais importante. Houve também um bocado aquela picardia saudável, brincadeira mesmo, estarmos todos no gozo, faz parte. Mas também aproveitei porque vou tocar daqui a bocado e conciliei a viagem para vir buscar um sampler que comprei.
H2T - Aprendeste alguma coisa, conhecias todos os DJs presentes?
DJ Ride – Sim aprendi e conhecia mais ou menos todos no geral nem que seja de um evento ou outro, pelo menos de vista.
H2T - E o que achaste do nível?
DJ Ride - Acho muito bom. Se tivessemos isto há dois anos atrás havia uma discrepancia muito grande em comparação a hoje porque há um espírito de entreajuda cada vez maior em Portugal, sobretudo no scratch as pessoas evoluem mais uns com os outros. Antes as pessoas estavam cada um para seu canto e hoje o pessoal encontra-se mais vezes e vão uns a casa dos outros e nas jams e está a crescer a nível do núcleo duro do scratch que dantes era muito mais pequeno. E acho que tanto a Jam como os ITFs como outros eventos singulares que aparecem de vez em quando, são muito importantes ao fim ao cabo para isto ir evoluindo.
H2T - Já agora aproveitamos para perguntar sobre o teu álbum “Turntable Food”
DJ Ride – Sai pela Loop Recordings e é um projecto um bocado diferente, à margem do núcleo duro do hip-hop porque é um projecto de fusão entre jazz, funk, electrónica, scratch também e é maioritatirmente instrumental, tenho três participações vocais. Depois tenho cerca de quinze convidados mas são amigos meus, mesmo músicos, que tocam trompete, saxofone, teclas, bateria, baixo. Foi um bocado fundir estilos, linguagem jazz ou coisas mais electrónicas com batidas de hip-hop, funk, breakbeat. Chama-se “Turntable Food” e ao fim ao cabo é mesmo comida para gira discos. Tenho os estilos todos como se fossem ingredientes e eu levei tudo ao forno para ser cozinhado.
H2T - Quais os convidados vocais?
DJ Ride - É o Sagas dos Micro, e um amigo meu holandês que é o Concept e tem um som mais soul que é com a Margarida Pinto dos Coldfinger que será o single “Come take the Ride”.
H2T - Núcleo, és MC (a.k.a Gino), também fizeste break, passaste pelo graff, és produtor, DJ, multifacetado.. em que te consideras mais activo hoje em dia?
DJ Núcleo – Comecei mesmo como MC, depois passei também pelo break e ainda pelo graffiti, mas estas duas áreas vi mesmo que não dava, estão breakdance chega mesmo uma altura que o corpo diz “chega, não dá”, porque exige uma força de vontade e energia incrível. Entre DJ, Produtor ou MC não te consigo dizer, nem fazer uma hierarquia sobre o que me aplico mais, está tudo ligado. Divide-se o tempo, eu faço um beat e logo a seguir por cima do beat estou a fazer um scratch e vou no comboio, levo o beat no iPod, vou a imaginar as rimas e refrão. MC, DJ Produtor, têm de ser as três.
H2T - Tu que estiveste presente também na primeira OJT, qual a tua opinião sobre a iniciativa?
DJ Núcleo – Sem dúvida, uma boa iniciativa no sentido que traz a possibilidade de estarmos com outros DJs, e isto faz evoluir. Estando com os outros e observando as técnicas, ficamos mesmo naquela de treinar para uma próxima jam voltar com mais nível. Isto ajuda imenso, os DJs lá fora têm este ritual frequente de se encontrarem e fazer estas jams. Não é só individualismo, mas também uma questão de organização e, neste caso, temos o Pass e o Geb e o X-Acto que proporcionaram a Open Jam e só temos de aproveitar porque é mesmo excelente para evoluirmos.
Isto ajuda todos, ajuda os novos, os velhos, os curiosos, os que querem começar ou conhecer ou estabalecer contactos. A mim pessoalmente ajuda-me imenso, motiva-me a ir para casa e ficar a pensar, tentar fazer e é assim mesmo, é uma das etapas da evolução. Para a próxima estou cá novamente.
H2T - Conheceste novos DJs?
DJ Núcleo – Sim isto proporciona convívio com outros DJs que por exemplo só tinha visto em flyer, como para mim é o caso do Dizzy. Conhecer, trocar experiencias e ver a personalidade.
O Rucky é outro exemplo, é também da margem sul tal como eu e nem nos conheciamos, ficámos agora combinados para fazer uma jam.
H2T - Aprendes mais do que ensinas?
