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Plasma
‘Esquadrão Central’ - Amadora

1 - Eu já fazia Beatbox, mas era o mais básico. Passado três meses de vir cá o Killa Kella, comecei a agarrar-me nisto mais a sério. Depois ouvia cenas de Scratch, Rahzel, a partir daí, foi tipo à 3 anos atrás para aí.
2 - Não tenho assim muito tempo, porque ando a trabalhar um pouco mais fora, mas é mais aos fins de semana, de duas em duas semanas, mais ou menos.
3 - Sim, já estou ai com um projecto, juntamente com o El-Notaes mais alguns convidados. Um Cd em que algumas faixas vão ter participação de MC’s, e uns scratches por parte de alguns DJ’s, mas de resto é tudo Beatbox. Vou começar já a trabalhar, a ver se lanço já para o ano que vem.
4 - Acho que sim, qualquer pessoa consegue, há muitos MC’s que fazem. Se se agarrarem mesmo à cena e gostarem daquilo que estão a fazer, conseguem.
5 - Penso que vai ser um bocado dificil, mas acredito que sim, eu pelo menos já considero como a 5ª vertente. Está a sobressair bastante mesmo, pelas cenas que vejo aí na internet, principalmente nos Estados Unidos, já há concertos de Beatbox e assim, acho que estão a aderir cada vez mais ao Beatbox.
6 - O Beatbox é como se fosse o DJ mas sem pratos e, se o pessoal gostar mesmo do movimento Hiphop, tem que ter em atenção aquilo que fazemos, a partir daí, talvez esta arte saia mais valorizada.
Dragon
‘Momentum Crew’ e ‘Urbio’ - Porto/Maia

1 - Comecei a interessar-me pelo Beatbox já há muito tempo, não me lembro ao certo. Foi quando estreou o filme da “Academia de Policia” na televisão... Apareceu aquele policia negro a fazer sons de sirenes e mais coisas, eu ouvi e comecei a tentar imitar – na altura até conseguia relativamente bem. Mas pronto, depois esqueci-me um bocado disso, até que há algum tempo atrás, um colega meu, que treinava comigo Breakdance, o ‘FatLoko’, mostrou-me umas cenas de Rahzel e eu bati mal. Comecei por ouvir, imitar alguns dos sons e pronto. A partir daí está a criar!
Infelizmente não tive nenhum contacto directo de onde receber influências. Tive, apenas, ajuda de um colega meu que também começou mais ou menos ao mesmo tempo. Só que ele tinha um estilo muito diferente do meu, tinha aquilo a que eu chamo um estilo mais ao menos sujo, não por ser mal feito... é complicado explicar, só mesmo fazendo. Mas o facto de termos estilos diferentes serviu para aprendermos um com o outro. Outro apoio que também tive foi o do Júlio, o B-Boy, que ia muitas vezes lá fora, onde havia muitos campeonatos de Beatbox juntamente com Breakdance. Ele trazia-me muitas ideias, que apesar de não as conseguir fazer, me explicava, eu percebia e tentava fazer.
2 - Varia muito. Todos os dias costumo praticar cerca de três a quatro horas. Nem sempre seguidas, mas, tipo, faço uma hora, depois paro e faço meia, e por aí fora. Para o fazer, qualquer situação serve. Às vezes estou a tomar banho, demoro para aí meia hora, e começo a fazer. Há aquelas pessoas que cantam no chuveiro, eu faço beats no chuveiro.
3 - O meu objectivo é ajudar os meus manos. Ajudar o ‘Urbio’, o ‘Mansão’, o ‘Max’. Ajudar, no máximo que puder, o pessoal que está no underground!
Depois, até posso pensar lá fora. Agora uma coisa, o meu objectivo não é ser mais um, é ser o melhor! Pelo menos cá. Cá, por muito nível que se tenha é sempre aquela coisa. Por exemplo, por muito bom que um MC seja cá, na América, que foi onde surgiram as cenas, vai haver sempre um melhor. Por isso é esse o meu objectivo, não é que seja lá fora o melhor, mas sim cá.
