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H2T - Sendo tu um dos mentores da colectânea "AlémDoTejo" (editada no início de 2005) e tendo em conta o significado implícito no seu título, ainda existem barreiras extra que as pessoas fora dos grandes centros têm que derrubar para conquistar o seu espaço e respeito no meio HipHop?
Suarez - As únicas barreiras extra que existem são as mesmas que encontras em grande parte dos ofícios no Alentejo, pois a dificuldade existe na "exportaçao do teu produto". Logo, é mais difícil apareceres no panorama. Mas acaba por ser ultrapassada à medida que lutas e que te empenhas para isso. Ficar de braços cruzados é uma barreira...
É claro que sentes falta de apoio, mas são cenas que tens que criar. Por exemplo, é difícil encontrares um bom estúdio, é difícil encontrar um bom engenheiro de som, é difícil encontrares alguém para te promover... Porquê? Porque não existe tanta quantidade. É claro que, indirectamente, prejudica a tua aparição, mas cabe-nos criar essas estruturas e ultrapassar os obstáculos. A vida é mesmo assim, mano, se não fores tu a fazer por ela, ninguém vai fazer da tua vida o teu sonho.
Eu sinto necessidade de estar com pessoal do meio e, se não consigo encontrá-los aqui, parto à procura.
H2T - Apesar de já teres participado activamente em vários projectos, parece que este teu álbum está a ser recebido com alguma surpresa. Porque achas que isso acontece?
Suarez - Sem querer tirar mérito aos outros projectos, acho que essa cena tem a ver com o conceito dos outros discos. Este foi o meu primeiro projecto mais sério, pois o conceito dos outros trabalhos passava pela projecção e incentivo do pessoal aqui da zona, não era uma cena tão afinada como o meu disco. O meu disco secalhar tem um conceito mais... global... Não sei bem... (risos) Mas fico contente por isso acontecer. E é normal, ao fim e ao cabo, ninguém me conhece, sou um “estranho".
H2T - Tens dado um número considerável de concertos com base no "Visão de Um Estranho", mas sempre abaixo da zona centro do país. Consegues encontrar uma explicação para esse "fenómeno"?
Suarez - Felizmente tenho tido alguns concertos e felizmente, também, o meu disco está a ser muito bem recebido no Algarve e, uma vez que eu até conheço muitos manos lá em baixo, pode ser esse o motivo. Se bem que estou mais próximo do Algarve do que do centro e isso deve influenciar. Sabes, deve ser muito difícil para uma organização convidar alguém que "não conhece", acaba por ser um pouco um tiro no escuro, pois existem alguns gastos e secalhar o pessoal aí de cima tem medo de arriscar (risos).
Normalmente um concerto leva sempre a outro. Tipo, toco em Faro, existe alguém que está lá e curte da cena, vem ter comigo e diz: "Olha, mano, sou de Albufeira, queres ir lá tocar?". E acabamos por andar nas imediaçoes.
Isto são tudo suposiçoes...
H2T - "Rap é o partido (...) assembleias são concertos": como têm corrido as “assembleias”? Se fores conseguindo "maioria absoluta", aos poucos, vais subindo para norte do país...
Suarez - (risos) Sim, sim. Pá, mano, sinceramente, o pessoal que me tem ido assistir está de parabéns, mesmo a sério! Têm-me recebido sempre de braços abertos, vêm ter comigo... Eu curto isso, porque eu gosto de sentir na cara do pessoal o impacto do disco. E não tenho mesmo palavras, eu gosto de lidar com as pessoas e, até agora, o pessoal tem sido muito generoso comigo.
E espero, sim, subir ao norte do país. Aliás, as FNAC’s já estão confirmadas, só falta revelar as datas.
H2T - Numa entrevista em Junho de 2004 (ver), a propósito de Projecto de Surra, quando questionado sobre as principais dificuldades em manter a Covil Produções no activo, respondeste: "As maiores dificuldades são o facto de estarmos sozinhos num ‘enorme oceano’ onde o ‘peixe graúdo’ come a comida de todo o ‘peixe pequeno’.".
Com mais 3 anos de experiência em cima, o que pensas ao recordar, agora, este teu próprio comentário?
