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Tudo tem um início e o Flowfest não começou na noite de Sábado. Começou meses antes, aquando do nascimento de um conceito que viria a ser materializado nessa noite.
H2T - Como é que nasceu a ideia do Festival Flowfest?
Quizmaster - A ideia do Flowfest surge da falta de um evento anual de hip hop em Coimbra, que valorizasse o mercado que temos aqui na região, tanto em termos de público como de artistas e de uma vontade imensa pessoal de 4 pessoas que querem dedicar a vida ao hip hop fora do formato habitual, do DJ, do MC, do B Boy ou do Writer. Para que um mercado avance, é necessário mais do que só os artistas, é necessário pessoal interessado em apoiar, e esse é o nosso objectivo estruturante, apoiar e valorizar.
H2T - Como foi possível organizar um festival desta dimensão com uma equipa de trabalho tão jovem? As parcerias que estabeleceram foram determinantes no sucesso do evento? Explica-nos como é que a organização funcionou a este nível.
Quizmaster - Primeiro, somos uma organização que está em permanente contacto com algum do nosso público-alvo. Estamos a trabalhar num produto do qual somos consumidores interessados. O Flowfest pretende ser um evento ao qual nós gostaríamos de ir mesmo que não fosse organizado por nós, mesmo que não fosse na nossa região. Em termos de parcerias, e apesar de as empresas ainda não estarem muito abertas ao patrocínio em dinheiro, este ano foi importantissímo, já que conseguimos captar a atenção do sector público (a Câmara Municipal, o Ministério da Cultura) e do sector privado (a Super Bock, a Toyota, etc.) com um evento fora de Lisboa, e cujos passos ainda só agora começamos a dar. Importa frisar isto, o Flowfest implica um trabalho de cerca de 11 meses, desde a criação do conceito do evento, ao contacto com os artistas, à captação de sponsors e à promoção do evento, que este ano correu muito bem.
As quase duas mil pessoas presentes no recinto, vindas de todos os cantos do país, foram sem dúvida o principal indicador do sucesso do evento em termos de promoção. Ninguém melhor que um elemento do público para nos elucidar acerca do sucesso do evento a outros níveis…
H2T - O que te motivou a ires de Lisboa a Coimbra, propositadamente para assistires ao Flowfest?
Ivo Alves - Em primeiro lugar, surgiu a oportunidade da equipa da IV Street estar toda junta. Nunca tínhamos conseguido juntar pessoal do Porto, de Lisboa, de Coimbra e decidimos fazer a cobertura do evento em grande visto que éramos um dos Media Partners. Foi por causa da IV Street, por causa do evento em si, e também pelos artistas, claro. Nunca tinha visto Sam the Kid em formato de banda e foi um dos aspectos que também me puxou a ir. E de resto, foi basicamente pelo convívio. O convívio é sempre bom.
H2T - Quais foram, na tua opinião, os pontos altos da noite?
Ivo Alves - Os pontos altos da noite para mim foi ver uns manos de Aveiro que não conhecia e gostei muito da cena deles, dos NAD. Gostei particularmente de quando o pessoal da Footmovin se juntou, a Tamin, o Bob da Rage Sense, o Royalistick e o Sir Scratch, curti bué a aquele som que eles têm da mixtape da Footmovin’, o Outra Margem. É um grande som e fazerem a cena ao vivo correu muito bem, mesmo grande feeling. Sam the Kid, também gostei de ver, embora as condições de acústica do recinto não fossem as melhores. O pessoal estava mesmo a delirar. E basicamente foi isso. Mais uma vez, também o convívio. Também curti da cena do Raze porque para mim ele é um dos melhores produtores da nova escola e consegue estar a um patamar de produção já reconhecido mas eu não conhecia bem a faceta dele como mc e vê-lo a subir ao palco e a puxar pelo público… ele como mc não é assim nada do outro mundo, mas a cena dele, de chegar mesmo ali em frente a mil e tal pessoas e começar a puxar pelo público correu muito bem. Também gostei da Sky, tem uma voz muito bonita e uma grande presença em palco.
H2T - O evento teve como um dos seus propósitos a divulgação de novos artistas, nomeadamente do centro do país. Alguma surpresa agradável da nova escola?
