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Entrevistas
H2T - HipHop TugaSims & Pródigo - Agosto/2007

Sims & Pródigo - "Onde é Que Tá as Mortalhas?"

"1 Emcee & 1 Deejay"

Sims e Pródigo. O primeiro é DJ, o segundo é MC. O DJ é de Évora, o MC é da Malveira. DJ Sims (myspace.com/dsimsj) estreou-se nas edições em 2004, com a mixtape "A Música Que Não É Arte". MC Pródigo (myspace.com/prodigo) estreou-se nas edições em 2000, na mixtape "Jackpot 2000" de DJ Bomberjack.
  Ambos fazem parte do Sistema Intravenoso (sistemaintravenoso.net) e, juntos, lançaram recentemente a mixtape "Onde É Que Tá As Mortalhas?". O H2T foi tentar descobrir...

H2T - Muitas vezes, e em contraste com um álbum, associa-se uma mixtape a um registo mais crú, "descontraído", sem grandes preocupações com pormenores. No entanto, em "Onde É Que Tá as Mortalhas?" dá ideia de ter havido muito trabalho prévio, com atenção a vários detalhes, quase como se de um álbum se tratasse. Quanto tempo demoraram desde o planeamento da mixtape até terem o resultado final nas mãos, pronto para vender?
  Pródigo - Desde a ideia de fazer a mix até a termos empacotada nas unhas demorou 2 anos. O Sims a estudar em Elvas e eu em Lisboa não ajudou muito, mas com perseverança a coisa anda.
  Sims - Foram mais ou menos dois anos entre atrofios com computadores, com softwares, com placas de som... Com tudo e mais alguma coisa... Custou mas foi, e agora está aí! Pow!

H2T - "Portagens e gota não aumentam a distância" (in "Início do Fumício")... Mas a distância entre a Malveira e Évora deve complicar um pouco, principalmente o processo de gravação, tendo em conta que também 3 dos 4 convidados da mixtape são oriundos de diferentes zonas. Como é que decorreu esse processo?
  Pródigo - Gravámos todos em Évora, na Mina, com o VRZ, só o Ikonoklasta é que aproveitou uma breve viagem à tuga para gravar as partes dele na casa do Conductor. De resto foi fácil, o Sims misturou os beats, escreveu-se, gravámos, depois meteu-se mais scratch, frases e efeitos e ficou no ponto. Parece um bolo com várias camadas. Mas vocês sabem qual é a cereja no topo do bolo...

H2T - Trabalhos em formato amador, mas com pormenores cuidados e a roçar o profissionalismo. Hoje em dia, com a proliferação de novos MC's e DJ's, é essa a única forma de um artista ganhar crédito? Opõem-se a edições notoriamente feitas à pressa, sem grandes cuidados a vários níveis, mesmo que se denote potencial nos artistas envolvidos?
  Sims - Antes de mais nada, pressas são coisas que não fazem parte da vida de um alentejano, logo, não ia ser na música que me iam dar pressas! As coisas quando são feitas à pressa notam-se logo... Até um pica quando é feito à pressa se nota que foi feito à pressa, quanto mais a música! Penso que o HipHop português já chegou a um ponto onde as coisas já não se podem fazer à pressa! O factor qualidade é extremamente importante, tanto em trabalhos mais amadores como em trabalhos mais sérios.
  Pródigo - Cada um faz como bem entende. Penso que nunca tivemos pressa em fazer projectos à toa, apenas para mostrar que existimos e recebermos props do pessoal. Já estamos nisto do HipHop há algum tempo e fazemos isto por gosto e, claro, gostamos de qualidade, acima de tudo. Se sou um ouvinte exigente também vou ser exigente comigo próprio enquanto MC.

H2T - "DJs sem vinil" é o título de uma das faixas e é, também, um fenómeno em crescendo. Também têm sido lançados alguns projectos em que quase não se nota haver trabalho de DJ'ing. Temem que o papel do DJ na cultura HipHop acabe por ir perdendo cada vez mais protagonismo em detrimento dos "DJs sem vinil"?
  Sims - Penso que não. Porque, no meu ponto de vista, um som só está completo se tiver um scratch por trás, mesmo que seja o scratch mais simples do mundo! São sempre mais uns pontos numa música... Para mim, é essencial. Quanto às novas tecnologias, não tenho nada contra a existência delas, nem contra o seu uso. Mas há várias formas de usar, por exemplo, o Final Scratch ou o Serato. E todos sabemos que, gravar umas vozes propositadas para um som e depois riscá-lo, é bem wack! Eu gosto mais de passar horas à procura da frase que encaixa de forma perfeita no som. Mas isso sou eu...
  Pródigo - As novas tecnologias sempre fascinaram o pessoal que faz rap. Eu já ouvi cenas com o Final Scratch e afins que são muito fats. A dica é mesmo para aqueles que estão a começar e não sabem cumprir com os requisitos técnicos - skill. Só porque tens um prato em casa não quer dizer que mereças intitular-te de DJ...