Suarez - (risos) Vou-te dar um exemplo, pode não ter nada a ver, mas acho que vais entender: hoje tu organizas um concerto e, certamente, já tens uma estrutura mais ou menos criada, porque a cena do “amor à camisola” é bonita mas, quando os rappers que convidas te pedem cachet’s que não tens, tens de organizar uma cena com meios. Logo, se tens meios, significa que conseguiste patrocínios e formas de ter euros; Se te esfolaste a arranjar euros, tu tens de “fazer” mais euros na tua festa, porque aumentaram os gastos, aumentaram os recursos; Logo, se tens esses encargos todos, significa que tens uma organização que permite meter alguém de peso a tocar... Logo, supostamente, pensas assim: "Se posso ter o Boss AC (que me enche a casa), porque convido o Suarez?" (risos). É um exemplo um pouco fora do conceito das minhas palavras em 2004, mas acho que dá para entender.
H2T - O teu objectivo é viver da música ao leme da Covil Produções?
Suarez - A Covil é a minha toca, é impossível eu não ir lá, é impossível viver sem ir lá (risos)... Tenho lá os meus vinis, os meus CD’s, o meu MPC, as minhas letras... é uma espécie de santuário. Agora, se estás a perguntar a nível de editora...
H2T – Sim...
Suarez– ... Aí, digo-te que não. Porque não tenho qualquer interesse em industrializar a cena. É muita burocracia, é muita jogada no bastidor. E, para fazer essa vida, eu tinha de deixar a música, porque são cenas incompatíveis. Hoje penso assim, mano, amanhã não sei... Mas hei-de continuar a mandar os meu manos para a rua e a fazer projectos diferentes. Agora, ganhar a vida, não acredito.
H2T - O álbum foi lançado em Junho, mas chegou a ser anunciada como certa a sua edição para uns meses antes. A que se deveu esse adiamento de quase última hora?
Suarez - As cenas dos lançamentos... (risos) É sempre fodido, mano, nós pensamos que a cena vai estar pronta na data X e, depois, surgem imprevistos. Basicamente, foi mesmo um atraso na fábrica dos discos. E a oportunidade de masterizar o disco no Armando [Teixeira] acabou, também, por atrasar a cena. Atençao, digo “atrasar”, porque estipulei essa data sem contar com imprevistos, porque não prejudicou directamente o disco.
Infelizmente essas cenas vão-se tornando habituais cá em Portugal, mas acho que tem a ver com o facto de sermos produtores, distribuidores, promotores, designers... tudo ao mesmo tempo! (risos)
H2T - Estás a planear videoclip, certo?
Suarez - Está feito! Vou-te ser sincero, não avanço uma data porque tenho medo de não estar no ar nessa data... (risos)
H2T - E o tema será o single inicial ("2006 Quilogramas de Cultura")?
Suarez– Não. Será o “Motivo”. Acho que é o tema mais complexo do disco, e tinha uma "visão" para fazer o filme daquela música e arrisquei.
H2T - E consegues fazer uma pequena descrição dessa "visão"? Qual o conceito/ideia-base do video?
Suarez - Não quero influenciar (risos). É complicado, se eu mostrar o meu ponto de vista, pode influenciar as pessoas. E eu quero que o tema e o video tenham um significado especial e diferente para cada pessoa.
H2T - Que critérios seguiste na escolha das pessoas que convidaste para o álbum? Fala-nos um pouco sobre as participações.
Suarez - Os mesmos critérios que temos para escolher os "irmãos" (risos). As participações são mesmo “família”, são meus amigos mesmo, não são conhecidos, nem foram escolhidos por serem bons ou maus. Eu tinha mesmo necessidade de partilhar com eles música, as cenas foram super naturais. Aconteceram mesmo sem darmos por isso e, pessoalmente, enriqueceram bastante o disco. Foi uma questão de química.
H2T - Em "Visão de Um Estranho" tens alguns sons muito pessoais ("Motivo" ou "Álbum de Fotografias", por exemplo). Não tiveste receio de te expôr em demasia?
Suarez - Boa pergunta... Respondo que não, por dois motivos: primeiro, porque o disco nunca teve o conceito de agradar a ninguém para além de mim; E, em segundo, são cenas que fazem parte de mim e, para mim, a música só faz sentido quando vamos buscar as nossas cenas mais pessoais à alma.
H2T - Também há algumas faixas, como "Poligamia de Bens" ou "Cota Amilcar", a título de exemplo, em que fica a ideia que analisas e reflectes muito sobre a vida, sobre o Ser Humano e o seu comportamento. Consideras-te um Pensador?