Ivo Alves - Sem ser os NAD, gostei da cena dos SBT2, só que acho que estiveram lá muito tempo. Não os prejudicou porque eles estavam a jogar em casa e porque o público também estava a aderir bem à cena, mas tendo em conta as circunstâncias que viemos a saber mais tarde, acho que podiam ter tido algum bom senso. Não só eles, mas principalmente da parte da organização, deviam ter encurtado uma beca a actuação deles que acho que foi tanto como Sam The Kid e não se justifica. Sinceramente da nova escola só gostei mesmo, mesmo dos NAD.
Velha e nova escola foram unidas pelo convívio que se viveu nos bastidores.
“No início foi uma beca estranho chegar lá e ver o Sam, que tinha um backstage só do gajo mas o Sam é dos melhores artistas que nós temos agora na tuga, mesmo em geral, seja rock, seja hip-hop, seja… Poetas de Karaoke [risos] Não, é mesmo e ele faz as suas escolhas. Foi fixe connosco, falou connosco na boa. De resto, sentimo-nos bué iguais, conheci gente nova, tivemos bué na descontra, falamos todos no backstage… foi um bocado a nova escola que lá estava e tivemos um bom diálogo.” – Ary
“As condições eram diferentes, à partida, com os vários artistas mas o mais importante ali foi mesmo o ambiente em si, que estava fixe.” – X-Acto
Mas um evento não são só pontos altos e o Flowfest não foi excepção. Atrasos longos na abertura de portas. Polémicas que vieram a público. Artistas que actuaram fora de horas. Outros não chegaram a actuar.
H2T - Publicaste no teu myspace um flyer onde demonstras o teu descontentamento. Porquê expressares-te publicamente? As tentativas de diálogo com a organização falharam?
X-Acto - Eu fiz aquela minha versão do flyer para expressar o modo como eu me sentia em relação à organização do Flowfest que na minha opinião não funcionou de maneira correcta para com alguns artistas que me diziam respeito. Tentei falar lá mas a revolta foi de tal modo que aquilo foi a minha maneira de me exprimir e de fazer o resto das pessoas saber o que se passou lá.
H2T - Pondo-te no lugar de público, sentiste-te, citando as tuas palavras, “duplamente ofendido”. Conseguiste abstrair-te da situação e desfrutar das outras actuações?
X-Acto - Consegui porque eu na altura já tinha decido que não ia actuar, não queria mesmo actuar. Eu disse isso ao Quizmaster porque aquilo estava de tal modo atrasado que eu depois de Sam the Kid não ia actuar. Não fazia sentido, não ia estar lá ninguém. Depois acabei por actuar só mesmo por respeito àquele pessoal que ficou lá para nos ver. Pondo-me no lugar do público, senti-me ofendido na medida em que: imagina que eu ia lá ver Sam the Kid mas tinha o meu amigo Ary que também queria ver… Sei de pessoal que esteve lá que acabou por não ver nem Sam the Kid nem Ary porque aquilo ficou tão tarde que o pessoal estava bué cansado e bazou… Eu compreendo perfeitamente o facto de só estarem lá 30 pessoas depois de Sam. Eu próprio tinha-me vindo embora.
H2T - Participaste na ‘Operação Atitude’ que te garantiria a abertura do concerto do Sam the Kid, cabeça de cartaz. Quais eram as tuas expectativas quando descobriste que tinhas sido um dos vencedores?
Ary - Não fui o vencedor, quem ganhou foi La Dupla e o X-Acto, mas era bom, foi uma cena fixe. Tinham concorrido 16 acho eu e ser escolhido para estar lá era uma cena boa e senti-me bem por isso. Não era por isso que ia ter mais valor, por abrir o Sam ou não. O valor não é nesses concertos que se vê, é até nos pequenos, na minha opinião mas era uma cena fixe.
H2T - Acabaste por ser um vencedor sem prémio. Como é que te sentiste ao actuar para um público tão reduzido?
Ary - Quando subi a palco, subi porque aquele pessoal estava lá para me ver e houve pessoal que me foi cumprimentar no início: “puto, eu vou ficar aqui para ter ver”. E isso é que valeu. Aquelas 30 pessoas estavam lá para nos ver e foi chegar ao palco e sentir que estava num concerto normal e que não no mesmo palco que Sam, Scratch, SP&Wilson. Estava ali num palco normal, o palco que eu costumo fazer todos os meses praticamente e eu costumo ir bué vezes a Coimbra e foi bom ver que tinha ganho novas pessoas. Foi mesmo esquecer o que estava à parte e cantar só para aquela gente.
