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- Uma vez que o teu nome dispensa grandes apresentações, opto por começar a entrevista com algumas curiosidades. Porquê DJ Assassino?
Nelassassin – O Assassino foi o meu primeiro nome, mas antes de ter esse nome já tinha ligações com música e djing. Nasceu uma vez, quando estava num ensaio, ainda com os Zona Dread. O D-Mars viu-me a cortar, com um estilo agressivo, e mandou-me uma dica do género “tu agora és o DJ Assassino”, porque era mesmo agressivo o que eu tava a cortar. Depois, ainda fiz uns concertos com os Zona Dread antes do grupo acabar, o D-Mars teve a ideia dos Micro e fundámos o grupo, com o meu primo, o Sagas.
Lembro-me que na altura nos juntávamos com a crew dos Nexo, no Bairro Alto, sempre a curtir, e NelAssassin surgiu através do Clay. Ele é um clássico do Hiphop português, eu era mesmo “hommie” dele e, apesar da distância e das vidas de cada um, ele sabe que ainda sou. Eu estou no coração dele e ele está no meu.
No grupo (Micro) era o Assassino, mas na rua tratavam-me sempre por Assassin, o Clay jogou com o meu nome, Nélson, e criou NelAssassin, fácil de pronunciar, é uma palavra redonda, fica no ouvido. DJ Assassino é o dj dos Micro, NelAssassin uso mais quando trabalho como freelancer.
- Como surgiu o interesse e oportunidade para um dia te tornares DJ, ainda no “anonimato” da cultura Hiphop?
Nelassassin - Normalmente, sem ser aquele DJ que ouve, gosta, quer por moda curtir e tanto toca isto como aquilo, um DJ real (que sente mesmo o Djing) começa sempre da mesma maneira – é o irmão mais velho que o influencia.
O meu irmão mais velho, tinha uma mesa, mas nem tocava nela. Mais tarde, o Tony começou-se a interessar, ligou dois deck’s a uma mesa, nem sequer tinha crossfader e começou a misturar cassetes. Depois ensinou-me e a partir daí, comecei a evoluir, comprei aqueles pratos fracos, com o pitch muito mau, e foi sempre a evoluir até aos dias de hoje. Ele, por outras razões parou, quer dizer, ainda toca discos, mas o scratch não é seres um DJ, nem tocares discos. O scratch é um tipo de instrumento contemporâneo, fazes música em tempo real, com sons e barulhos inéditos, é uma arte que vive da improvisação do artista.
– Mudam-se os tempos... elucita-nos as grandes diferenças que há por detrás (da ideologia e criação) de todas as mixtapes que fizeste e deste àlbum.
Nelassassin – A grande diferença está no formato mixtape precisamente, apesar de haver o cuidado a escolher os MC’s e as músicas para eles fazerem o seu original (vocal), tudo era feito sobre batidas já existentes. Hoje este CD é todo original. Para além de que na altura não havia, obviamente, dinheiro para conseguir lançar algo em formato CD.
Houve a época de Black Company e o pessoal todo do “Rapública” e houve a estagnação disso tudo, levou um corte radical. Houve alguns grupos que continuaram, Boss AC, o PacMan,... mas aquela altura, foi talvez o iniciar do underground Rap.
– Achas que o formato K7 está totalmente fora de moda?
Nelassassin – Não, as pessoas é que já não as ouvem tanto, já não há aquele tipo com walkman na rua. Acho que as pessoas de dentro do Hiphop ainda a valorizam, não faz diferença teres um “deckzito” a mais em casa e ouvires as mixtapes.
– E o formato mixtape, perdeu-se um pouco?
Nelassassin – Não podemos estar iludidos que não. Se o rap já era universal, agora está super universal, acessível a qualquer um, e é o formato CD que vende, não é a cassete nem é o vinil.
– Com o evoluir dos tempos, achas que se vai deixar de usar o vinil?