Relativamente à possibilidade de compor músicas e até gravar um disco, posso pensar nisso, mas talvez mais tarde. Tem que ser com calma. Mas no caso de o fazer não ia ser o disco só de Beatbox. Porque é assim, eu gosto de Beatbox, gosto muito de ouvir Beatbox, mas não ia limitar-me só a isto. Ia fazer, por exemplo, um CD com turntablism, com DJs a controlar os pratos, com MCs e também com o Beatbox. Queria por as três cenas... Só as três porque o Breakdance e o Graffiti não dão. Se calhar, qualquer dia, há-de alguém fazer sons com latas (risos...) ou até com as sapatilhas dos B-Boys a raspar no chão (risos...)... Já me estás a dar ideias!
4 - É e não é. Porque é assim: há pessoas que praticam e não gostam. Ou seja, se praticares e não gostares, por muito que possas praticar nunca vais ser um bom Beatboxer. Isto é, para seres um bom Beatboxer, tens de gostar do que estás a fazer. É como um bom Writer: um bom Writer a pintar, não é só estar lá a fazer uns riscos. Tal como um MC não vai estar a cantar por cantar... tem de gostar. Se não gostar, por muito que pratique, pode evoluir, mas nunca vai ser grande coisa.
De resto qualquer pessoa pode fazer Beatbox. Quando vais na rua e fazes um som, por mais simples que ele seja, é Beatbox. O Beatbox é mesmo isso, consiste em fazer sons com boca. Depois podes trabalhá-los mais ou menos, mas com a prática vai-se lá. A prática faz a perfeição!
5 - É assim, para começar, há nove vertentes e, já é aceitado como quinto elemento. Em Portugal é que, infelizmente, estamos muito atrasados. Muita gente pensa que é só o DJ, o MC, o B-Boy e o Writer, mas não é assim! Lá fora, já há muitos anos atrás, quando surgiram os MCs, surgiram também os Beatboxers, porque havia necessidade de ter alguém a fazer beats. As pessoas não iam trazer os gira-discos às costas para ter beats para os MCs. E o que é que aconteceu? O pessoal começou a fazer Beatbox. É, portanto, um elemento que já surgiu há muito tempo. Há é muito pessoal que se dedica a uma cena e nem estudam. Nem sabem o que é o Hiphop realmente. Depois um gajo pergunta “Sabes o que é o Hiphop?” e eles respondem “Ah, Hiphop é dança!”, ou “Hiphop é música”. Muita gente não sabe que o Hiphop é uma cultura, tem mais elementos.
Agora, em relação a não ocupar a posição que eu acho que devia ocupar e de não lhe ser dado o devido valor, é porque aparecem miúdos estúpidos com a mão na boca a fazerem uns sons fraquíssimos a dizerem que fazem Beatbox. É claro que o pessoal ouve aquilo e depois não ligam. Falar de Beatbox para quê?
Depois há outra coisa: quando o Hiphop começou cá, deviam haver pouquíssimos, ou se calhar nenhuns, Beatboxers... Mesmo agora há poucos. E, infelizmente, cá no Porto (não conheço Lisboa) o Beatbox, para ser reconhecido, é preciso que o Beatboxer conheça MCs conhecidos pelo pessoal. Se não, nunca vai ser respeitado.
Felizmente, agora já se vai ouvindo algum pessoal a meter isso nas músicas, outros vão falando, como por exemplo o Fuse com a dica do “Beatbox com as bordas do cu...”. Mas lá está, é aquela cena do teres que ser conhecido de algum MC, senão é difícil.
Agora tenho feito as minhas cenas, tenho estado com os meus manos, que já me conhecem há muito... Quando os conheci, já fazia Beatbox. Eles ao menos reconhecem-me.
6 - A minha mensagem seria a pedir reconhecimento. Reconhecimento, respeito e paz. Mas no caso de Portugal, é mesmo reconhecimento.