H2T - Já se passaram 3 anos desde a mixtape "A Música Que Não É Arte". A nível técnico, e também no que respeita a DJing, quais as principais diferenças entre as duas mixtapes?
  Pródigo - A outra era mais o formato tradicional, tudo a mandar free sobre o que bem entendesse. Nesta, em formato de dupla, não quis massar o people só com punchlines e escrevi umas cenas diferentes, dicas que queria dizer. Os samples de frases e afins são um factor novo que não aplicámos na outra.
  Sims - A grande diferença, no meu ver, foi o sítio onde se gravou a voz. A primeira foi gravada no Sistema Intravenoso, onde a qualidade de captação de voz é quase pré-histórica. Nesta última já foi gravada na Mina... e a diferença é notória! Quanto a coisas que tenha feito nesta e não na outra, por exemplo, técnicas novas de scratch que se vão adquirindo com o tempo, a fluidez do crab, a certeza no flare, entre outras. E, claro, uma das coisas que me deu mais gosto fazer foi a faixa escondida com a voz do Fidbek, em que tive de cortar tudo e encaixar naquele beat crazy de Cypress Hill... Fartei-me de rir sozinho!

H2T - E faz parte das tuas ambições futuramente participar numa competição de turntablism?
  Sims - Não, penso que não. Não fui feito para batalhar, nem com ninguém, nem contra ninguém. Olha, comparando com os carros, preferia ser piloto de testes do que piloto de corrida! (risos)
  Pródigo - (risos) Acho que o Ronas tem mais perfil para isso.

Sims & Pródigo - "Onde é Que Tá as Mortalhas?"

H2T - Por quê a opção de lançarem agora uma mixtape no formato 1 MC + 1 DJ em vez de, por exemplo, um segundo volume de "A Música Que Não É Arte", com vários MC’s? Quais os principais objectivos que pretendem atingir com este trabalho?
  Pródigo - Mas porque é que tem que haver objectivos? Não pode ser porque simplesmente nos apeteceu fazer uma mix a dois? Nós mantemos a cena simples e nublada...
  Sims - O objectivo desta mix é deixar o pessoal com dores na parte de trás da cabeça, de tanto rir! Se isso acontecer, eu já fico feliz. E, a grande razão de termos feito esta mix antes do segundo volume da A Música Que Não É Arte, foi porque, aqui por Évora, isto andava muito "seco" e o Pródigo representava sempre umas cenas fats quando cá vinha... Por isso, arranjei maneira de ele vir cá muitas vezes! (risos)

H2T - Em relação ao som "Detectives Pt.1"... O nome indicia que, de alguma forma, irá continuar a investigação da semi-misteriosa "morte" referida na música. Onde e quando se puderá ouvir a continuaçao desta história?
  Pródigo - Haverão sempre histórias e casos obscuros por desvendar... Os detectives Irmãos M. Lda continuam por aí...

H2T - E como é que essa história começou? Os primeiros capítulos estão registados em audio?
  Pródigo - Esta é a Parte 1... Isto não é a Guerra das Estrelas nem o Hannibal, nada de "in media res"... As novas histórias vão vender mais que o Harry Potter. (risos)

H2T - Sim, mas, reformulando a pergunta, de uma forma explícita: como começou o desentendimento verbal entre ti e o SP? Quais as razões?
  Pródigo - Curto e grosso: eu avacalhei com ele, quando o próprio andava armado em espião 007, aí a fazer publicidade à sua ignóbil pessoa em fóruns e afins, a dizer que era o MC revelação, greatest of all times, "bla bla"... Como sou uma pessoa espirituosa, abardinei a cena, sem sequer ter ouvido um som. Bela surpresa tenho quando começam a chover sons em que o meu nome vem constantemente à baila, um atrás do outro. Mas, como diria o Conductor, "sons bem pooooodressss" (risos). Ao menos, que fizessem mossa, mas nem isso. Eu bem tentava perceber o que o gaiato dizia nas músicas mas, "rien de rien", parecia que tinha algodão na boca. Só ouvia "Pródigo, Pródigo, Pródigo..." (risos). Fucking groupie.

