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Entrevistas
H2T - HipHop TugaM.A.C. (Missão A Cumprir) - Dezembro/2004

M.A.C. (Missão A Cumprir)

Missão a Cumprir

Só os mais conhecedores de Hiphop nacional deverão já ter ouvido falar de M.A.C.. Apesar de só agora surgir esta oportunidade de se darem a conhecer através de um projecto próprio, já há largos sete anos que trabalhavam para que este álbum, "Missão a Cumprir", saísse nas ruas. Kulpado, TNT e Juanito, depois de algumas baixas no grupo, são estes os três elementos que hoje se mantêm fieis a M.A.C. e ao seu “Hiphop Suliano”, tal como eles próprios lhe chamam.
  Conheçam um pouco mais deste grupo oriundo de Almada e da sua Missão a Cumprir.

Falem-nos um pouco sobre as mutações que a composição do grupo já sofreu até hoje.
  Kulpado/TNT - Quando M.A.C. começou (na altura Mente Anti Censura), por volta de 1997, éramos apenas um grupo de putos, da mesma zona, da mesma escola, com o mesmo gosto pelo rap e pelas rimas. Aos fins de semana à noite juntávamo-nos todos em Almada velha a encher a cabeça e a fazer umas sessions de rimas, e com o tempo, de uma forma natural acabámos por formar o projecto. Na altura todos tínhamos pica para fazer beats e para escrever, e foi desta forma que começámos a fazer sons e a dar concertos por Almada.
  Naquele tempo o ambiente na margem sul ao nível de rap era muito diferente, os Nexo estavam mesmo a arrebentar e para nós eram uma fonte de inspiração. Almada Chokolate Rock estava no auge.
  Passados uns três anos, depois da participação no “Jackpot 2000” do Bomberjack, as coisas não estavam a resultar. Tínhamos diferentes objectivos e dois dos cinco elementos optaram por sair da banda e seguiram outros caminhos na vida. A saída do Monkey e do Santi foi uma saída sem stresses e as amizades ainda hoje se mantêm.
  A partir daí ficámos três, Kulpado, TNT e Juanito.

  – Há imenso tempo que vêm a preparar este vosso álbum cujo lançamento já tardava em ver a luz do dia. Porquê tanto tempo?
  Kulpado - Durante muito tempo nunca houve o dinheiro ou a oportunidade para gravar num estúdio como deve de ser, até que ganhamos um sorteio num concurso organizado pela câmara municipal de Almada. O prémio era a gravação de uma maquete. Foi o que fizémos mas optámos por guardar aqueles sons, gravar mais uns temas com o nosso dinheiro e fazer um álbum. O problema é que esse dinheiro não surgiu logo na altura. Quando gravámos o resto dos temas já tinha passado um ano!

  – Apesar de tanta espera, o cd acaba mesmo por ser lançado em edição de autor e talvez sem as condições que desejavam. O que se passou?
  TNT - Enquanto estávamos a gravar as restantes faixas do trabalho, fomos contactando com algumas pessoas e organizações de forma a saber se estariam interessadas em editar o álbum de M.A.C.. Obtivemos algumas respostas positivas e acreditámos nelas. Talvez por ter sido no “Boom” mais recente de Hiphop tuga em que os lançamentos de Cd’s sucediam-se, achámos que não haveria problema. Mas com todos esses lançamentos, bons e maus, sobrou pouco espaço para o nosso trabalho. Quando finalmente o completámos estávamos a zeros em termos de dinheiro para investir nas cópias dos cd’s e o mercado não permitia investimentos por parte de editoras, que elogiaram o nosso trabalho mas, ou estavam a apostar noutros projectos ou simplesmente não podiam apostar no nosso. É pena mas acho que é com os erros que se aprende e não há nada melhor do que contarmos primeiro com nós próprios e depois com os outros.
  Kulpado - Também gostava de aqui salientar e agradecer a ajuda do Chullage, que até nos chegou a levar a falar com uma editora.

  – Embora o formato caseiro, o álbum surpreende-nos com uma cuidada e bem trabalhada qualidade sonora. Como vos surgiu a oportunidade de gravarem em estúdio? Todos os temas tiveram o mesmo tratamento?
  Kulpado - Como já dissemos o álbum foi gravado em dois estúdios diferentes e isso não é muito bom, mas sem duvida não é um álbum gravado em casa apesar de ser vendido como tal.
  TNT - Apesar da gravação ter sido feita em dois estúdios, a mistura e masterização foi num só, no Rock Studio, pelo Pedro Madeira e pelo Ivo Gancho, a quem desde já agradecemos. Foi uma boa oportunidade para melhorar a qualidade do trabalho.

  – Nas vossas letras há uma constante afirmação da vossa zona, margem sul (“Hiphop suliano” , “música suliana”) e, até mesmo a maioria dos particinates convidados (senão todos) são também “sulianos”. Porquê esta exclusividade?
  Kulpado - A Margem sul é uma zona cheia de talentos desconhecidos e o Hiphop sulliano não é o melhor nem o pior, é único. As participações no álbum são todas da margem sul mas não foi programado, o pessoal que participa ou é nosso conhecido, que queríamos que tivessem alguma divulgação ou é pessoal com que sempre quisémos fazer som. A verdade é que ainda falta uma ou outra participação como a do Choko, mas fica para o próximo.
  TNT - Eu tenho orgulho em ser de Almada, Margem Sul, e acho que temos aqui muito potencial para o Hiphop. Manos com boas rimas, bons produtores de beats, bons writters, Dj’s e B-Boys. Se eu tenho isto tudo na minha zona porque é que hei-de ir à procura noutros sítios? Mas ao contrário do que possam pensar, nós não entramos nessas ondas de bairrismo, temos sempre as portas abertas para quem queira fazer colaborações ou projectos, seja quem for e de onde for.