Nelassassin – Isso é impossivel porque a música do futuro é o scratch, se não houver vinil, estás limitado, a scratchar números, os números saltam, aquilo é um som muito mau, nunca há-de ser a mesma coisa. O vinil é o vinil e nunca há-de acabar porque o scratch é a música do futuro. As pessoas só não compram tanto vinil porque isto é dificil de ter, ou ouvir em casa; nem é muito dificil, dá é mais trabalho e as pessoas são comodistas.
– Uma vez que envolve diversos MC’s, uma compilação é sempre algo mais complexo de realizar do que um àlbum de grupo, por exemplo. Quanto tempo demorou, da ideia à prática, a criação desste àlbum? Tiveste muitas dificuldades?
Nelassassin – Quase um ano, porque os beats comecei a fazer pouco a pouco. Tive bastantes dificuldades, porque quando se está em estúdio nunca se come bem, tens uma vida completamente diferente, estás ali fechado porque tem que ser, não há outra maneira. Eu não sou um gajo rico, não tenho um estúdio em baixo da minha casa para acordar ao lado da mesa.
– É uma surpresa para muita gente, a revelação em dois temas deste àlbum do teu potencial como MC, porque tens escondido estes dotes?
Nelassassin – Porque não sou MC e porque todo o meu tempo é direccionado para o scratch, não tenho tempo para estar a escrever rimas.
Eu basicamente parei um bocadinho só para tocar, ver o que é que se passa lá fora, no mundo. É muito complicado teres o material só para ti, sózinho, ganha-se algum dinheiro, mas gasta-se muito, conseguir dinheiro para material é mesmo muito complicado, e só agora é que eu consegui alguma coisa.
Surgiu, eu tinha uma batida no estúdio e não tinha ninguém para cantar, já estava farto dos pratos, farto dos beats e olha, pus-me a escrever, cantei e achei fixe, algo que não ia envergonhar ninguém e meti no álbum como uma intro.
O outro tema, também foi algo assim meio improvisado, mas pensado, ou seja, na altura chamei as pessoas que se adaptassem com a música e precisava de mais uma voz, foi uma coisa curta.
– Tens uma faixa neste àlbum onde reúnes a família (tu, Nelo, Tony e Sagas). Há uma veia artistica em todos vós, uma tradição musical na família?
Nelassassin – Completamente, cada um de nós, sabe desde o ínicio que o ritmo é tudo. Nós até gozávamos as cenas sem ritmo que víamos na televisão e só nos dava para rir.
Comecei por ter contacto com música africana, a minha mãe e o meu pai sempre a ouvir música africana, de repente veio o Hiphop, o djing e as cenas old school.
Eu acho que está mesmo no sangue, eu como scratcher vim do Tony, o Nelo, sem saber que ele cantava, já sabia que ele tinha dotes. O Tomé (Sagas) também, é a mesma coisa, passou a infância toda conosco, era um irmão.
– Fala-nos um pouco do tema e do vídeoclip escolhido para single.
Nelassassin – É a música com o Sam The Kid e o Sagas, “O Ideal”. A ideia do vídeoclip, não tem story-board, é uma produção underground, não estamos em Hollywood e obviamente que também não há dinheiro para estar a fazer grandes coisas. Mas, apesar de não ter um story-board, tem um ambiente a ver com a música, basicamente nós estamos ali para as pessoas saberem quem fez a música, eles estão a rimar e o loop da música tem a ver com as cores do video. É um video a preto e branco e acho que aquela música inspira esses tons, foi a única coisa que teve a ver, o resto é tudo puro e simplesmente pormenores, cortes e efeitos técnicos.
– Fala-nos um pouco sobre o vínculo Touch Music que acompanha o CD.
Nelassassin – Touch Music é uma empresa criada por mim, pelo Sagas e por dois irmãos, o Valter e o Rui. Estou quase todos os dias com o Valter, ele é aquele meu amigo. Uma vez perguntou-me se queria fazer uma festa com ele, realizámos, correu bem e continuámos até hoje. Criámos um nome e estamos aí para continuar como editora, não ser só uma organizadora de eventos, ter as duas coisas.
