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H2T - HipHop TugaLweji - Janeiro/2005

Lweji

“Finalmente” o início das Lweji

Uma é das melhores e mais conhecidas MC’s femininas (ex-Backwords), outra a grande voz revelação que nos tem acariciado a todos numa boa dose de refrões - como foi em “Guetto Life” (Guardiões do Movimento Sagrado), “Fazendo Amor” (J-Cap), “Não Lhes Deixa Escolher” (Kosmikilla), entre outros. Talvez seja assim que uma grande maioria vê as Lweji, em separado, a Telma (a.k.a. Tvon) e Geny, respectivamente.
  Uma sempre bem disposta dupla que vem impulsionar o Hiphop feminino com um primeiro álbum surpreendente. “Finalmente” está nas ruas, vamos conhecer pormenores.

Contem-nos como foi o ínicio das Lweji, e já agora o significado deste nome tão original.
  Geny - Foi mesmo ao acaso, a Telma ia entrar numa mixtape do Dj Link e convidou-me para entrar com ela. O que era para ser só um som, passaram a vários, porque demo-nos mesmo bem. Ela ia fazer a cena dela a solo e eu estava com a UB Squad, mas depois eu acabei por sair da minha primeira crew e juntei-me à Telma. Resolvemos formar o nosso pequeno grupo, chamámos a Barbie, que já tinha estado no mesmo grupo que a Telma (Backwords), e estivemos as três juntas durante algum tempo mas por motivos pessoais a Barbie teve de desistir e nós continuamos.
  Lweji foi uma rainha do Império Lunda (em Angola)que muito lutou para se impôr num mundo liderado somente por homens. Foi por isso que escolhemos este nome, num universo como o da cultura Hiphop em que os homens são a grande maioria, as mulheres como nós também têm algo a dizer.

  – A TVon, no seu reportório, conta já com uma passagem pelas ex-Backwords, que chegaram a ser tidas, por alguns, como uma forte promessa no Hiphop. Conta-nos como foi essa primeira experiência e o que nela correu mal.
  Telma – Foi muito fixe ter estado nesse grupo porque aprendi muito com elas, vivi coisas muito boas e outras menos boas, mas mesmo estas, se formos a ver bem, também foram boas, pelo simples facto de terem acontecido e por assim me darem a oportunidade de não as voltar a fazer.
  Claro que como acontece com quase todos os grupos no início tudo parecia excelente mas, depois quando os interesses não são os mesmos, a tendência é para as pessoas se dispersarem não é? E foi um pouco isso que aconteceu, começámos a rever as nossas prioridades com o passar do tempo e cada uma foi para o seu lado.

  – Contando obviamente com o álbum das Djamal, “Abram Espaço” editado em 97, penso que este foi o segundo trabalho editado por um grupo inteiramente feminino no Hiphop. Acham que isto é fruto das maiores dificuldades femininas frente a esta cultura, ou deve-se simplesmente ao menor número de artistas pertencentes a este sexo?
  Geny – Existem poucas raparigas a representar, mas não penso que seja por isso que não haja mais trabalhos aí fora. Acho que um dos principais problemas é que há muitos turistas no Hiphop, vêm, observam, nem sempre gostam do que encontram e bazam naturalmente. Se formos a ver bem é o que mais tem sucedido com as raparigas, quantos grupos já não foram formados e desformados?

  – Não sei se as Djamal, pelo simples facto de terem sido um grupo inteiramente feminino, foram ou não para vocês como uma espécie de exemplo a seguir, algo que vos incentivou neste percurso. Acham que faz falta a existência de mais MC’s femininas no Hiphop nacional? Gostariam de ser tidas como uma referência para esses novos talentos?
  Telma – Claro que sim, acho que todas as meninas (e não só, muitos meninos também) que já viviam Hiphop naquela altura se sentiram orgulhosas quando o “Abram Espaço” saiu. Gostei mesmo (risos). Até me lembro que as Backwords eram todas bem fãs das Djamal. Foi um incentivo sim, uma espécie de empurrão, do género: “nós estamos a lutar, lutem também!”. Penso que tudo o que possa contribuir positivamente para a expansão e união do Hiphop Nacional é extremamente necessário, sejam mc´s femininas, sejam mc´s masculinos, sejam os passivos... o que tiver de ser, tudo o que tiver boa alma é bem-vindo.

  – Depois de tantas participações (quer em conjunto ou a solo) de qualidade e de tanto terem aumentado a curiosidade em redor do vosso primeiro trabalho, “Finalmente” está no mercado. Quais são agora as vossas expectativas?
  Geny – O que mais desejamos é que as pessoas que escutarem os nossos sons captem as ideias que queremos transmitir e que se identifiquem com elas.