DJ Núcleo - Para aprender eu sou competitivo, num nível saudável, gosto de observar e tentar fazer aquilo que o outro está a fazer. Agora se eu ensino.. eu não me importo de ensinar se tiver possibilidade, mas aqui é dificil porque estamos todos num ritmo e são 10 DJs em rotina um pouco complicada de parar para estar a ensinar. Eu não me importava nada de ensinar as técnicas, mas tinha de ser lá em baixo noutro sitio para não estar a quebrar este ritmo colectivo e ficarem todos parados a olhar enquanto se ensina apenas a um. Mas também se pode vir à jam estabelecer contactos para depois combinar outras datas e em sitios mais calmos explorar técnicas específicas.
H2T - Qual é a técnica que consideram assim mais difici de fazer?
DJ Ride – Acho que é o flare, combinações de flare. Por palavras é dificil explicar mas (o flare básico) é um movimento repetitivo da mão no vinil, em que se começa com o fader aberto, ou seja com o som a passar, e depois corta-se duas vezes para a frente e duas vezes para trás. Cortamos duas vezes mas isto vai dar três sons diferentes porque começamos com um aberto e dá um som, depois cortamos uma vez dá outro, depois cortamos outra vez dá outro, ainda temos a variação para trás e depois mais duas vezes. Com quatro clicks fazemos oito sons. E repetitivamente podemos também transpor isto para outras coisas como alterar a sonoridade ou fazer combinações de flare com outras técnicas.
DJ Núcleo – Para mim a coisa mais dificil de fazer é o Flow.
DJ Ride – Mas isso já não é técnica, claro o flow é o mais importante.
H2T - Estranho ouvir falar de flow no DJ
DJ Núcleo - O flow existe para tudo, a dançar tens flow, a cantar, e também no DJ. Para mim é mesmo a grande dor de cabeça: construir o flow.
DJ Ride – O Flow é a tua identidade. O ideal é ter um flow que faça as pessoas olhar espantadas.
Como um MC por exemplo, se tiver boa dicção contribui para um bom flow, assim como pode ter grande mensagem sem atitude não tem flow. No turntablism, para quem não está muito dentro do scratch, se vir um dj fazer técnicas muito boas pode até ficar um bocado interessado, mas se esse DJ apresentar técnicas inferiores com flow muito bom vai marcar muito mais. A nível do scratch o flow é mesmo muito importante. Conseguir por exemplo três minutos sempre a fazer coisas diferentes com flow elevado, é um grande desafio.
DJ Núcleo – Não ter bom flow é como não ter nada para dizer. Se o flow for bom, o pessoal consegue ouvir o teu scratch durante duas horas, sem cansar, porque está sempre a variar, é como se fossem palavras, adquire-se um vocabulário.
DJ Ride – Há um DVD que é o “Bastard Language Tour” e é um bocado isso, identifica-se como uma linguagem bastarda.
H2T – Voltando à OJT, e para finalizar, querem deixar ideias e sugestões para os próximos encontros?
DJ Ride – Sugestão é aparecer mais pessoal e trazer ventoinhas (risos).
DJ Núcleo – Exigimos ar condicionado e se não houver pode ser aquelas raparigas da Arábia (risos), duas para cada um para ficarem a abanar como se fossemos sultões. E também uma máquina de imperial já agora (risos).
DJ Ride – Era fixe uma jam de MP3 em simultaneo com o scratch.
DJ Núcleo – Olha, muito boa ideia, nisso também alinho. Depois da máquina de imperiais claro (risos)
H2T - E organizar algo maior? Se estes encontros mais familiares forem crescendo, a Open Jam Turntablism nao se poderia tornar numa espécie de ScribbleJam da tuga?
DJ X-Acto – Eu não tomo decisões desse nível, isso teria de ser visto com o Pass e o Geb, mas nunca se sabe. Uma cena maior também com certeza que não seria aqui, teria de ser num club ou um armazém e envolver mais pratos e equipamento. E convidar alguém de fora também. Isso é fixe, mas o mais importante por agora é curtir e aproveitar esta oportunidade que temos.
DJ Ride – Era excelente. E em vez de sermos quinze teriamos de ser trinta ou mais.
DJ Núcleo – Era diferente, porque nós somos DJs e conseguimos estar a ouvir scratch por várias horas seguidas mas se fosse um sitio aberto ao público, não sei, o pessoal não ia conseguir estar tanto tempo a levar com scratch. Porque não percebe, não há hábito de ouvir scratch, só ouvem de vez em quando porque o DJ vai acompanhar o MC, e aparece sempre lá atrás em segundo plano. É preciso educar a todos o que é o DJ e qual a sua importância. Ter noção do tempo que leva para desenvolver as técnicas porque muitas vezes convidam os DJs para tocar e mostrar em poucos minutos, técnicas que levaram dois ou mais anos a desenvolver. E maioria das pessoas nem valoriza.
Por Sofia Meireles e Rute Silva para H2T - www.h2tuga.net |