– Uma vez que seria fácil de tentar advinhar a edição deste álbum através da Loop, assim não aconteceu. Porquê?
Nelassassin – Não aconteceu porque a Loop é uma editora que já tem as suas regras, eles tinham prioridades para lançar e eu preferi mesmo fazer uma edição de autor, foi uma opção própria.
– E em palco, discos, como vês a importância/destaque que é dada a um DJ de Hiphop?
Nelassassin – No meu caso eu não tenho razões de queixa, porque eu sei que há muito boa gente que me respeita e conhece a minha história.
O pessoal respeita que aquele é o MC, mas aquele que está atrás é scratcher, e penso que ter bons scratcher’s no Hiphop português é sempre uma mais valia. Acho que no Hiphop português saem muitos discos “whatever” e maus, mas o que sai bom é muito bom, portanto é complicado. Não há muito bom em quantidade, se calhar há mais cd’s fracos do que bons, mas quando isto contrabalançar, fica “on point”. Eu quando vou lá fora, não vejo MC’s a fazerem o que muitos MC’s em Portugal fazem, não vejo mesmo.
– “Muita gente me conhece e finge que não, deve ser por ser tão underground”, esta frase tem algum significado especial?
Nelassassin – Por acaso isso tem um significado bastante profundo, é principalmente para aquelas pessoas como por exemplo o dono de um club, ou aquelas pessoas que não conhecem o meu trabalho. Eu conheço muita gente que hoje fala-me e amanhã olha para mim e não me consegue falar, isso tanto de gajos que estão atrás de espectáculos como um gajo normal, meu vizinho, ou outros de qualquer lado, é no geral.
Eu não tenho medo de falar contigo só porque tu és isto ou aquilo, não tenho nada a ver. Sejas tu como fores, baixo, alto, magro, gordo... a minha educação, se eu te conheci, é pelo menos falar-te, mas há pessoas que fingem que não vêem.
– O que é para ti o Underground no Hiphop?
Nelassassin – Underground para mim é algo que não se deixa ver muito, não tem nada a ver com estilos músicais, passa pela atitude de cada um. Se tiveres uma atitude restrita, discreta, modesta, isso é underground. O underground, na minha opinião, é conseguires fazer o teu som, sem muitas condições e mesmo assim fazeres com skills, isso é underground.
– Planos para o futuro? Estás já com mais projectos em mão?
Nelassassin – Muitos, tenho um disco, que estamos ainda a trabalhar, que vou fazer com o Armando Teixeira, dos Bullet. O disco vai ser meu, as bases são todas minhas, feitas na MPC, e ele mete os venenos, aqueles efeitos dele.
E quero fazer um disco essencialmente só com mulheres, mas com alguns MC’s, um álbum mais soul, mais cantado, mas é Rap na mesma. Já tenho uma música com a Kika, outra com a Rita que entra neste meu álbum.
– Uma pequena palavra para os apreciadores desta cultura.
Nelassassin – Muito obrigado àquelas pessoas que me dão valor, aos meus fãs, se é que tenha, porque Portugal não é um pais que alimente muito esta cultura, é mais apreciadores. É a eles que deixo o meu muito obrigado, porque de momento estou a precisar muito que apreciem o meu trabalho. Eu sou um gajo novo, mas quero antecipar as coisas, se eu pudesse viver do Hiphop era lindo, mas apenas sobrevivo e é complicado. As coisas começam a apertar e tu tens que escolher por outras opções, mas parado nunca, isso está fora de questão, nem que faças só para ti. Mas eu não quero, tenho respeito às pessoas que apreciam o meu trabalho, não devo ter muitas, porque o scratch é talvez o menos comercializado no Hiphop, mas é o que está no início de tudo, é engraçado. Mas isto já está a mudar. Provavelmente para o ano vai haver campeonato ITF (Internacional Turntablism Federation), que foi a melhor notícia que recebi. A seguir à DMC é a melhor federação, a DMC é a mais importante.
Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista HipHop Nation |