H2T - Ainda só com sensivelmente 1 mês de vendas, como é que elas têm estado a correr até agora?
  Pródigo - Simão, vamos em quantas? 150? Parece-me bem, visto que só estamos a vender a maioria pela net e em mão.
  Sims - Por volta das 200, não tenho agora bem presente o número. Mas estão a sair muito bem!

H2T - A mixtape só pode ser adquirida directamente a vocês e/ou através da internet? Isso não acaba por prejudicar o número de vendas?
  Sims - Eu acho que pode prejudicar de alguma forma, visto que a nossa capa é muito apelativa a quem passar por ela. E uma coisa é ver uma imagem na net, outra é ter a capa na mão... Neste caso faz muita diferença, podem acreditar! Mas, o grande problema é a subida de preços que, algumas vezes, é elevada demais. E não rende ter mix's à venda em lojas a 14 e 15 euros, porque se vende o mesmo material na net por 10 euros!
  Pródigo - Já deixámos umas quantas na Carsportiff, em Torres-Vedras, e vou deixar mais umas na Supafly, no Bairro Alto. Entretanto pode ser que apareça numas lojas da região do Porto, estamos a tratar disso.

H2T - Que tipo de reacções têm recebido do público?
  Sims - Muito positivas! A grande crítica mesmo tem a ver com a mortalha que vai no seu interior ser das "vermelhas" que, na minha opinião, também são bastante ruins, mas era para ser coerente com a capa. De resto, a que mais gostei foi terem-me dito que foram os 10 euros mais bem gastos dos últimos tempos! Pow!
  Pródigo - As melhores. Props sinceras é do melhor que se pode ter. Acho que só há mesmo uma pessoa que não curtiu da mix mas, esse, olha... morreu. Nah, estou a brincar, ele curtiu montes, que ainda há dias o Nerve me disse que ele é fan do meu trabalho. Tens bom gosto...

H2T - Depois de um período em que as mixtapes portuguesas estiveram quase desaparecidas, nos últimos tempos têm vindo a reconquistar algum espaço, aos poucos. Qual a vossa opinião do actual mercado das mixtapes em Portugal?
  Sims - Não quero estar a bater na mesma tecla novamente, mas há mixtapes e há as outras cenas... que, para mim, não são mixtapes... Mas, à parte disso, aguardo com grande ansiedade a próxima mixtape do Cruzfader, que vai estar muito fat, certamente!
  Pródigo - Sinceramente, a única mix que estou à espera agora é a do Cruz. Como os chapéus, mix's há muitas...

H2T - Pródigo, para ti segue-se o "Dentes de Ouro e Flow de Platina", álbum previsto ainda para este ano, em parceria com o VRZ. Em que fase se encontram? Que informações podem já ser adiantadas sobre o álbum?
  Pródigo - Agora temos mais tempo para trabalhar no álbum, andávamos com a agenda uma beca atarefada e andávamos desencontrados. O Syniko anda a produzir "pa caralho" e agora é sempre a subir. Participações... vão ter que esperar para ver, quando sair em 2014.

H2T - E tu, Sims, em que projectos estás a trabalhar agora? O que podemos esperar vindo do Sistema Intravenoso nos próximos tempos?
  Sims - Agora, neste momento, só estou a trabalhar no álbum do Nerve, que vai ser uma bomba! Quanto aos próximos trabalhos a saírem pelo Sistema Intravenoso, além do "A Música Que Não É Arte 2", que vou começar em breve a idealizar, podem esperar pela mixtape do DJ Ronas com Blasph e Thorn, com o nome de “Irmãos Metralha”. E há ainda a possibilidade de fazermos uma colectânea com sons que temos feito e que não têm sido incluídos em nenhum projecto em concreto... vamos ver.

H2T - Mensagem final? Agradecimentos, insultos, cumprimentos, ou algo que tenha ficado por dizer...
  Sims - Comprem enquanto há! (risos) Muito obrigado e abraço a todos!
  Pródigo - Muchas gracias pela atenção e, mais uma vez, foi um prazer estar convosco.

Por Filipe Nunes para H2T - www.h2tuga.net (fotografias cedidas por Sims e Pródigo)

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