  – No Hiphop, as raparigas no geral, são frequentemente convidadas para participar em álbuns, mas restrigem-nas aos refrões das músicas. Tu, Geny, és um bom exemplo deste caso, a grande maioria conhece-te como uma grande voz, mas talvez desconheça toda a tua potencialidade como MC. São duas características que se complementam facilmente, no entanto, tens preferência por alguma delas?
  Geny – Gosto muito de cantar, adoro mesmo. Mas da mesma forma como gosto de cantar, adoro rappar. Não prefiro nenhuma, ou melhor, prefiro as duas (risos).
  Telma – Nem podes ter preferência mesmo, porque rebentas com a mesma intensidade nas duas (risos).

  – Há uma faixa, “Traços”, onde são representados 4 paises – Angola, Portugal, Timor e Cabo Verde – falem-nos um pouco desta ideia original que creio ter a ver convosco e com as participantes.
  Telma – Sim, esse tema surgiu do facto de todos os intervenientes nele serem de nacionalidades diferentes, mas unidas por uma língua comum, a língua portuguesa. Eu sou angolana, a Geny nasceu em Timor, a Barbie é filha de caboverdeanos, a Lady Angie é portuguesa e todas nós temos que diariamente conviver com essa diversidade. Acho que é algo que acontece com muitas pessoas e elas nem se apercebem, nós achamos que essa diversidade é uma riqueza em termos de cultura por isso resolvemos relatar os nossos “Traços”.

  – Falem-nos um pouco dos vossos aliados neste álbum na parte de produção e scratch.
  Geny – Os produtores foram o Plaster, o J`Verbal`D, Dj Scotch e o Dj Kev, são produtores que nós admiramos muito e que fazem exactamente o tipo de beat que nos faz estremecer e dizer logo: “comé esse beat é para nós”, (risos).
  O homem do Scratchs foi o DJ NelAssassin, o que dizer dele? É fenomenal e logo que surgiu a oportunidade de o ter no álbum não o deixámos escapar, foi graças ao Plaster.

  – Quanto a participações vocais, são todas femininas e como não são muitas, peço-vos que falem sobre cada uma delas.
  Telma – Barbie é uma Lweji, por isso não faria sentido nenhum lançarmos um álbum sem ela, aliás ela até devia estar em todos os sons mas, como não é possível, entrou apenas em dois. A Cat é a nossa filhinha, muito preguiçosa, que tem muito talento mas tem a mania que as coisas caiem do céu. Por isso, convidámo-la para ver se o bichinho que vive nela consegue ser mais forte que a preguiça... (risos). A Kaya é uma lutadora nata, daqui a nada é o álbum dela a sair e a destruir (risos), e a Lady Angie é a Lady Angie, mais palavras para quê?

  – Um pouco por curiosidade e como devem ter um conhecimento mais directo, peço-vos que destaquem alguns nomes que no vosso entender merecem ou irão merecer mais atenção no Hiphop feminino.
  Telma – Sem dúvida a Dama Bete, as JJ, a DJ Carla Menitra...
  Geny – E as Femalle Alliance e a Raye Xuta

  – Neste álbum sobressai o conteúdo e mensagem dos quais nenhuma faixa abdica. Contem-nos alguns dos temas que abordam e que para vocês são mais importantes.
  Geny – Eu gosto particularmente do tema “Cartas ao Vento” porque fala de pessoas que nós gostamos muito e é através desse som que pretendemos demonstrar-lhes isso. Também gosto do “Sorriso da Inveja”, “A Queda de uma Estrela”, é um bocado difícil dizer isso, todos nos tocam de diferentes formas.

  – Conseguem, resumidamente, dizer-nos o que “Finalmente” significa, neste momento, para cada uma de vocês?
  Geny – O “Finalmente” é como se fosse um filho para nós, é mesmo muito importante, foi algo pelo qual lutámos muito e não podíamos estar mais contentes com o nascimento dele (risos).
  Telma – É alegria, é alívio por termos conseguido mais ou menos ultrapassar toda a maré de azar que nos banhou durante estes tempos em que lutávamos para o ter cá fora. É expetactiva para saber o que se passará a seguir, é muita guerra mesmo (risos).

  - Mais alguma coisa que tenha ficado por dizer ou alguma mensagem que queiram deixar.
  Geny – Sejam Felizes
  Telma – Muita Paz.... chega de estrilhos!

Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista HipHop Nation

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