Wilson & Mauro
‘K.G.B.’ – Odivelas

1 - Mauro - Ando no 12ºano, e comecei a ouvir Hiphop a partir do 5º ou do 6º ano, altura em que me comecei a interessar pelos instrumentais. Já antes disso fazia uns sons, mais Techno e coisas mais de dança. Foi então que comecei a tentar imitar batidas mais elaboradas até chegar aos instrumentais de Hiphop.
Wilson - Comecei a interessar-me pelo Beatbox no meu 10ºano, já lá vão quase quatro anos. Estudava num colégio interno, em Albergaria-a-Velha, perto de Aveiro, e eram poucas as vezes que me encontrava em Lisboa. Passava lá a maior parte do tempo e só vinha para Lisboa nas férias do natal, da Páscoa e, por vezes, um ou outro fim-de-semana para estar com a família. Era um colégio cheio de regras, onde calças largas, tranças, brincos e coisas parecidas eram proibidas. Saí do colégio quando acabei o 9º ano, se não me engano em 2000/2001, e tudo começou no ano lectivo seguinte. Hoje, faço parte de um grupo chamado KGB. Calígula, Violant e Criminal foram os meus primeiros contactos. Em qualquer canto da escola, lá estavam eles a cantar. Pouco tempo depois de os conhecer encontreio-os na biblioteca a cantar e um miúdo a dar Beatbox. Quando o vi a fazer Beatbox, fiquei maluco e, nesse mesmo momento, sem saber nada de Beatbox, entrei e ajudei-o no beat. A partir desse dia, Beatbox passou a ser o meu ideal. Lembro-me que, no dia a seguir, não sei como, já era muito bom no Beatbox. Depois fui para Inglaterra e comecei a treinar lá com o meu primo, o DJ Scotch, que foi uma grande influência para a minha evolução. Na altura o DJ Scotch já era uma máquina no Beatbox e formámos um grupo, os Trouble Cousins. Passei a ouvir Rahzel e outros, e nesse mesmo ano conheci o Mauro. Eu e o Mauro, somos hoje os Beat Boys dos KGB e estamos juntos há mais ou menos quatro anos, o que tem vindo a ajudar muito a nossa evolução.
2 - Wilson - Não temos horas marcadas, é pouco o tempo que praticamos juntos. Quando nos encontramos praticamos e, por vezes, fazemos gravações em minha casa. Para compensar, pratico muitas vezes sozinho, em casa, na rua... em todo o lado. Eu e o Mauro já estamos muito habituados um ao outro, é fácil acompanhá-lo e ele acompanhar-me no Beatbox. Participamos em vários eventos, o que nos obriga a praticar pouco tempo antes, apenas isso. Estou também presente nos concertos do Lancelot (Fundação), o que me faz praticar ainda mais.
Mauro - Combinar um sítio e uma hora para praticarmos juntos, não o fazemos. Praticamos cada um nas horas livres, no banho, a ver TV, a comer... (risos), praticamos assim. Depois, quando temos algum concerto, o Wilson avisa-me e juntamo-nos uma hora antes para fazer umas sequências.
3 - Wilson - Agora sou eu quem produz os instrumentais para o meu grupo (KGB) e estamos a trabalhar para mais tarde, quem sabe, lançar um CD que integre uma ou duas faixas de Beatbox e freestyle. Gostava, por outro lado, de vir a fazer uma compilação, um CD só de instrumentais em Beatbox, com a participação de vários artistas, ou seja, um instrumental para cada artista. Estou muito ligado ao Razhel; para mim, ele é o Rei do Beatbox e gosto muito do seu trabalho. Na realidade o seu trabalho é o meu sonho.
4 - Wilson - O dom nasce com a pessoa, mesmo que ela não se aperceba, ele pode estar como que adormecido. Não interessa quando começas ou quando vais começar, se tens o dom serás melhor que aqueles que já praticam há anos.