H2T - Vieram a público algumas falhas para com os artistas, nomeadamente com La Dupla e o Mc Ary. Tens algo a acrescentar acerca deste assunto?
Quizmaster - Tudo o que havia para ser dito já foi, até com algumas coisas no calor do assunto que depois calham mal, mas não vamos mais alimentar esta polémica. Errámos, pedimos desculpa, pessoal e publicamente e vamos olhar para a frente para que nunca mais assim aconteça.
H2T - Agora que a poeira assentou, o que dirias à organização e ao público que esperou até de madrugada para te ver actuar?
Nessa - À organização gostava de dizer que apesar de tudo o que se passou, foi um bom evento, muito bem recebido por parte do público e que pode vir a ganhar consistência e tornar-se em algo sólido se for coordenado de melhor forma, tendo como principais objectivos o respeito e satisfação tanto pelos artistas como pelo público.
Ao público que esteve presente até ao fim, felizmente, tive oportunidade de agradecer, no entanto, deixo aqui um grande big up pelo apoio, esperando, sinceramente, poder actuar mais uma vez para eles.
H2T - Voltavas ao Flowfest em 2009?
Ary - Voltava. Voltava para dar a lição da graça. Eu e o Espanhol (La Dupla) também dissemos: se um dia tivessem o nome de Sam the Kid e nos pedissem, a gente voltava para mostrar como é que são as coisas que nós não guardamos ressentimentos. E também vou confiar que eles vão aprender com isso.
Feitas as contas – e apesar de todas as questões já largamente discutidas e resolvidas – o saldo parece ser positivo.
H2T - Finda a terceira edição do Festival, qual é o balanço que fazem da mesma?
Quizmaster - Reconhecemos os nossos erros na organização deste ano, uma vez que certas coisas nunca deveriam ter saído da nossa mão e saíram. Ainda assim, em termos de acontecimento, eu senti história a ser feita ali e provámos que é possível fazer coisas fora dos maiores círculos e mesmo assim ganhar um hype enorme. O evento amadureceu e descobriu as suas próprias falhas para depois serem colmatadas. Somos sinceros e sempre o vamos ser, não estávamos à espera de uma enchente tão grande de público, e alguns dos problemas surgiram daí.
H2T - Depois de analisados os pontos positivos e negativos, o que podemos esperar da próxima edição do Flowfest?
Quizmaster - Ainda não sabemos nem quando nem como será a próxima edição. Sabemos que não vamos desistir, que vamos criar um novo conceito, evoluir para onde pudermos e ganhar a confiança de ainda mais e melhor público. E esta a mensagem que deve passar: Coimbra esteve num Próximo Nível e pode ser que venha aí a Revolução.
Finda ‘a maior festa do ano’, as opiniões dividem-se quanto à adequabilidade do epíteto atribuído pela organização:
“Maior festa do ano… eu não costumo ver muitos eventos de hip-hop com aquela dimensão organizados por pessoal português. Eu sei dar o devido valor à organização. Eles tinham lá bom equipamento, essas cenas todas… O espaço em si, na minha opinião, não era o melhor, pela acústica mas como tinha bastante pessoal até se desenrascou bem. Acho é que deviam ter tido mais mão. Quando há um problema é para resolver não é deixar passar o tempo e ver como é que corre.” – X-Acto
“O ano ainda não acabou, vem aí o verão. Eu sei que a designação e o slogan de maior festa do ano está dentro de uma perspectiva de divulgação e de marketing mas agora se calhar depois da festa em si já não vão ter esse gozo ou esses motivos para dizer que foi a maior festa do ano… Ainda há muito ano, espero que haja mais festivais com bué pessoal. Acho que foi importante pelo festival em si, pela zona onde foi para também haver uma descentralização Lisboa-Porto porque basicamente é mais ou menos aí onde acontecem os principais eventos ligados ao hip-hop. Acho que foi importante mas acho que não foi o melhor festival. Esperemos que ainda haja, O festival do ano.” – Ivo Alves
Por Rute Silva para H2T - www.h2tuga.net
| » Cobertura oficial "Super Bock FlowFest 2007": |
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