  – Qual foi a vossa intenção ao convidarem músicos/instrumentistas a colaborarem neste vosso trabalho? Foi apenas uma oportunidade que surgiu para alguns destes vossos temas ou é esse o estilo de música que procuram?
  TNT - A nossa intenção foi dar um toque mais orgânico aos sons, para fugir um pouco à monotonia da programação e dos samples. Ao ouvirmos alguns temas ficávamos com a ideia de que faltava qualquer coisa, e como aqui na zona o que não falta são bandas e bons músicos, decidimos experimentar essa fusão. Acho que o resultado foi muito positivo.
  Kulpado -As pessoas que tocam instrumentos no álbum são todas nossas conhecidas e amigos de longa data o que facilitou o trabalho. Acabou por ser algo que queremos fazer mais vezes.

  – No panorama actual, sentem que há muita “fachada” no Hiphop nacional? Gera-se muita música sem conteúdo e focos centrados unicamente por moda ou, como afirmam, “deve ser da guita”?
  TNT - Temos de ver que o Hiphop em Portugal leva no mínimo dez anos de atraso em relação a qualquer outro país Europeu (nem sequer falo dos Estados Unidos). Temos ainda muito trabalho pela frente, não só ao nível de infra-estruturas mas também de mentalidade. Mas muito pessoal quer logo começar de cima, afirmando ser uma coisa que não é, e ignorando, na maior parte das vezes, as próprias raízes. A cultura da MTV não ajuda, pois “Americaniza” os jovens do nosso país, fazendo com que ignorem a sua própria cultura. É claro que Hiphop nasceu nos states mas isso é só um ponto de partida para uma expansão global e adaptação à realidade de cada país. Em Portugal temos tudo o que necessitamos para criar o nosso próprio Hiphop e temos também os nossos próprios problemas internos. Temos de pensar em temas novos e formas originais de os explorar. Caguem no pré-concebido e vamos inovar!

  – Este álbum, vai estar unicamente à venda nas lojas mais especializadas, quem não o encontrar à venda, como pode agir para o obter?
  TNT - Nós vamos criar um site de M.A.C. brevemente. Lá poderão encontrar toda a informação sobre a banda, este primeiro trabalho, concertos, etc... De qualquer das formas quem estiver interessado em adquirir o cd pode enviar um mail para mac_ms@hotmail.com, que nós responderemos o mais rapidamente possível. O álbum vai estar à venda em lojas como a KingSize ou a Supafly e outras lojas de street wear espalhadas pelo país.

  – Como os meios financeiros são um pouco escassos, penso que vão começar por lançar poucas cópias, até por uma questão de segurança. Uma edição mais numerosa e abrangente, depende desta primeira reacção por parte do público?
  Kulpado -Sim, pensamos que sim. Depende um pouco da aceitação do público mas achamos que vai correr bem. Este álbum para nós é visto mais como uma oportunidade de divulgarmos o nosso som.
  TNT - Vamos ver como correm as coisas. Se for possível e se valer a pena iremos de certeza apostar numa reedição talvez mais numerosa e com uma distribuição mais abrangente.

  – Ultimamente, têm estado na organização das festas de Hiphop no Observatório, em almada. Como têm corrido essas noites e que tal a experiência?
  TNT - As noites de Hiphop do Observatório são uma iniciativa que nos foi proposta pelo Nuno Salvador, que pretende divulgar este bar como espaço de interacção cultural, abrangendo várias actividades. Uma delas é o Hiphop nas suas várias vertentes. Tentamos divulgar bandas e projectos desde o graffiti ao breakdance que demonstrem qualidade e necessitem de um empurrão.
  Organizada pela MetroCúbico produções esta iniciativa já vai para a terceira edição e tem corrido bastante bem, embora ainda existam algumas arestas a serem limadas. Quem quiser saber mais informações procure em www.observatorio-global.com.

  – Qual é a vossa “Missão A Cumprir”?
  Kulpado - Continuar a mostrar a nossa maneira de ver o mundo e tudo na vida, simplesmente continuar a fazer música e não necessáriamente vendê-la.
  TNT - A nossa Missão A Cumprir é expandir o nosso som por todo o lado, pois este reflecte a nossa vida, as nossas experiências, aquilo em que acreditamos e pelo qual lutamos. Já levámos muita “pancada” nestes últimos anos e temos vindo a crescer como pessoas e músicos. Podíamos ter desistido mas não o fizémos e nunca o faremos.

  – Mensagem final da praxe.
  TNT - Se gostam a sério do que fazem nunca desistam. Com trabalho as oportunidades vão surgindo. Continuem a fazer música, a pintar, a scratchar (grande abraço ao Konecta!), a partir e a criar! Obrigado a todo o pessoal que sempre nos apoiou, nos bons e maus momentos – ACR!
  Kulpado - Continuem a ouvir rap tuga, comprem cds, apareçam em concertos apoiem o movimento. Obrigada à Hiphop nation por esta oportunidade e continuem o bom trabalho. Aguardem M.A.C.!!

Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista HipHop Nation

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