Assim como muitos outros, também considero o Beatbox uma arte. Por um lado, acredito que é acessivel a todos, desde que pratiquem, mas também acredito que cada um tem o seu limite. Há uns que chegam mais longe que outros, mas os que chegam mais longe são aqueles que nascem com o tal dom. O que tento explicar é que, existem pessoas que apreciam o Beatbox, fazem-no e praticam-no apenas porque gostam e acham bonito. Acredito que estas pessoas têm o seu limite. Quem nasce com o dom tem muito que adquirir ao longo da sua vida, acho que a aprendizagem do Beatbox não se completa de um dia para o outro, por isso discordo do Mauro quando ele me diz que já chegámos ao nosso limite e que nunca iremos ser um Razhel. Quando vi pela minha primeira vez o meu amigo na biblioteca a fazer Beatbox, não sonhava que um dia iria chegar a este nível e, no entanto, cheguei. Posso até não ser um Razhel, mas ainda sou novo neste movimento, tenho apenas quatro anos de prática. Não sei o que vou ser quando chegar aos anos de prática de um mestre como o Razhel. Digamos que Rahzel é um pai no Beatbox e, se eu me dedicar como ele se dedicou, quem sabe, quando chegar à sua idade também serei um pai... eu e muitos outros.
Mauro - O Beatbox é um dom que nasce com a pessoa. Mas, se for praticado no dia-a-dia, as pessoas conseguem atingir níveis superiores. Esse desenvolvimento varia de pessoa para pessoa, e chega a certo ponto em que não se desenvolve mais. Cada pessoa tem os seus limites, em níveis diferentes.
Wilson - Há pessoas que conseguem evoluir outras que não. Vou dar o meu exemplo: quando comecei a fazer Beatbox, foi um pouco vindo do nada, nunca me passou pela cabeça vir a fazer isto, mas ouvi, interessei-me e comecei a fazer. Dois dias depois já fazia muito bem Beatbox... e tenho vindo a evoluir, tenho praticado. Há pessoas que podem apreciar Beatbox, mas não têm o dom e, por mais que treinem, por mais que se esforcem, encontrarão o seu limite. Beatbox é como tudo, Beatbox é um dom... senão, amanhã eu seria um Ronaldo.
5 - Wilson - Os real Hiphopers sempre consideraram o Beatbox como uma vertente. Um grande professor de Hiphop, que é o KRS-One, identifica seis vertentes no Hiphop. O Beatbox é capaz de ser das mais antigas. Nos anos 70, muitos Breakdancers dançavam ao som do Beatbox e muitos grandes MC’s formaram-se a fazer grandes freestyles na rua, ao ritmo do Beatbox. Só que o aumento de produção desfoca um bocado esta vertente, mas eu sempre a considerarei. Grandes grupos pioneiros do Hiphop, como os The Roots, até têm mesmo no grupo elementos especializados no Beatbox, como o Scratch e o Rahzel. E, em Portugal, já se nota mais movimento de Beatbox, muita gente a aderir e, onde vou, noto que são muitos os que apreciam, desde jovens até aos mais idosos.
Mauro - Eu discordo do Wilson. Acho que Portugal não adere muito bem às coisas modernas. Se formos ver lá fora, já há vários grupos, como é o caso dos Saian, em que todos os membros fazem Beatbox, ou o Rahzel que é mesmo o rei. Há aqueles que gostam, tentam, praticam, mas não chegam ao nível desejado. Eu, se alguma vez conseguisse ser um Rahzel, era mesmo tudo para mim.
6 - Mauro - Quem aprecia, quem gosta realmente de Beatbox, acho que tem que praticar, tem que ir em frente. Assim como eu gosto e o meu desejo é evoluir, acho que devem fazer o mesmo.
Wilson - Não desconsiderem a importância do despercebido; barulhos sonoros com a boca, fizeram muitos dos que somos hoje! Quem realmente gosta deve praticar.
Por Rui Meireles e Pedro Bernardino para H2T - www.h2tuga.net e revista HipHop Nation |