Suarez - Sem dúvida, sou uma pessoa que reflecte bastante. E as cenas que digo são sentidas, mas nem sempre pensadas... Mas interesso-me muito pelo comportamento das pessoas. Tento entender as atitudes, por mais estranhas que pareçam... Detesto julgamentos e tento dar sempre o benefício da dúvida, porque acho que existem muitas condicionantes para as pessoas terem determinadas atitudes e posições. Não me considero um Ghandi, mas tenho a minha percentagem de pensamento (risos).
H2T - "Não Somos Músicos (Vocês, sim, são..)" fala do descrédito que a indústria musical duma forma geral atribui a quem faz rap, nomeadamente ao não o considerar como "música". Também no texto (incluído no livrinho que acompanha o álbum) sobre esta faixa levantas algumas questões pertinentes em relação a este assunto. Qual a melhor estratégia para levar esta mensagem (e as tais questões pertinentes) aos "críticos" quando, logo à partida, eles não te vão querer ouvir por causa de fazeres rap? Como dar a volta a isso?
Suarez - A cena é assim, mano: se não levares a tua cena a sério, mais ninguém leva. Se tiveres uma atitude profissional, as coisas mudam. Num concerto, diz-me quais são os rappers que chegam a horas para os check-sounds... Nos discos, quais são os rappers que abordam questões verdadeiramente fortes e lógicas?... Na produção, quais são os produtores a fazer verdadeiramente música?...
Isso cria uma imagem, certamente, negativa. E nessa altura és criticado e até mesmo rebaixado e, enquanto isso acontecer, eu compreendo. Agora, quando vejo que existem pessoas a trabalhar a sério na música e não são escutadas, fico fodido.
E cabe-me a mim fazer com que os críticos me oiçam, ou seja, profissionalizar-me e levar as cenas a sério. E eu, como sinto que faço música, acho-me no direito de criticar esses pseudo-músicos, porque quem aprova e sente a música com sentimento consegue ver essas cenas. Apesar de eu os criticar, eu tenho noção que grande parte dos culpados estão no movimento, porque hoje em dia qualquer pateta faz rap e as editoras apostam... É normal que um músico de conservatório fique frustrado com isso, mas eu tambem não sou obrigado a ouvir constantemente que não trabalhamos e que é facil fazer "PUM PA PUM PA”. Logo, convido esses manos todo a surgirem no Covil. E até te digo mais, se eles entrarem cá e interpretarem esse mesmo tema (“Não Somos Músicos”) e, no fim, disserem “Isto é básico”... faço-lhes uma vénia e dedico-me à pesca! (risos)
E tu tens noção que até para essas cenas [n.d.r. – capacidade de respiração / "caixa de ar"] precisas de preparação. A construção do tema, a construção da letra... Se isso não é fazer música, o que é?! Eu uso um sample do Rodrigo Leão, sou “plagiador”!... E, quem utiliza a base musical do Carlos Paião, é o quê?! Está a homenageá-lo?!... Não me fodam, é uma questão de instrução. Não sei se consegui mostrar o meu ponto de vista... (risos)
H2T - Em que projectos andas agora a trabalhar? Quais os próximos passos da Covil?
Suarez - Estou a trabalhar na AlemDoTejo Volume 2, no EP do Bicas e a produzir para o Zikler. Sinceramente, não sei qual será o próximo passo... Mas, até ao final do ano, temos um disco na rua. Pensei que conseguissemos mais qualquer coisa, mas o meu disco está a exigir muito de mim e não tenho tido tempo para acompanhar os projectos que temos na prateleira. Mas, já que temos a fama, fiquemos com o proveito... " devagarinho"... alentejanos (risos). Felizmente, não temos provas para prestar a ninguém. E muito menos contas. Logo, as cenas surgem com muita calma e tempo.
Estás a ver? É a cena que te dizia, se fosse uma editora, já tinha que estar mais activo e isso prejudicava os processos de composição.
H2T - Para terminar, se ficou algo por dizer, aproveita agora...
Suarez - Agradeço a preocupação e atenção. Acho que tocaste em cenas importantes, gostei muito da entrevista, não tenho mais nada a dizer. O pessoal que oiça música e sinta a cena, procurem novos sons, anda aí boas cenas, agora apareceu o JV com um grande trabalho (“Já Venho”), o Biex também está a lançar a "Música com Alma"... E é isso, mano, explorem as cenas e vivam a vida com a música (risos).
Por Filipe Nunes para H2T - www.h2tuga.net (fotografias cedidas por Suarez) |